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Aposentadoria do magistrado

Homenagem ao desembargador Calandra ao trabalho realizado no TJ-SP

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O Tribunal de Justiça de São Paulo fica mais pobre com a aposentadoria do desembargador Henrique Nelson Calandra. Quem o conhece não precisa de muita explicação para entender o asserto. Calandra é um ser humano de primeiríssima qualidade. Prestativo, afável, amorável. A todos acolhe. Sua vida é atender ao semelhante. Paciente, atencioso, terno. Sim, é preciso não ter constrangimento em se falar em ternura, no mundo do tecnicismo, da rigidez mental que desumaniza o universo Justiça, tornando-o terreno pantanoso de labirintos kafkianos.

Henrique Nelson Calandra se aposentou na última terça-feira (14/7) do TJ-SP
Reprodução

Se todos os magistrados fossem iguais a Calandra, com certeza a Justiça estaria melhor avaliada. Ele foi juiz que não descuidou da jurisdição, mas teve tempo de se devotar ao associativismo. E teve coragem de lutar pela magistratura, tão incompreendida. Nem sempre por maldade dos críticos, que tanta vez têm razão. Mas pela dificuldade de comunicação. Algo que Calandra enfrentou e levou a sério. Esteve em todos os foros a disseminar a ideia do que significa o Judiciário, suas dificuldades, o excessivo demandismo de uma República enferma.

Tanto na Associação Paulista dos Magistrados (Apamagis), a maior do Brasil, pois é São Paulo que detém o significativo número de 2.500 juízes, como na Associação dos Magistrados Brasileiros (AMB), que presidiu com dinamismo, exerceu sua liderança de maneira democrática. Nunca abusou do poder. Concebeu-o como serviço e responsabilidade. Daí advém o respeito que seus colegas a ele devotam e a facilidade com que transita por inúmeros grupos intermediários, seduzidos pela facilidade com que transmite sua verdade. Serena e objetivamente. Sem rompantes emotivos, sem impulsos febris de agressividade.

No Brasil e no exterior, o nome de Henrique Nelson Calandra permanecerá como capítulo de relevo na História do Poder Judiciário desta República tão complexa, tão necessitada do desvelo e da responsabilidade cívica de agentes de autoridade.

O desligamento forçado da magistratura, por insensato dispositivo constitucional que só será corrigido quando a previdência explodir por insuficiência de recursos para honrar os compromissos assumidos com aqueles que exerceram atividades durante décadas e têm direito a proventos dignos, não terá o condão de expelir Henrique Nelson Calandra das trincheiras em defesa do Poder Judiciário. Até porque a luta continua. As batalhas se sucederão e não se vislumbra vitória fácil, nem próxima. Precisamos de comandantes lúcidos e experientes como este querido colega e amigo, ao qual rendemos nossa fraterna e sincera homenagem.   

José Renato Nalini é presidente do Tribunal de Justiça de São Paulo.

Revista Consultor Jurídico, 19 de julho de 2015, 6h37

Comentários de leitores

1 comentário

O que fica de cada um de nós não são palavras vazias

Luiz Fernando Cabeda (Juiz do Trabalho de 2ª. Instância)

Quando morreu o marechal Castelo Branco, vítima de um estranho acidente cuja versão definitiva nunca foi estabelecida, o jornalista Hélio Fernandes escreveu uma nota necrológica que era - literalmente - lapidar; merecia constar na lápide de um ditador rancoroso cujo projeto de democratização autoritária, sob o signo da "redenção", havia soçobrado com ele, imerso em "som e fúria". Isso era verdade e custou ao jornalista a pena de confinamento. Agora o presidente do TJ/SP vem com uma ladainha laudatória que não tem conteúdo nenhum, não ressalta qualquer fato relevante para o país, não aponta realização maior, apenas por entender que um desembargador que se aposenta sempre foi afável, não descuidou da jurisdição, tinha senso associativo, etc. Ora, tais palavras vazias enchem uma vida? Calhandra foi um péssimo presidente da AMB - Associação dos Magistrados Brasileiros, sendo sucedido pela oposição feita a ele. Sempre privilegiou teses corporativas. Revoltou a magistratura por não fazer a defesa de suas grandes teses pela defesa e aprofundamento da democracia, sempre precária em nosso país. Também não sustentou teses jurídicas de grande relevância. Assim, o autor do texto comentado deveria talvez retomar a expressão "escola do elogio mútuo", criada por Antero de Quental e que satirizava a pequena literatura então estabelecida, que aquele autor, Eça de Queiroz e seu grupo tratavam com o beneplácito do riso. Pudera, se um país registra em sua História que puniu um jornalista porque disse uma verdade dura mas incontestável, é melhor mesmo que deixe soltos aqueles que proferem palavras vazias, sem verdade alguma, numa sociedade de afabilidades fúteis, distantes da realidade do nosso povo e país. Mas o riso não os poupará.

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