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Negócio é negócio

Um brasileiro não vale o risco de perdermos um mercado precioso

Por 

O brasileiro Marco Archer Cardoso Moreira foi executado na Indonésia, no domingo de lá (sábado de cá - 18/1), em execução de pena de morte por tráfico de entorpecentes. Um tiro só. Antigamente, em alguns países, havia um ritual. O pelotão de fuzilamento era composto por 12. Onze tinham balas de festim, sem o saberem. O décimo segundo atirava realmente, também desconhecendo a letalidade. Acontecia de o executado não morrer, pois nenhum dos doze mirava o peito do condenado. Na Indonésia deve ter sido um só atirador. Não se fala em assassínio colegiado.

De qualquer maneira, matar com espada, arma de fogo, foice, guilhotina ou veneno é, realmente, tarefa para especialista. Nos Estados Unidos da América do Norte havia a eletroplessão, substituída por coquetel de substâncias tranquilizantes elevadas ao máximo. Lá, em alguns Estados da nação norte-americana, aparece apenas o braço da criatura a ser executada. Às vezes, analogamente, o condenado demora a morrer. Dizem que é por ter pecados demais. Terminada a tarefa, o assassino volta ao lar e vai cuidar dos filhos. Nos Estados Unidos deve ser a mesma coisa porque carrasco também gera descendência, vai à feira, carrega criança no colo e faz preces às divindades, estudando bastante para aperfeiçoar a arte de matar.

Basta dizer, entretanto, que o presidente daquele país (Indonésia) não atendeu aos apelos de Dilma. A língua diplomática, tempos atrás, era o francês. Hoje não se sabe bem, mas a presidente bem que tentou, não porque o executado pudesse redimir-se, mas por ser brasileiro e inexistir aqui a pena de morte, ressalvado o Código Penal Militar, isso em caso de guerra. Traficante seria condenado a alguns anos de reclusão com progressão. Foi baleado no coração, ele e outros cinco. Há alguns na fila de espera. O presidente eleito fez promessa de campanha pelo combate ao tráfico. Não poderia voltar atrás, até porque a isonomia o obrigaria perdoar os outros.

Resta, do todo, saber qual o comportamento da presidente Dilma. Chamou o embaixador para consulta. O diplomata dirá que fez o possível. O Brasil, a nosso ver, foi desconsiderado. Sobrariam, de tudo, duas opções dentro da arte diplomática: a) cortar relações com a Indonésia; b) emitir nota de protesto, mas não levar o caso às últimas consequências. Bem vistas as coisas, o Brasil vendeu muito à Indonésia, sem exceção de Super-Tucanos fabricados pela Embraer, mais tecnologia correspondente, não se falando em foguetes ao preço de R$ 1,5 bilhão. Somos bons fabricantes de armas, embora proibidos de usar aqui. Assim, ajudamos a matar gente lá fora. Fica mais simpático.

Dentro do contexto, aqueles caças são joias caríssimas. Um brasileiro a mais ou a menos não vale isso, não se podendo correr o risco, também, de perda de mercado que pode ser precioso à nação. É provável que a segunda alternativa seja a predominante. O moço traficante já foi incinerado. Há outro brasileiro esperando vez. Negócio é negócio. Dilma vai ficar amuada com a desatenção do colega refratário, mas para nisso.

Alguém, conselheiro atuante na corte, soprará, no ouvido da presidente, refrão muito conhecido: “— Uma andorinha não faz verão”. Quando o outro condenado for justiçado, a frase pode ser repetida, com pequena alteração: “— Duas andorinhas também não fazem verão”. De repente, antes da segunda execução, o mandatário da Indonésia manda que os aviões vendidos pelos brasileiros façam rasantes sobre o local, colorindo os céus com as cores do Brasil, tudo em sinal de respeito ao pedido de clemência. Fica bonito e todos se consolam. Evidentemente, os exportadores de drogas hão de pensar bastante antes de tentar outras incursões. Fica tudo por aqui, que é mais fácil, a menos que a concorrência seja muito séria...  

Paulo Sérgio Leite Fernandes é advogado criminalista.

Revista Consultor Jurídico, 20 de janeiro de 2015, 19h32

Comentários de leitores

5 comentários

Bia (Advogado Autônomo - Empresarial

Observador.. (Economista)

Seus comentários são uma brisa de esperança em um horizonte sombrio.
Marco Archer morreu por não ter dado bola para o sistema de outro país; morreu por não ter tido respeito às leis alheias , escritas com letras GARRAFAIS sempre que ia à Bali. Morreu por apenas pensar em si, jamais no mal que poderia estar causando à outras pessoas.
Ninguém fala sobre as drogas, mas além de estarem cada vez mais potentes e viciantes, financiam o tráfico de armas, pessoas, mulheres para prostituição, órgãos humanos e um monte de tragédias que estragariam o jantar dos teóricos e seus rapapés.
Vendemos armas porque o Brasil (ainda bem) ainda tem alguns setores que procuram progredir tecnologicamente.Alguns setores (que vivem no mundo real e armado) que trazem divisas ao país para ajudar a sustentar uma máquina estatal OBESA e voltada para si, que atende muito mal toda a população pagadora de impostos.
Marco Archer morreu porque foi deseducado pelo país onde nasceu.Acostumado a viver em um local impune e sem limites, agiu como criança mimada acostumada à um ambiente permissivo, desconsiderando a gravidade e o perigo de não se respeitar a cultura e as leis alheias.
Morreu porque arriscou demais, fruto de anos de "cultura do jeitinho" e da progressão de todo tipo de delito, por mais grave e absurdo que seja, encontrada em seu país de origem.
Lamento pelo rapaz.Sinceramente.Talvez eu lamente mais por ele do que os que escrevem , usando seu nome, apenas para marcar uma posição ideológica ou filosófica.
Que descanse em paz. A morte de um homem é sempre a morte de todos nós, já disse alguém.
Pena que no Brasil se mate à rodo e poucos se comovem. Já é algo assimilado, infelizmente.
Por quem os sinos dobram nesta nação?

Um brasileiro criminoso não vale muita coisa mesmo

Bia (Advogado Autônomo - Empresarial)

Prezado Prof. Paulo Serio Leite Fernandes, meu querido professor de Direito Processual Penal de nossa também querida outrora "Faculdade Católica de Direito de Santos". Com todo o respeito que sempre tive e que ainda tenho pelo sr., por suas brilhantes aulas e por sua brilhante atuação como advogado durante toda a sua trajetória, permito-me acrescentar alguns poucos "detalhes" que o sr. não mencionou. Caso tivesse sido perdoado pelo governo indonésio ou, pior ainda, caso tivesse sido julgado aqui no Brasil, nosso criminoso que, de repente, teve seus dias de glória e, já morto, continua usufruindo até de nossos comentários, como o sr. mesmo citou, teria sido condenado a alguns anos de reclusão e, com bom comportamento, passaria para o regime de progressão e, TODOS sabemos, logo, logo, ganharia a liberdade total. Entretanto, já de dentro de nossos "primorosos" presídios, CONTINUARIA, sem a menor sombra de dúvida, a traficar (um crime nem tão grave assim, ao que parece, na OPINIÃO de nossa Presidente e de todos aqueles que defenderam a comutação de sua pena) e quando saísse, a usufruir do resultado de tão "nobre" ofício, como, alias, ele dele se orgulhava, numa entrevista a um jornalista em 2005. Continuaria, portanto, a MATAR dezenas e dezenas de indivíduos, brasileiros ou não, que ao optarem pelo caminho das drogas, exercem o "sagrado" direito constitucional de também se dar mal na vida, num regime tido "democrático", como o nosso! Portanto, meu querido professor, ESSE brasileiro, definitivamente, não vale a pena, não por nossa balança comercial, mas por ele próprio! Até porque, todos sabemos, o resultado de nossa balança comercial tem sido utilizado, ultimamente, para fins não tão nobres para os necessitados e a nação em geral.

O apelo da presidente

Fernando José Gonçalves (Advogado Sócio de Escritório - Civil)

O apelo da presidente, feito dias antes da execução do brasileiro ao Mandatário da Indonésia, não passou de uma atitude protocolar. Os demais condenados, de diversas nacionalidades, também foram objeto de solicitações de clemência por parte das autoridades dos seus países de origem. Tal ato não deve ser interpretado como um "sincero compadecimento e real incredulidade", como afirmou Dilma. No caso em questão, a presidente, como guerrilheira assumida em tempos idos, (o que não é nenhuma novidade para aqueles que viveram a época de chumbo da ditadura) certamente nunca teve, nem compadecimento nem incredulidade diante da morte, vez que para o fiel cumprimento de atos insurgentes, exercidos no mais das vezes com violência a integridade física das pessoas, acostumou-se com as mazelas do então ofício,nele incluídas as perdas de vidas decorrentes dessas missões. Portanto, e por evidente, que não haverá qualquer retaliação à Indonésia -e nem deveria existir mesmo- em face da execução de um traficante tupiniquim que resolveu desafiar as leis severas daquele país, acreditando, depois, no "jeitinho" brasileiro e descompromissado de resolver coisas sérias, muito utilizado por ela nestas plagas.Não colou,pois abriria um precedente perigoso (como diariamente aqui se abre, em função de quem está sendo acusado) -e sem consequências- e o brasileiro traficante que entrou naquele país com o "pó"(branco) dele saiu, como "pó" (cinza) e pela mesma via: a bordo de uma aeronave. Lamenta-se, pela família, mas o bom exemplo ficará com certeza por muito tempo, desincentivando outros "conterrâneos espertos" a agirem da mesma forma, mormente em Nações onde o respeito pelas leis é exigido e divulgado amplamente, de molde a não se poder alegar desconhecimento.Que Deus o tenha.

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