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Embargos Culturais

D. Pedro II, o patrimônio histórico do Oriente e o sofrimento humano

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No dia 13 de janeiro de 1877, D. Pedro II, que então viajava pelo Oriente, proferiu uma palestra em Alexandria, no Egito, tratando de um assunto muito atual: o “vandalismo dos viajantes” foi o tema de sua intervenção. Essa informação é colhida em impressionante e bem redigido e editado livro de Roberto Khatlab, As viagens de D. Pedro II[1]. O autor dessa instigante obra nasceu no Brasil (em Maringá, no Paraná) e presentemente vive no Líbano.

Com base nos diários de D. Pedro II, Khatlab reconstruiu a trajetória do imperador brasileiro no Oriente e no norte da África. Registrou que D. Pedro II não se levava pelo apelo fácil e piegas da romanticização do Oriente, assunto tratado por Edward Said, neste clássico do século XX que é Orientalismo. O livro de Khatlab é também daqueles que se lê sem parar, com riquíssimas ilustrações e com comentários inteligentes: há um orientalista brasileiro, certamente.

D. Pedro II inquietou-se com o péssimo estado de conservação dos monumentos que visitou. O vandalismo havia danificado símbolos da cultura egípcia antiga. Khatlab reproduziu excerto de diário de D. Pedro II, que havia anotado, ainda antes, em 17 de dezembro de 1876, que o “Quediva bem poderia gastar uma parte da soma, que prodigaliza com os seus palácios, na conservação desses monumentos, tão interessantes para o estudo do Alto Egito”.

O insólito viajante brasileiro, talvez despido das honras imperiais que quem sabe nem tanto presasse, emblematicamente matiza a reação de um homem culto para com o desprezo dos monumentos antigos. O imperador também andou pela Grécia (de onde derramou cartas à Condessa de Barral)[2]; na Terra Santa, teria vivido intensamente sentimentos religiosos que no Brasil não demonstrava[3].

Hoje, notícias sobre a destruição de monumentos históricos, especialmente na Síria, a exemplo do que ocorreu em Aleppo, Bosra, Homs, Alma Arra, Ebla, Baal Shamin, Krak des Chevaliers e Ummayad, entre tantos outros lugares, invoca-nos o desespero de D. Pedro II, ainda que no Egito, e por muito menos.

Tudo isso, sem contarmos a perda interminável de vidas inocentes, em naufrágios e humilhações em outros cantos sentidas, tudo denunciando que a condição humana é por vezes deplorável e que alguns de nós ainda vivemos como nossos mais remotos ancestrais, como que encalacrados em cavernas e armados de pedras na mão. 


[1] Khatlab, Roberto, As Viagens de D. Pedro II, Oriente Médio e África do Norte, 1871 e 1876, São Paulo: Benvirá, 2015.
[2] Carvalho, José Murilo, D. Pedro II, São Paulo: Companhia das Letras, 2007, p. 71. Besouchet, Lídia, D. Pedro II e o século XX, Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1993, p. 330.
[3] Barman, Roderick J., Imperador Cidadão, São Paulo: Editora Unesp, 2012, p. 399. Tradução de Sonia Midori Yamamoto. 

Arnaldo Sampaio de Moraes Godoy é livre-docente em Teoria Geral do Estado pela Faculdade de Direito da USP. Doutor e mestre em Filosofia do Direito e do Estado pela PUC-SP. Professor e pesquisador visitante na Universidade da California (Berkeley) e no Instituto Max-Planck de História do Direito Europeu (Frankfurt).

Revista Consultor Jurídico, 31 de janeiro de 2016, 8h00

Comentários de leitores

1 comentário

Bases da cultura ocidental

Bruno César Cunha (Advogado Assalariado - Civil)

Belo texto, muito inteligente ao traçar um paralelo do inconformismo do imperador já no passado com ao vandalismo praticado pelos extremistas.
Por essa razão eu defendo uma força tarefa das potências para dar fim à esses conflitos, nem que seja ao velho modo militar.
O objetivo destes vândalos terroristas é tornar esquecida a presença ocidental no planeta. Sabe-se lá qual seria o prejuízo da humanidade ao ver ruidas as bases da cultura ocidental. Talvez seja um prejuízo superior até ao causado pelo erro histórico dos colonizadores europeus nas Américas. Destruir as bases de qualquer cultura não só viola os Direitos Humanos, como também gera um prejuízo ao próprio destruidor, pois a oportunidade de estudar e aprender com os erros e acertos das culturas antigas deixa de se existir. Se D. Pedro estivesse por aqui, logo diria: Acabem logo com essa palhaçada. Destruir ruínas romanas e castelos dos cruzados é uma afronta à tona sociedade ocidental.

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