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Ideias do Milênio

"A Europa não foi capaz de lidar com a crise de uma forma racional"

Reprodução

Entrevista concedida pelo economista e político grego Yanis Varoufakis à jornalista Elizabeth Carvalho, para o programa Milênio — um programa de entrevistas, que vai ao ar pelo canal de televisão por assinatura GloboNews às 23h30 de segunda-feira, com repetições às terças-feiras (17h30), quartas-feiras (15h30), quintas-feiras (6h30) e domingos (14h05).

O ex-ministro de Finanças do governo Alexis Tsipras é um grande apreciador das boas metáforas. Escreveu um best-seller, O Minotauro Global, associando a figura mitológica e voraz de uma criatura metade homem e metade touro à estratégia dos EUA de manter déficits crescentes a partir da década de 1970 com o fluxo de capital de outros países. O minotauro de Varoufakis morre com a crise de 2008, mas deixa o mundo mergulhado em um labirinto. Durante os cinco primeiros meses do ano, enfrentou o Olimpo da Zona do Euro para renegociar uma dívida insolúvel que asfixia a Grécia. Tinha um plano que não convenceu os seus credores. Acabou abandonando Bruxelas, como abandonou o governo grego de Alexis Tsipras, por discordar de sua capitulação. Abandonou também o Syriza, o partido de esquerda que se equilibra no poder da Grécia depois que depôs as armas de combate à austeridade imposta pelas instituições que ditam as regras para os 19 países que abraçaram a moeda comum. Yanis Varoufakis, que nos recebeu em seu apartamento em uma breve pausa em Atenas, continua apostando que é possível mudar as regras do jogo.

Elizabeth Carvalho — A dinâmica política na Europa evoluiu muito rápido em 2015. Começou com uma difícil negociação sua com os países da Zona do Euro, acordo que a Grécia não conseguiu cumprir. Depois, veio essa imensa crise de refugiados que está afastando os países da Europa e a comoção com os ataques a Paris, que tiveram resultados dramáticos. Você pode explicar a ligação entre esses acontecimentos para nos ajudar a entender o que está acontecendo nesse novo Velho Mundo?
Yanis Varoufakis —
Se analisarmos, veremos que falhamos ao lidar com essas crises consistentemente. E, durante esse processo de falhas em sequência e de negação do aspecto estrutural da crise, as nações europeias se afastaram, umas se viraram contra as outras. Os acontecimentos no Oriente Médio são totalmente independentes da estrutura da Zona do Euro. Mesmo se a tivéssemos planejado bem, os americanos teriam invadido o Iraque e criado uma cisão entre sunitas e xiitas, a guerra Irã-Iraque, anterior a isso, teria precipitado tudo, o colapso da rigidez estrutural do Iraque teria impregnado a Síria independentemente do que a Europa fizesse. Mas o que nós fizemos na Europa nos fragmentou, então, quando a crise chegou, não fomos capazes de lidar com ela de uma forma racional e europeia. Não conseguimos lidar com um problema comum de forma sistemática. Essa é a conexão.

Elizabeth Carvalho — Tentando entender do ponto de vista da Europa, você tinha a intenção, juntamente com outros líderes esquerdistas, como Oskar Lafontaine e Jean-Luc Mélenchon, de lançar um plano B para a Europa.
Yanis Varoufakis —
Não exatamente. Nós promovemos uma conferência para discutir o futuro da Europa. Não tínhamos um plano B comum. A minha visão é muito diferente da de Oskar Lafontaine, que defende o retorno às moedas nacionais. Eu discordo profundamente. Mas nós concordamos plenamente que o sistema atual não está funcionando. A arquitetura atual da Zona do Euro está fracassando.

Elizabeth Carvalho — Como dever ser o projeto de um sistema monetário para a Europa?
Yanis Varoufakis —
Como uma federação. Se, em 2008, os EUA fossem estruturados como a Zona do Euro é, um estado pequeno como Nevada, a crise começou com o preço dos imóveis caindo, as construtoras perdendo dinheiro e demitindo funcionários. Como perderam dinheiro, não conseguiram pagar os bancos, que tiveram problemas graves. Imagine se o estado de Nevada tivesse que arcar com o aumento dos benefícios da previdência para os desempregados de Nevada e, ao mesmo tempo, tivesse de resgatar os bancos. Aí Nevada iria até Washington e diria: “Estamos falidos. Ajude-nos”. E Washington diria: “Nós lhe daremos um empréstimo polpudo com a condição de que reduza as pensões e os salários”. Isso achataria a renda de onde sairia o pagamento do empréstimo. Nevada faliria. O estado e os bancos de Nevada iriam à falência. Por que isso não aconteceu nos EUA? Porque o Federal Reserve, o Banco Central, socorreu os bancos. Não foi o estado que fez isso. E o governo federal pagou os benefícios da previdência. Os beneficiários não saem do orçamento estadual, mas do federal. Como o governo federal tinha um Banco Central por trás para comprar as contas do Tesouro, os EUA não tiveram os problemas que a Europa tem.

Elizabeth Carvalho — É possível haver uma federação na Europa?
Yanis Varoufakis —
Não, hoje não é possível, mas podemos simular uma. Podemos usar as instituições existentes, como o Banco Central, para simular uma federação. Tecnicamente, é possível fazer isso em uma semana. Politicamente, está se provando impossível. Eu acho que não estamos simulando uma solução federal porque... Considere o seguinte quadro: se a Zona do Euro acabasse, se Alemanha e França saíssem e voltassem para suas moedas — o franco e o marco —, haveria um êxodo de dinheiro da França para a Alemanha. Por quê? Porque todo mundo anteveria, corretamente, que o marco subiria, e o franco cairia. Isso aconteceria em toda a Europa. Sim, mas França e Alemanha formam o eixo. François Hollande, ou seja quem for o presidente francês, sabe que, se o euro fracassar, a França será destruída, e a Alemanha será inundada de dinheiro. A Alemanha não tem esse temor. Esse medo assimétrico assegura que, sempre que a chanceler alemã diz alguma coisa, o presidente francês não responde. Esse é um poder imenso que a chanceler alemã tem. Ela sabe que, se tornarmos a Zona do Euro totalmente indivisível, à prova de fracasso — que é o que precisamos fazer para consertá-la —, ela perde esse poder, porque o presidente francês, seja ele quem for, deixará de temer o fracasso. Então o imenso poder político que a chanceler alemã tem vem do fato de não estarmos ajustando o euro. Existe um incentivo político para isso.

Elizabeth Carvalho — Quero falar sobre a Grécia, a Nevada europeia, digamos. Como acha que o governo Tsipras está se saindo na implementação desse programa de resgate?
Yanis Varoufakis —
Temos um conjunto de circunstâncias muito curioso e desesperadamente triste. Acho que é um caso inédito no mundo. O governo está aprovando vários projetos no Parlamento sem acreditar em nenhum deles. E diz isso explicitamente. Isso nunca aconteceu na história humana: um governo apresentar ao Parlamento projetos de lei que o governo diz que são ruins. Se perguntar por que ele faz isso, porque é obrigado pelos termos da rendição, ou melhor, do memorando de entendimento, com a troika de credores. Isso é inédito.

(A Grécia acumulou uma dívida de 320 bilhões de euros. O equivalente a 177% do seu PIB. Varoufakis pediu demissão 12 horas após 61% dos gregos votarem contra mais medidas de austeridade fiscal. Ele deixou o cargo por ser considerado “muito difícil” nas negociações com os outros países da Zona do Euro.)

Yanis Varoufakis — Eu não sou mais ministro da Fazenda porque me recusei a assinar esse acordo. Ele não possibilitaria nossa reforma, não recuperaríamos o crescimento, não salvaria os bancos, não nos permitiria pagar nossas dívidas. Contrairíamos novas dívidas e aprofundaríamos nossa insolvência e nossa incapacidade de pagar as dívidas, tanto as novas como as antigas. Então eu não assinei, mas o que foi fascinante, absolutamente fascinante, foi que os próprios credores, a troika, não acreditavam no acordo que nos empurravam goela abaixo. O FMI claramente não acreditava nele. Eles até disseram isso em público. Eles admitiram que a dívida grega não é sustentável. Se nossa dívida é insustentável, por que nos emprestaram dinheiro? Um banco jamais daria um novo empréstimo a um devedor cuja dívida não é sustentável. Eu lhe asseguro que o Banco Central Europeu sabe que isso não é viável. O ministro da Fazenda alemão me disse que concordava comigo que não era viável. Então tínhamos uma troika de credores nos empurrando goela abaixo uma série de reformas e políticas fiscais, um programa, que sabiam que falharia. Nós sabíamos que falharia e resistimos, mas, no fim, Alexis Tsipras, o primeiro-ministro, concordou em implementá-lo sob pressão. Ele chamou de golpe. Ele próprio chamou de golpe. O primeiro-ministro. As pessoas que impuseram o acordo não achavam que ele funcionaria. O que você teria feito no lugar dele? Eu teria dito não.

(Na mídia de todo o continente, o carismático Yanis Varoufakis  é chamado de “marxista errático”, “economista rock star” e “sex symbol”. Na verdade é um europeísta convicto em busca de parceiros para urgência de conserto dos defeitos de fabricação da Zona do Euro. Quer unir a esquerda europeia em torno dessa ideia.)

Elizabeth Carvalho — Eu sempre tive a impressão de que, em certo momento das negociações, você lançaria mão de um plano B para tirar a Grécia da Zona do Euro.
Yanis Varoufakis — Fiz questão absoluta de esclarecer que meu plano B nunca envolveu a saída da Grécia. O plano de contenção, a nossa contraproposta, nunca envolveu a saída da Zona do Euro. Ele envolvia inadimplência, não pagar os empréstimos, porque não podíamos, e criar um sistema paralelo de pagamento digital quando os bancos fossem fechados, como foram, no dia 30 de junho, que nos permitiria continuar fazendo os pagamentos, mantendo a liquidez na economia, até que saísse um acordo. E esse sistema paralelo não seria em dracmas, mas em euros. Portanto, eu sempre fui consistente.

Elizabeth Carvalho — Pôr a Europa em ordem significa que você tem uma ambição política?
Yanis Varoufakis —
Eu sou um político relutante, altamente relutante. Nunca quis ser político, mas, quando joguei meu chapéu no ringue político, passei a ter uma obrigação para com as pessoas que acreditaram na análise que eu fiz e nas visões que propaguei. E hoje minha grande preocupação é que a Europa esteja se encaminhando para uma versão pós-moderna dos anos 1930, com a ascensão dos ultranacionalistas, dos fascistas e dos nazistas, aqui e em outros países, com as forças centrífugas que estão separando a Europa e fazendo muitos estragos no restante do mundo.

(O primeiro-ministro húngaro, Viktor Orban, um ultranacionalista de direita, é chamado de “o defensor da Europa”. Ele deu ordens para impedir que imigrantes passassem pela Hungria. Fechou fronteiras com centenas de quilômetros de arame farpado.)

Yanis Varoufakis — Acho que, como cidadãos, como membros do Iluminismo europeu ainda, todos nós temos a obrigação de sair de nossa zona de conforto não para escrever um romance, mas para participar da política para deter isso.

Elizabeth Carvalho — Isso significa um novo partido político? Porque você saiu do Syriza.
Yanis Varoufakis —
Eu chamaria de movimento, um movimento pan-europeu. É nisso que estamos trabalhando. Uma lição que aprendi em meus cinco, seis anos no governo foi que esse sistema político antigo baseado em nações acabou. A ideia de criarmos um novo partido aqui na Grécia, fazermos promessas sobre o que faremos para o povo grego, sermos eleitos e irmos a Bruxelas começar tudo de novo, as mesmas negociações intermináveis e inúteis, não funciona. Portanto, ou criamos um movimento que permita que os europeus se unam, reúnam forças, confrontem os problemas em comum desde o início, e não uma aliança entre partidos nacionais que defendam suas agendas, mas, desde o início, um partido europeu... Eu chamo de movimento, porque partido remete a hierarquia, e não estamos prontos para isso.

Elizabeth Carvalho — Acha que é um bom momento? Os esquerdistas estão de certa forma fracassando na Europa. Há uma ascensão da extrema direita em muitos lugares.
Yanis Varoufakis —
A esquerda está fracassando porque se concentra no Estado-nação, no que o governo pode fazer pelo povo. A resposta é: nada. Você pode estar no governo e não ter poder. Alexis Tsipras não tem poder, ele governa. François Hollande não tem poder algum. Merkel tem um pouco mais, mas não tanto assim. Portanto, uma esquerda que quer mudar o mundo se concentrando num governo que não pode mudar o mundo é uma contradição em termos. Por isso, ela está fracassando. Já os ultranacionalistas, que querem separar a Europa e trazer de volta as nações fortificadas, o eleitorado entende. Ele entende a proposta de Le Pen, que é construir muros nas fronteiras, cercar a França e voltar ao século 19. Fazer isso seria catastrófico, mas ao menos há uma lógica. É uma lógica tóxica, mas ela existe. A esquerda não tem lógica.

(Após os recentes atentados em Paris, a extrema direita francesa ganhou força. O discurso era de vigilância e aumento de segurança contra grupos considerados perigosos ao país. Marine Le Pen foi derrotada nas últimas eleições regionais, mas a Frente Nacional obteve um número recorde de votos.)

Yanis Varoufakis — Não queremos fronteiras, mas, ao mesmo tempo, não há um plano que Hollande, Tsipras ou qualquer líder europeu tenha apresentado para reformar a Europa de forma que ela volte a ser democrática. Esse é o grande problema da Europa: não há democracia, não há responsabilização. Se a esquerda se organizar no nível pan-europeu, não para trazer o socialismo... Não é hora de falar nisso. Não é o momento, se é que um dia vai ser...

Elizabeth Carvalho — Por que motivo?
Yanis Varoufakis —
Pela democracia. Democratizar a Europa. Que tal? É um slogan muito simples, significativo, capaz de mobilizar a esquerda, o centro, a direita liberal e levar a esquerda de volta a uma posição hegemônica.

Elizabeth Carvalho — Não acha que estamos entrando numa era distópica?
Yanis Varoufakis —
Acho. Exatamente. Você me perguntou se estou interessado em buscar um papel de liderança política e eu disse que não, que preferiria fazer outras coisas, como ouvir música ou ir mais ao cinema, mas, como estamos indo em direção a uma distopia, acho que não temos o direito moral de privatizar nossa vida e desfrutar de prazeres privados.

Elizabeth Carvalho — A América do Sul está passando por um movimento de certa forma parecido com o que a Europa enfrenta. Há uma nova onda direitista surgindo na América do Sul. Como você analisa isso?
Yanis Varoufakis —
Para responder diretamente à sua pergunta, uma palavra: China. Depois que a China começou a crescer rápido no final dos anos 1990 graças a seu modelo particular de capitalismo coletivo, a América Latina se beneficiou enormemente como um fornecedor importante de tudo, desde soja a cobre, no caso do Chile, a petróleo, no caso da Venezuela, para a China. A China se tornou o país que mais compra do Brasil. Ultrapassou os EUA. O Brasil se beneficiou enormemente por causa da China, e o presidente Lula se beneficiou enormemente usando o crescimento da riqueza resultante da China para redistribuir e reescrever as regras do jogo. E a classe dominante do Brasil nunca perdoou Lula por isso, mas ela não podia fazer nada porque a torta estava crescendo, e a redistribuição estava tirando milhões de brasileiros da pobreza. No entanto, para que a China continuasse crescendo, para que continuasse sendo o motor que empurrava a América Latina com ela, além da África e de outras partes do mundo, inclusive a Alemanha, depois de 2008, quando os países do Ocidente começaram a encolher graças ao colapso de seus setores bancários deficientes, a China substituiu a demanda dos EUA e da Europa por bolhas que ela própria criou. Ela incentivou o investimento criando uma bolha no mercado imobiliário em lugares como Xangai e Shenzhen. Pequim fez isso de propósito, para ganhar tempo até que Europa e EUA se recuperassem e a demanda voltasse a crescer. Mas a Europa não se recuperou, infelizmente, e os EUA estão rateando. A certa altura, essa bolha que a China criou intencionalmente e que estava mantendo a América Latina em alta começou a esvaziar. Quando ela começou a esvaziar, há cerca de um ano, a América Latina encolheu ainda mais rápido.

Elizabeth Carvalho — Quero voltar ao movimento pan-europeu, uma esquerda que quer deixar a Zona do Euro. Como isso vai funcionar?
Yanis Varoufakis —
Falando como economista, não tem como funcionar. Abandonar o euro, recriar moedas próprias e voltar ao mecanismo de câmbio europeu... Nosso mecanismo de taxas de câmbio fracassou. Ele fracassou porque exigia uma coordenação...

Elizabeth Carvalho — Mas é um cenário possível para o futuro.
Yanis Varoufakis —
Sim, mas é um cenário terrível. É um cenário que eu não quero apoiar. É o cenário de Le Pen e que eu acho que vai gerar forças demoníacas terríveis por toda a Europa que vão destruir a esquerda, os democratas, o ideal europeu. A única que se beneficiaria disso seria a extrema direita. Então não faço parte disso. Não quero ver isso acontecendo. Nós não deveríamos ter criado o euro. Teria sido bem melhor, mas, agora que ele existe, voltar atrás é errado. Não vamos nos assustar com as ameaças de fragmentação do euro. Se alguém me disser “se vocês insistirem, vamos expulsá-los do euro”, direi “então expulsem”. Não vou me deixar aterrorizar por ameaças de saída da Grécia, do Reino Unido ou da França da Zona do Euro, mas essa não será a minha política, e acho importante afirmar isso. 

Revista Consultor Jurídico, 27 de janeiro de 2016, 16h16

Comentários de leitores

2 comentários

O loko...

Pedro Paulo de Azevedo Sodré Filho (Advogado Autônomo)

O nível dos comentários sobre os artigos desse diário está ficando igual ao dos demais jornais... Tristeza...

O loco...

Gabriel da Silva Merlin (Advogado Autônomo)

Esse programa ai pelo visto vem entrevistando uma tropa pesada de comunistas, não sei como ainda tem gente que leva esse pessoal a sério.

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