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Escolhas futuras

Ministro Joaquim Barbosa se aposenta
do Supremo: rei morto, rei posto

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Noticiários cravados na internet explodem, quinta-feira, 29 de maio de 2014, informando que o ministro presidente do Supremo Tribunal Federal, Joaquim Barbosa, pretende aposentar-se, aos 59 anos, antes da posse de seu sucessor, ministro Lewandowski. Barbosa, segundo consta, ficaria descontente se enfrentando o próximo biênio sob a batuta de incansável debatedor e adversário obstinado. Haveria também, segundo o ministro Marco Aurélio, questão de saúde.

Joaquim Barbosa não chegou aos 60 anos. Antigamente, aos 65, arrastava-se a chinela na rua, de pijama, a caminho da padaria para comprar o pão saído do forno. Dizia-se que aquilo era o retrato dos velhos. O conceito de velhice mudou no Brasil. Aos 75, homens e mulheres ainda estão rijos, criando problemas ao Sistema Único de Saúde e aos planos privados, porque não se previra tal circunstância. Dentro do contexto, a ideia de o Ministro Joaquim Barbosa deixar a toga soa extravagante pois, a bem-dizer, está numa idade em que arredondamos o amadurecimento. Aliás, entre os primitivos, havia tribos que abandonavam o ancião no meio da selva e outras que o elegiam pajé, sendo este último, regra geral, distribuidor do cachimbo da paz, com um pouco de marijuana no meio da fumaceira. Era mais fácil, assim, acalmar eventuais conflitos.

Verdadeiras as manchetes, as opções do ministro, no porvir, seriam as mesmas de qualquer jurista razoavelmente válido: vai para o sítio (todo cidadão tem tal vocação), entroniza-se num bom escritório de advocacia, embora observando o prazo estatutário de restrições, parte para a política ou, finalmente, empreende viagem apropriada a escrever uma espécie de Diário da Motocicleta. Na primeira alternativa vive mais, o campo é menos poluído.  Poluentes são venenos mortíferos. A segunda opção (a advocacia) reduz a sobrevivência. Há, com efeito, estudos no sentido de que os advogados, entre os intelectuais em geral, são aqueles que produzem e gastam doses maiores de testosterona, contrariamente aos sacerdotes, cuidando-se de hormônio muito conveniente a múltiplas atividades. A terceira é a mais arriscada, é claro, pois os reflexos do motociclista se reduzem na longevidade. Pode bater a fronte em uma carreta ou derrapar em guia de calçada, chegando ao Criador sob o eco de motor barulhento. A Presidente da República já andou por aí na garupa de moto. Poderia dar-lhe boas preleções para evitar acidentes.

A psiquiatria moderna criou conceito razoavelmente novo a revestir o tradicional ego. Cuida-se do self, sem tradução muito adequada mas significando, aproximadamente, o si, ou seja, a capacidade de se entender, existindo e administrando a consciência do próprio corpo como se fora veículo envolvendo a alma. Alguma coisa assim. Vem o pensamento, tocante ao eminente ministro, ligado ao fato de os homens (e mulheres, é claro) darem extraordinária importância à forma pela qual se apresentam na comunidade, achando-se imprescindíveis, ou, quiçá, necessários à evolução da espécie. Vã esperança. Nascemos, crescemos, fazemos filhos, adoecemos ou não, vamo-nos impactantemente ou devagar, mas vamos, inexoravelmente. Diga-se que José Wilker e Jair Rodrigues pertenceram à primeira espécie, ou seja, à partida rápida, um afamado como ator e Vadinho (Dona Flor), outro em razão daqueles festivais de música memoráveis fazendo par a Elis Regina.  Aliás, o cronista mora no prédio em que a moça morreu. Sonha às vezes com “Eu quero uma casa no campo, onde eu possa compor muitos rocks rurais”. Deixam os três muita saudade.

No meio tempo, o cidadão precisa capacitar-se de que a sobrevivência é algo maravilhoso a saborear. Assim, embora a aposentadoria do ministro Barbosa dependa de confirmação de um São Tomé, “com certidão passada em cartório do céu, e assinada em baixo por Deus”, resta, em certos aspectos, preocupação quanto ao porvir daquele juiz. Dir-se-á que isso não é da nossa conta. É! O ministro, pleno de rompantes, discrepâncias, irritações e comportamentos incontidos, larga imagem significativamente estranha. Sua forma de dirigir a Suprema Corte durante o chamado mensalão poderia ter levado os 20 e poucos defensores a abandonar o plenário, deixando as becas vazias.

Paralelamente, é muito cedo para o magistrado Barbosa abandonar a Corte, a menos que padecendo de dores portentosas. Sofrimentos de tal jaez podem levar o paciente à loucura. Tocante a circunstâncias outras, o doutor Joaquim Barbosa demonstra bastante energia. Diga-se, em divagação paralela, que uma aposentadoria precoce lhe permitiria desfrutar, ainda, pedaço gostoso da existência, fora de Brasília, é claro, terra visitada diariamente por demônios que fazem balançarem visivelmente os arcanjos dependurados na magnífica igreja forjada pelas mãos de Niemeyer. Não se o aconselharia a advogar, porque advogado nunca foi. Exibe antipatia pela classe. A chegança às vestes talares lhe imporia sacrifícios nunca antes enfrentados. Por fim, a política o destruiria a prazo curto. Tornar-se sitiante constituiria, quem sabe, boa alternativa. O cronista aconselhou antigo amigo, há pouco, a procurar na fazenda um rochedo não pontiagudo, sentar-se, descascar pacientemente uma laranja-lima (é doce) e chupá-la devagar, lambuzando as bochechas nas sobras. Faz bem ao espírito e favorece o perscrutar do horizonte. José Ângelo Gaiarsa viveu mais de 90 anos.

Dizia que o homem não pensa sem olhar. Chupar laranja assim auxilia intelectuais e favelados a interpretar as formas sinuosas oferecidas pelas nuvens, à maneira das esfinges vestindo o cinza. O ministro deve ter uma boa lâmina, um canivete de picar fumo deixado pelo avô. Quem viveu com dificuldade — o cronista bem o sabe — traz ao menos isso da meninice. Mas se não o tiver, escolha um entre os 200 e poucos colecionados pelo escriba (quem não teve muito, inclusive poder, resvala para o excesso), recebendo-o de presente. Uma semana depois, a memória guardará ainda a lembrança de Dona Flor, Vadinho, Jair Rodrigues e Elis Regina. O resto é resto. Em suma, “rei morto, rei posto”. 

Paulo Sérgio Leite Fernandes é advogado criminalista.

Revista Consultor Jurídico, 31 de maio de 2014, 15h52

Comentários de leitores

6 comentários

Infelizmente

Ernandes Mourao (Bancário)

Infelizmente, sairá o homem que teve coragem de enfrentar as corjas deste pais. Desta vez os vermes tomarão de conta do resto do brasil. Quem fala mau do Ministro deve ter medo dele ou de enfrentá-lo, pois esse sim não tem rabo preso.
Para mim é uma perda a sua saida precoce. Deveria ficar até o final do mandato. Com sua saida, provavelmente aparecerá um novo mensalão.

Só te digo uma coisa: vem mais por aí...

Fernanda Fernandes Estrela (Assessor Técnico)

E para refletir:
"A FINALIDADE SUBJETIVA É PENSADA ANTES DE SER SENTIDA" , de Immanuel KANT...
E te digo mais: vem mais por aí...

Ele foi o maior!!!!

Kauf (Advogado Sócio de Escritório - Empresarial)

É nojento ver como uma uma eleita "elitizinha" de advogados criminalistas fica a bajular Ministros como Tofolli, etc...
Ele errou algumas vezes. Se excedeu devido a brutal pressão que sofreu... Estava sozinho numa guerra !!!!
Todos sabemos da podridão que assola o STF, ou não??
De repente aparece um homem que pretende acabar com ela, a classe que comanda a advocacia fica a persegui- lo.
Afinal esses advogados jantam, almoçam e frequentam os mesmos lugares de "vulgos" ministros. Fazem conchavos, etc...
O ministro Joaquim sempre será lembrado pela sociedade brasileira e pela grande maioria de advogados como um dos maiores brasileiros de todos os tempos, sr Leite Fernandes.
Ele terá uma carreira política brilhante, ou i sr acha que não se elegerá para nenhum cargo???

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