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Liberdade de imprensa

Na França, a censura foi privatizada, diz diretor do Charlie Hebdo

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Nesta terça-feira (7/7), o atentado terrorista que vitimou 12 pessoas, entre cartunistas e jornalistas, que trabalhavam para o jornal satírico francês Charlie Hebdo completa sete meses. Se para o mundo, que soube através do noticiário, a tentativa do grupo extremista de calar uma publicação foi marcante, para o novo diretor do jornal francês, Laurent Sourisseau, que é conhecido como Riss, foi uma passagem que mudou seu jeito de enxergar o mundo.

Em evento, Riss falou sobre tribunal francês para julgar casos de imprensa.
Reprodução

Sourisseau assumiu o cargo de direção após o incidente, quando escapou da morte ao se jogar no chão e se fingir de morto em meio aos corpos de seus colegas e amigos para não ser executado. Mesmo assim, foi ferido no ombro por um tiro de AK-47.

Sempre sério, em sua palestra, Riss falou no 10º Congresso da Associação Brasileira de Jornalismo Investigativo (Abraji) sobre a linha cinza que permeia as liberdades de imprensa e expressão. Para o diretor do veículo satírico, hoje, na França, "a censura (à imprensa) foi privatizada". Isso porque políticos não se sentem confortáveis em confrontar um veículo de comunicação e os responsáveis por essa pressão têm sido associações e entidades religiosas.

"Nenhum político, hoje, na França, processa um cartunista. Se o fizer, será ridicularizado", afirmou Riss, enquanto mostrava uma caricatura que transformava o Rei Luis XV em uma pera — esse desenho levou, à época, o cartunista responsável à prisão.

Para mostrar a importância que a liberdade de imprensa tem na França, Sourisseau explicou que o país europeu possui uma corte própria para julgar casos relacionados ao assunto: Tribunal de la presse, também chamado de 17ª Chambre du Tribunal Grand Instance.

De acordo com ele, esse tribunal é muito progressista e dificilmente condena algum veículo midiático ou jornalista pelas opiniões expressadas, pois, disse ele, a corte "considera que (a liberdade de expressão, desde a revolução francesa) faz parte da tradição da imprensa francesa".

Apesar disso, Riss ressaltou que existem limites e lembrou de um caso em que o Charlie Hebdo foi condenado após retratar um ministro francês com a roupa da Schutzstaffel, ou SS (polícia ideológica alemã que existiu na época do nazismo).

Mesmo sobre os processos vencidos pelo jornal, o cartunista comentou que, ainda que a ideia sobre liberdade de imprensa dessa corte seja progressista, nenhum deles foi vencido facilmente; já que foram necessários inúmeros recursos e apelações para tal resultado positivo.

Crítica e religião
"No Charlie Hebdo nós criticamos a religião, porque achamos que uma nação não pode ser guiada por dogmas filosóficos". Foi assim que o diretor do satírico explicou o porquê das caricaturas religiosas feitas pelo jornal.

Segundo ele, fazer humor sobre religião, hoje, torna as coisas mais sensíveis e citou a preocupação do jornal após o incêndio criminoso contra a redação, em 2011. "Por um lado temos o direito a caricatura, por outro, temos o respeito pelos indivíduos", disse.

Sourisseau afirmou que a dificuldade encontrada atualmente ocorre porque "alguns religiosos acabam levando para o lado pessoal", mas ressaltou que nem todos os que seguem o Islã veem o jornal assim. "Os muçulmanos democratas nos entendem", afirmou.

Ao citar os atentados sofridos pelo jornal, Riss explicou que essas ações não ocorrem "apenas" por causa das caricaturas, mas também buscam colocar em cheque as democracias existentes no mundo. Segundo ele, apesar da pluralidade da comunidade islâmica, os autores desses crimes "querem que paremos de exercer nossa liberdade de expressão".

O diretor do Charlie Hebdo também abordou o outro lado da discussão, a xenofobia resultante desses atentados. "Devemos defender o direito a liberdade de expressão, mas tomando cuidado para não nos deixar instrumentalizar por grupos xenófobos".

Ele explicou que o jornal não critica apenas os excessos praticados por islâmicos, mas também por cristãos, judeus, entre outros. "Nós defendemos princípios sobre a maneira de falar dos dogmas", afirmou, complementando que a ideia das caricaturas é promover um embate filosófico".

Também disse que os desenhos são feitos de acordo com relevância de diversos assuntos, envolvendo política, economia, sociedade, meio ambiente etc. "Não se deve criar um jornal obcecado pela religião", afirmou.

 é repórter da revista Consultor Jurídico.

Revista Consultor Jurídico, 7 de julho de 2015, 6h14

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