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Segunda Leitura

O esporte pode auxiliar no sucesso do profissional do Direito

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Sucesso aqui pode ser definido como a plena realização profissional, alcançada pelo esforço, sem prejudicar terceiros na caminhada, e que possibilita ao sujeito plena realização pessoal e econômica. Portanto, sucesso não é alcançar uma boa situação financeira a qualquer preço, mesmo que, para tanto, o indivíduo tenha que abrir mão de suas convicções pessoais e de seus ideais.

Nas profissões jurídicas o sucesso depende de vários fatores, entre os quais o conhecimento do Direito é um dos mais importantes, mas apenas um deles. São por demais conhecidos os casos dos primeiros da turma no curso de graduação que depois desaparecem do mundo jurídico, em autêntico anonimato.

Portanto, os que querem alcançar destaque devem ir muito além do estudo da doutrina e da jurisprudência, ou seja, adentrar em vias paralelas que não são dadas e nem sequer mencionadas nos bancos da academia. Podem ser lembradas a administração, relações humanas, negociação, estratégia, oratória e marketing, todas muito importantes.

Porém, na liderança das nunca lembradas, encontra-se o esporte. A partir dos anos 1960, por influência do médico Kenneth Cooper, que introduziu a prática do jogging (corrida em velocidade constante, para aumentar a condição física), a preocupação com o bem-estar físico começou a entrar na vida dos brasileiros. Recentemente, grande número de pessoas, das mais variadas idades, preserva a saúde, não só vivendo mais, porém com mais qualidade.

Todavia, aqui não se trata de apenas manter a forma física. Refiro-me à prática do esporte como parte da vida e com um objetivo fixo, que é o de participar, competir. Vencer não deve ser a meta, mas claro que, se a vitória acompanhar o esforço, melhor ainda.

Vejamos como o esporte pode ajudar no exercício das profissões jurídicas. Comecemos pelo xadrez.

O profissional do Direito não esgota sua ação em um ato, como um dentista que extrai o dente do siso. Um advogado competente sabe que as ações se desenvolvem em várias etapas e todas elas precisam ser bem planejadas. A produção das provas, a análise das possibilidades de vitória, as consequências econômicas do insucesso, tudo tem que ser bem avaliado. Lições de estratégia são dadas pelo xadrez, onde cada jogada é feita antevendo-se o resultado de duas ou mais que a ela se seguirão. O bom enxadrista será um advogado bem articulado.

O futebol dá o sentido de equipe. De nada adianta uma estrela em um time se não houver coordenação bem direcionada. Tal qual uma unidade judiciária. Por mais brilhante que seja o juiz ou desembargador, o serviço não fluirá bem se ele não tiver habilidade para conduzir seu trabalho de forma coordenada com a equipe.

A natação dá lições de persistência, perseverança. Para subir ao pódio, são precisos meses de treinamento diário, aos quais se acrescenta alimentação correta, musculação, acompanhamento médico e renúncia a baladas. Se a opção for por travessias, será preciso planejamento, aproveitar a vazão da maré, distribuir as forças para aguentar todo o percurso, superar obstáculos, como o mar bravio. Exatamente como na vida de um policial. A investigação do crime pode levar anos, nesse período podem surgir dificuldades de toda ordem. Para chegar ao funil de entrada de forma triunfante é necessário saber conduzir-se bem durante todo o trajeto.

O rafting, além de divertido, é uma excelente forma de introduzir a solidariedade no grupo. Manter o bote na água e alcançar o objetivo depende de todos. Ótima lição para os que se lançam a uma tarefa comum. Uma Faculdade de Direito que queira destacar-se depende da união daqueles que a compõem, professores, alunos e funcionários.

A vela é plena de lições de como vencer os desafios. Alguém que pretenda participar de um campeonato é obrigado a preparar-se adequadamente. Mais ainda aqueles que fazem longas travessias, como o navegador Amir Klink. O exemplo aqui é de caso real. Nos anos 1990, na presidência de minha associação de classe, eu pretendia ir a Buenos Aires para fazer contato com juízes federais da Argentina e organizarmos um congresso. Comecei a hesitar e a criar desculpas para mim mesmo. Todavia, ao ler um livro de Amir Klink sobre uma ida à Antártida, com mil dificuldades, fiquei envergonhado da minha hesitação. Providenciei a passagem e fui ao país vizinho.

Os saltos ornamentais ensinam a elegância, do início ao fim. Não apenas na preparação para o salto, como na entrada na água, onde menos atrito, espuma, significa mais perfeição. Boa lição aos profissionais do Direito. Um promotor de Justiça não tripudia sobre o réu ou seu advogado. Expõe de forma técnica e elegante, discretamente, até onde for possível. No Tribunal do Júri, mesmo que insultado, responderá com polida firmeza, evitando entrar em discussão chula que só servirá para desviar a atenção dos jurados.

O basquete tem por meta colocar a bola na cesta. Aí está uma boa lição para muitos profissionais. Evitar a dispersão. Professores que, ao dar a matéria, desviam-se da rota e começam a falar de casos particulares ou outras situações são como um jogador de basquete que joga a bola em direção à arquibancada. Ter foco é essencial para o sucesso.

Se o fazer gera exemplos de necessidade de persistência, coragem, abnegação, enfrentamento de desafios, para que se chegue ao sucesso nas profissões jurídicas, o não fazer aponta para o lado oposto.

O que se descuida do físico, recua ao primeiro desafio, bebe em excesso, descuida da importância das relações humanas, pode ter sucesso, mas só até um determinado patamar. Dele não passará. A plenitude só se alcança com o equilíbrio na vida pessoal, familiar e profissional. E o esporte pode, nisso tudo, dar um auxílio decisivo, pode ser o passo a mais na busca do sucesso e da felicidade.

 é desembargador federal aposentado do TRF da 4ª Região, onde foi corregedor e presidente. Mestre e doutor em Direito pela UFPR, pós-doutor pela Faculdade de Saúde Pública da USP, é professor de Direito Ambiental no mestrado e doutorado da PUC-PR. Presidente eleito da "International Association for Courts Administration - IACA", com sede em Louisville (EUA). É vice-presidente do Ibrajus.

Revista Consultor Jurídico, 24 de abril de 2016, 10h38

Comentários de leitores

1 comentário

Mens sana in corpore sano

Amaralsantista (Advogado Autônomo - Trabalhista)

Já dizia o poeta Juvenal antes de Cristo em sua mais famosa citação. Ainda hoje comentei com um amigo esse assunto tão importante. Um complementa o outro. Sem essa união dificilmente iremos conseguir nossos objetivos e nossos sonhos. De que adianta uma pessoa ter uma lucidez impecável vivendo num corpo maltratado por uma infermidade ou por inatividade física. E vice-versa, um indivíduo com um corpo sarado e sofrendo de doenças degenerativas (Alzheimer) por exemplo. Diante desse quadro concluímos que, via de regra, podemos trilhar uma vida intelectual em conjunto com a física muito mais fácil daqueles que optaram pelo sedentarismo. Ao passo de que hoje, aproveitamos o saneamento básico, a indústria farmacêutica, os avanços da medicina, entre outros, para que possamos atingir uma longevidade muito mais saudável do que antigamente. O Prof. Vladimir abordou um tema extremamente importante e que um grande número de pessoas não se dão conta ao longo de suas vidas, e quando acordam para essa realidade, já é muito tarde. Portanto vale essa lição. Parabéns pelo tema, para alguns insignificante, mas para outros uma qualidade de vida saudável e feliz. Até a próxima semana.

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