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Receita de Advogado 2

Colegas de Márcio Thomaz Bastos relembram carreira do criminalista

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Homenagens post mortem, em geral, são sombrias e, não raro, artificiais e burocráticas. Dificilmente captam a complexidade da existência que se pretende reverenciar. No dia 20 de novembro passado, morreu, aos 79 anos, o advogado Márcio Thomaz Bastos. Para celebrar a carreira e a vida do grande brasileiro, este site convidou três dos muitos amigos de Márcio não só para exortar, mas para deixar registrada a dimensão humana e profissional desse símbolo da melhor face da advocacia brasileira.

Arnaldo Malheiros Filho, Sônia Ráo e Manuel Alceu Affonso Ferreira lembraram boas histórias da sua convivência com o colega criminalista. Sem esconder a emoção e o inconformismo pela perda do amigo, eles falam das características que tornaram Márcio Thomaz Bastos um modelo de profissional a ser seguido. Principalmente pela tolerância e paciência.

Analisam a transição da advocacia criminal da pessoa física para a pessoa jurídica nos últimos anos e enaltecem a capacidade do ex-ministro da Justiça e ex-presidente da OAB de trabalhar em equipe e apoiar novos talentos.

Leia a segunda e última parte da entrevista, com os principais trechos da conversa (clique aqui para ler a primeira parte):

Márcio Chaer — Arnaldo, quando você conheceu o Márcio Thomaz Bastos ele tentava ser advogado público, defensor, trabalhar na procuradoria judiciária?
Arnaldo Malheiros — Não. O negócio era o seguinte, o pai dele era político. A ligação forte do pai era com o Adhemar de Barros, o pai era o líder ademarista da região de Cruzeiro, do alto Vale do Paraíba. Ele foi trabalhar na Cesp e se mudou de Cruzeiro para Bauru, porque a Cesp estava fazendo uma grande obra lá e ele foi cuidar das ações de desapropriação. Não sei dizer quais foram os caminhos, mas certamente por caminhos políticos, ele conseguiu ser transferido para São Paulo como advogado da Cesp. Um advogado da Cesp ganhava substancialmente mais do que um procurador da assistência judiciária, mas ele foi posto à disposição da Procuradoria de Assistência Judiciária para fazer júri, enquanto o Carlito Godoi fez a mesma coisa na Dersa. O Carlito era da Dersa e também ficou à disposição para fazer júri. Fizeram lá um grande trabalho.

Márcio Chaer — Essa foi a entrada dele no Direito Penal?
Arnaldo Malheiros —
Não sei se foi a entrada, eu acho que ele sempre gostou. Acho que foi a entrada dele em São Paulo na advocacia criminal.

Sônia Ráo — Ele fazia júri três vezes por semana, ele e o Valdir Troncoso Perez, que era da PAJ na época. O Valdir era procurador, ele era advogado da Cesp à disposição da PAJ.

Márcio Chaer — O que mostra que o sistema de concurso não é infalível, certo? Se fosse por concurso ele provavelmente não ia se interessar e a PAJ não teria uma pessoa como ele.
Sônia Ráo — Quanta gente foi tão bem defendida e nem sabia.

Márcio Chaer — Isso durou muito tempo?
Arnaldo Malheiros — Durou um bom tempo, sim.

Márcio Chaer — Você já o conheceu nessa função?
Arnaldo Malheiros — Não sei se o conheci nessa função, mas foi quando me aproximei dele. Pode ser que sim. É aquilo que eu falei no meu artigo: eu o conheci no elevador do prédio da Conde do Pinhal. A gente dizia bom dia e boa tarde.

Sônia Ráo — As pessoas iam se encontrar na porta do Tribunal do Júri, tinha um point ali dos advogados que atuavam no júri. O Márcio me falou alguma vezes que ele tinha um pesadelo recorrente que ele estava correndo, correndo para chegar no Tribunal do Júri, onde era antes, na praça João Mendes, com a beca, e a porta estava fechada. . Aí ele batia na porta e a pessoa abria e falava: “Sinto muito. O júri já acabou”. Ele teve esse pesadelo até recentemente.

Márcio Chaer — Isso é um pesadelo juvenil, de quem está começando.
Arnaldo Malheiros — E você tinha a praça da alegria e tinha a sala do Edegardo Maranhão, presidente do Primeiro Tribunal do Júri. E o Edegardo Maranhão é uma figura ímpar também. Eu me lembro quando o Valdir morreu. A Aasp fez uma edição da Revista do Advogado em homenagem ao Valdir e me convidaram para escrever, e aí eu fui falar com o filho dele, o Moacir: “Moacir, eu tenho algumas grandes recordações do seu pai ligadas ao Alcoólicos Anônimos (AA)”.

Sônia — Ele era um grande orador, imagina participando de uma reunião do AA. Deve ter salvado muita gente.

Arnaldo Malheiros — Eu disse ao Moacir que tinha grandes recordações, inclusive tentando ajudar, sem grande sucesso, pessoa da minha família. Um parente meu que eu levei para ele. “A sua família tem alguma restrição sobre isso?”, perguntei. O Moacir respondeu: “De jeito nenhum. O AA era uma das paixões do meu pai”.

Márcio Chaer — Ele era voluntário na recuperação do pessoal?
Arnaldo Malheiros — Sim. Ele entrou, se recuperou e aí ficou até o fim da vida.

Sônia Ráo — Porque quando eu o conheci ele já não bebia há anos.

Arnaldo Malheiros — Pois é. Ele parou em 74. E aí escrevi o artigo e um dia encontrei com o Moacir e ele falou: “Puxa, estou em dívida com a minha mãe por sua causa. Ela pediu para mandar um grande beijo para o Arnaldo que foi o único que escreveu sobre meu pai e falou do AA, que era uma coisa de que ele se orgulhava tanto”. Começaram a fazer uma campanha para dizer que o Troncoso bebia demais, e o Márcio foi uma figura importante dessa campanha. E na primeira visita do Valdir no AA o Márcio foi junto, para dar uma força. Valdir foi e ficou encantado. Aí ele chega no café da sala do Edegardo Maranhão, estava cheia de gente, e diz: “Eu vou contar uma coisa para vocês, um bêbado só dá ouvidos a outro bêbado. Porque se vier um padre e disser que beber é muito feio a gente já manda ele à merda e pede mais uma. Agora, quando você vê se levantar um irmão e ele começa a contar a história da vida dele e você percebe que ele está contando a história da tua vida aí você para pra pensar”. Aí o Márcio, cínico, gozador, que tinha levado ele lá e tinha ido junto para dar força, falou assim: “Você não tem vergonha de ir lá, não?” Aí o Valdir virou e falou: “Olha, Marcinho, isso é muito curioso viu, você não tem vergonha de ser bêbado e acha que eu devo ter vergonha de me tratar”.

Márcio Chaer — Os encontros da turma eram no Itamarati, lá no centro?
Arnaldo Malheiros — Não. Eram mais na praça da alegria.

Márcio Chaer — Onde era a praça da alegria?
Arnaldo Malheiros —
Era um banco em frente ao banheiro no primeiro tribunal do júri, lá na Praça Clovis Bevilácqua. Então, era isso, o fórum abria ao meio dia, ao meio dia e quinze chegava o Kleber de Menezes Dória e sentava no banco. Meio dia e meia passava um advogado e parava, daqui a pouco outro, outro, outro e dava pra fazer um time. E a calúnia rolando solta. Aí quando chegava por volta de uma hora é quando começavam a chamar as audiências, dava uma esvaziada, mas dali a pouco terminava e eles se juntavam de novo. Isso durou enquanto o Kleber viveu, porque você precisa ter o peão, sem ter o peão ninguém para.

Márcio Chaer — Quem é Kleber de Menezes Dória?
Arnaldo Malheiros — Era um advogado. Foi uma das primeiras placas que o Márcio colocou no escritório, quando batizou salas com nomes de colegas falecidos e me convidou para fazer a saudação. Kleber era inteligente, capaz, mas era uma pessoa complicada, não conseguia se relacionar com os clientes, mas era uma pessoa adorável e divertidíssima. Foi em parte por causa da saudação que eu fiz na inauguração da placa que a família me convidou para falar na missa do Márcio, uma tarefa duríssima.

Sônia Ráo — Arnaldo, você fala maravilhosamente bem, era o melhor amigo dele, larga a mão de ser bobo. Ela ia adorar o que você falasse, você adorava ele. O resto é bobagem. Mas não lembro o que você falou. Eu lembro que ele falava muito do Kleber.

Arnaldo Malheiros — Kleber era adorável. Eu comecei o meu discursinho lá, eu dizia assim: “Ô Kleber, onde você está? Poxa, se a festa era às 19h, vocês devia estar aqui desde as 16h, sentado, de perna cruzada, esperando quando é que vão começar a servir whisky”. As pessoas gostaram, porque esse era o Kleber.

Sônia Ráo — Os dois melhores no júri eram o Dr. Valdir e o Márcio, sem dúvida. Eu fiz 10 júris. Eu não continuei porque eu vi o Márcio fazendo e o meu senso critico não me permitiu. Eu acho que eu sou boa advogada, mas não sou boa de júri. Na minha opinião, apesar das diferenças, o advogado que mais se aproxima de ser um herdeiro do Márcio no júri é o Toron.

 

Márcio Chaer — Por que ele era bom?
Arnaldo Malheiros — O Márcio mudou o estilo dominante do júri da época. Ele abandonou o estilo tonitruante e foi para o intimista.

Sônia Ráo — Márcio estudava o processo, tinha uma lógica forte, uma atuação moderna. Como dizia o Toron, o Valdir embalava, o Márcio convencia.

Márcio Chaer — Só para dar uma linha lógica, você acha que a diferença do tempo Valdir para o tempo Márcio é uma diferença do tempo Vicente Celestino para a linha Caetano Veloso?

Arnaldo Malheiros — Não. Não chega a tanto, tanto que eles conviveram. Eles eram amigos.
Sônia Ráo — Eles fizeram júris históricos juntos. Lindomar Castilho o Márcio acusou e o dr. Valdir defendeu.

Márcio Chaer — O Lindomar foi absolvido?
Arnaldo Malheiros — Foi condenado.

Sônia Ráo — O Márcio era muito bom na acusação, eu assisti alguns júris dele. Claro que ele era mais defesa, mas ele era um ótimo assistente de acusação.

Arnaldo Malheiros — Mas eu acho que o grande salto qualitativo no júri é que ele quebrou uma linha. Eu não vou dizer que era unânime, porque nunca se é unânime. Cada um tem seu estilo, principalmente os caras bons, mas enquanto o outro discursava para o jurado ele conversava com o jurado.

Sônia Ráo — Mas com uma concatenação de ideias perfeita. Não se perdia no meio da história.

Márcio Chaer — Como ele organizava a equipe? Como é que funcionava?
Sônia Ráo — Dependia da época. Por exemplo, eu cheguei a ficar dois anos só eu e ele no escritório.

Márcio Chaer — Ele nunca gostou de equipe numerosa pelo visto.
Sônia Ráo — Os escritórios criminais não são grandes. Arnaldo, você falou uma vez que ele disse: “A Sônia vai tirar férias e eu vou ter que fazer o contencioso”.

Arnaldo Malheiros — Não. Ele falou assim: “A Sônia vai sair de férias e eu além de arrumar cliente ainda vou ter que advogar”. Era um grande gozador.

Márcio Chaer — Genial. Isso em que ano mais ou menos?
Sônia Ráo — Eu comecei a trabalhar com ele em setembro de 1990, até o dia em que ele virou ministro. Quando eu trabalhava com o Toron, nos anos 80, eu fui com ele para São Carlos assistir um júri do Márcio. Os advogados saíam do escritório do Márcio e montavam escritório no mesmo prédio, na Liberdade. A sede do IDDD fica naquele prédio, o imóvel é do Márcio, que foi o fundador.

Arnaldo Malheiros — Do antigo IDDD.

Sônia Ráo— Por que antigo?

Arnaldo Malheiros — Porque agora vai ser o Instituto Márcio Thomaz Bastos do Direito de Defesa. Não é legal? Está de acordo?

Sônia Ráo — Ele foi o primeiro presidente porque foi o idealizador, sozinho, não é que ele pensou com outras pessoas.

Arnaldo Malheiros — A diretoria e o conselho do IDDD eram o pessoal do escritório dele. Então, tinha lá de contrabando eu, que ele me chamou para ser o presidente do conselho, o Zé Carlos Dias...

Márcio Chaer — Como era a relação do Márcio com a polícia, com o MP e com os juízes?
Sônia Ráo — Engraçado, de um lado ele falava que detestava autoridades. Mas era um cara super respeitoso, que nunca entrava sem ser convidado em sala de juiz, promotor, delegado de polícia. Ele sempre pedia licença, chamava de senhor. Podia ser até muito vaidoso, mas não era nada metido. E nem um pouco autoritário. Nunca parecia que estava mandando, mas estava, porque tinha uma autoridade que era inerente a ele. Nas relações com autoridades, embora ele tivesse essa visão critica, ele era muito respeitoso, como ele era com garçom, com porteiro, ele era extremamente amável. Eu nunca vi o Márcio se alterar com ninguém. Eu já vi o Márcio nervoso, já vi o Márcio preocupado, já vi o Márcio indignado, mas nunca o vi sendo grosseiro com ninguém.

Arnaldo Malheiros — Já que você falou de garçom e porteiro eu preciso contar uma história. A primeira vez que eu o vi como ministro da Justiça eu fui até o Ministério, ao gabinete dele, e aí saímos para almoçar e ele virou para a secretária e pediu que ela reservasse uma mesa. Um lugar que eu não lembro qual era. Isso foi no começo de 2003, o governo ainda era fresquinho, novinho. Aí entramos no carro de ministro, com segurança da polícia federal, aliás era muito engraçado: ia no banco da frente ao lado do motorista um segurança da Polícia Federal. Chegando ao restaurante, pula um porteiro e diz: “Ministro... Olá, ministro.” Aí o maître da porta vira lá para dentro e fala: “A mesa do ministro.” Sentamos à mesa e o Márcio vira para mim e fala: “Arnaldo, todo esse carnaval acaba no dia em que você transmite o cargo ao sucessor. Ninguém espera o dia seguinte. Você transmitiu o cargo, você não é mais bosta nenhuma. Então, agora eu vou te dar uma procuração que você vai exercer com muita seriedade, porque eu confio em você, que é a seguinte: se depois de eu deixar de ser ministro e um dia eu quiser me achar merecedor desse tratamento você me dá uma porrada, bate forte, porque eu prefiro tomar uma porrada do que fazer papel de ridículo. O dia que acabou, acabou. Então, se por acaso eu escorregar na casca de banana você me acerta uma porrada”.

Sônia Ráo — Quando ele saiu do Ministério teve um ato falho. Ele me ligou e falou assim: “Olha, precisa colocar um telefone 24 horas no escritório, porque aqui no Ministério tem.” E aí eu falei: “Mas quem vai atender? A Dora está com o filho pequeno, eu não acordo mesmo, quem estiver acordado vai estar bêbado, é melhor não botar telefone.” Ele desencanou na hora. Mas eu acho que foi o único deslize dele pós-Ministério.

Márcio Chaer — Ele ia a estádio de futebol?
Arnaldo Malheiros — Eu não sei.

Sônia Ráo — Ele gostava muito de futebol, ele assistia na televisão do escritório quando tinha Copa, quando tinha jogo. Ele gostava muito de esporte, ele corria sempre, ficou muito triste quando o médico falou que ele não podia mais correr, ele não se conformava. Ficava lendo coisas para achar opiniões dissidentes, porque ele gostava mesmo de correr. Mas ele continuou fazendo ginástica, a vida toda.

Márcio Chaer — Fazia exercícios em casa, sozinho?
Sônia Ráo — No clube Pinheiros. Ele mudou para perto do Pinheiros. Deixou de correr, mas passou a andar.

Arnaldo Malheiros — No hotel que ele morou em Brasília ele tinha esteira no quarto.

Sônia Ráo — Era muito disciplinado. Dormia na hora certa, comia direito, acordava na hora certa e fazia ginástica.

Arnaldo Malheiros — Quando ele assumiu o Ministério teve uma rebelião, porque ele formou o “jardim de infância”, um pessoal super jovem e super competente. Poucos passavam dos 30 anos e gente extremamente competente. Ele nomeou essa equipe ultrajovem. Estabeleceu lá, começou a regular as coisas. Ele acordava às 5h da manhã, ia para o Eixo Monumental correr com dois agentes da Polícia Federal, que tinham que dar duro para poder acompanhá-lo. Depois de correr ele voltava, tomava banho, lia os jornais, tomava o café da manhã, e aí pelas 8h estava chegando no gabinete para a reunião. Mas o jardim de infância deu um golpe nele e falou: “Não. 8h é muito cedo, vamos fazer às 9h”. Você conheceu um lugar na rua Senador Feijó que se chamava Mon Ami? O Mon Ami era um barzinho pequenininho que tinha um balcão e umas mesinhas, e tinha algumas características. Uma era que ele fazia almoço do meio-dia às seis da tarde, que era quando fechava. Então, era bom para fórum, que você ia depois do julgamento. A outra característica é que ele servia a cerveja em umas canecas de prata que se você não passasse a mão no lugar que você ia pôr no lábio você arrancava a pele do lábio. Eles guardavam as canecas no congelador. Outra característica é que as cadeiras tinham assento em forma de coração em três pés, dois pés na frente e um atrás. E aí de repente você ia falar alguma coisa para alguém e caía. O único garçom era o Arnaldo, e havia três pratos principais. Um, não sei por que, chamava filet borboleta, que era um filet batido, ficava bem fininho, e tinha em cima queijo e uma tira de aliche. O outro chamava-se prato frio, que era um monte de coisa, salame, presunto, queijo, ervilha e tal. E o outro chamava-se prato de verão, que eram frutas, melão, figo, com um pouco de ervilha, de queijo minas e tal. Então, quando você pedia o prato de verão o Arnaldo dizia assim: “De sobremesa um filezinho, não é?” Toda vez. Não tinha exceção. E o Márcio adorava aquilo. Ele adorava o Mon Ami. Houve um tempo em que ele, que sempre foi festeiro fazia alguns encontros em casa e contratava o Arnaldo, porque o Mon Ami não funcionava à noite. Era um lugar no centrão, perto da Praça da Sé. E o Arnaldo que servia as coisas.

Márcio Chaer — Gostava de celebrar e comemorar.
Arnaldo Malheiros — Pois é. O Márcio tinha uma data muito importante, ainda no tempo da Conde do Pinhal, que eu apelidei do reizado, que era o Dia de Reis. “O Reizado do Márcio.” Era o dia dos reis magos. Todo dia 6 de janeiro ele fazia uma festança e convidava o fórum criminal, era oficial de justiça, escrevente, juiz, promotor, advogado. Isso até que morreu o irmão dele, o Maurício, pai do Zé Diogo. O Márcio perdeu a alegria do reizado.

Márcio Chaer — Quantos irmãos ele tinha?
Arnaldo Malheiros — Ele tinha duas irmãs e um irmão. Esse irmão ele adorava. Ficou no bode com a morte do irmão e aí já deu um abalo, naquele ano não teve reizado, no ano seguinte foi ter reizado, e o Edegardo Maranhão, esse presidente do júri que eu falei, que a gente se reunia no gabinete, estava lá quando recebeu o telefonema de que a mulher e os dois filhos tinham morrido em um acidente de automóvel na Dutra. Aí acabou o reizado, somou o Maurício com o Edgard.

Márcio Chaer — A ideia da morte era uma coisa terrível para ele?
Sônia Ráo — Há pouco tempo ele “eu acho que eu não vou morrer nunca.” E aí eu dei um presente de aniversário na sequência e escrevi no cartão que também achava que ele não ia morrer nunca. Vários advogados amigos estavam falando sobre isso no velório, porque a gente não achava mesmo que ele ia morrer.

Márcio Chaer — Arnaldo, quem ele admirava, além de você?
Sônia Ráo — Por exemplo, o Valdir Troncoso Perez ele admirava muito.

Márcio Chaer — Aquela famosa entrevista do Valdir nas páginas amarelas da Veja você lembra de ele comentar?
Sônia — Não. Mas lembrei de uma coisa engraçada. Ele me chamava sempre de velhinha de Taubaté, porque eu sou a própria. O cara pode confessar na minha frente que eu não acredito. Ele contou uma vez que foi com o dr. Raimundo Pascoal Barbosa no presídio. Os dois tinham um júri, então cada um foi lá conversar com o cliente preso e instruir para o interrogatório no plenário. Quando o dr. Raimundo já estava se despedindo o cliente dele disse: “Eu preciso confessar uma coisa para o senhor”. E ele respondeu: “Então, até logo, te vejo no Tribunal”. O Márcio falava muito isso para gente. Você não interroga o seu cliente.

Arnaldo Malheiros — O Márcio tinha um carinho muito grande por alguns colegas que eram bons advogados, mas que nunca se deram bem financeiramente. Morreram pobres. As primeiras salas que ele deu o nome, que eram três, Kleber de Menezes Doria, Paulo Brandão e Nilton Silva Júnior.

Sônia Ráo — Eu não conheci nenhum dos três.

Arnaldo Malheiros — Eu conheci os três, convivi com os três, eram caras competentes, caras que ele gostava. Tem uma ótima do Paulo Brandão: uma vez uma família de uma vitima procurou o Zé Carlos Dias para ser assistente de acusação no júri. E o Zé Carlos foi estudar o processo, e concluiu: “Olha, eu não aconselho vocês a me contratarem porque a defesa não tem nenhuma chance, nesse caso aqui a condenação é certa, não tem saída nenhuma para defesa”. Aí os caras disseram: “Não. Nós fazemos questão, porque a defesa vai ficar falando mal do nosso parente”. Queriam um assistente que pelo menos defendesse a memória da vítima. Aí o Zé Carlos foi e o advogado de defesa era o Paulo Brandão. Ele foi lá, o promotor fez a acusação, o Zé Carlos falou também. Aí o Paulo Brandão começou: “Senhores jurados, como essa vida é desigual. Veja a vitima, a vitima é de uma família rica que contratou um dos maiores advogados criminais do Brasil para vir aqui fazer a acusação. É o doutor José Carlos Dias, um cara que eu admiro tanto, que é formidável. E o desgraçado do réu não tem nem dinheiro para ter um advogado bom, tem que ficar com um porcaria que nem eu”.

Sônia Ráo — E ele mereceu placa e homenagem no escritório.

Arnaldo Malheiros — O Zé Carlos Dias falava assim: “A condenação foi por 5 a 2, caramba!” Só com essa conversa ele ganhou dois votos. Não falou nada em favor do assassino. Só falando isso ele ganhou dois votos.

Márcio Chaer — Mas quer dizer que o Márcio entrou para a advocacia criminal meio por acaso?
Sônia Ráo — Não. Ele conta a história do júri que ele assistiu com 11 anos de idade em Cruzeiro e se apaixonou. Com 11 anos ele resolveu que era isso que ele queria fazer.

Márcio Chaer — Mas então, ele era advogado da Cesp lá em Bauru, aí vem para São Paulo para...?
Sônia Ráo — Ele foi comissionado de um cargo público para outro.

Arnaldo Malheiros — Não. Era o mesmo cargo. Ele era advogado da Cesp em Bauru e veio ser advogado da Cesp em São Paulo, mas daí cedido à PAJ. Mas ele recebia pela Cesp.

Sônia Ráo— O Valdir era procurador da PAJ. O Márcio veio por outro caminho, mas os dois eram da PAJ.

Márcio Chaer — Essa procuradoria era uma central de talentos, não?
Arnaldo Malheiros — É o que seria hoje a Defensoria Pública.

Márcio Chaer — Sim. Mas veja bem, foram da procuradoria do estado, Ulysses Guimarães, Franco Montoro, Michel Temer, Eduardo Mulayert...
Sônia — O Eduardo Muylaert era procurador. Entrou em primeiro lugar no concurso. Mas ele foi da PAJ?

Márcio Chaer — Quem eram as pessoas que o Márcio Thomaz Bastos decididamente não gostava?
Arnaldo Malheiros — O Márcio dizia que para um advogado é impossível ser ministro da Justiça por quatro anos sem trombar com amigos, com colegas. E que ele trombou com vários, mas tinha uma grande alegria no fato de ele ter conseguido reconstruir praticamente todos esses relacionamentos.

Sônia Ráo — Eu acho que o Arnaldo era um dos poucos amigos íntimos do Márcio. Ele era extremamente reservado.

Arnaldo Malheiros — Ele era um cara tão aberto, mas ao mesmo tempo tão reservado.

Márcio Chaer — E de música o que ele gostava?
Sônia Ráo — De MPB ele gostava muito.

Márcio Chaer — Alguma coisa estrangeira?
Arnaldo Malheiros — Não creio, mas também não sei.

Márcio Chaer — Lembro de um réveillon que passei na casa dele e tinha uma mulher muito grande. Ele falou: “Essa aí é aquela que matou a família inteira”. E estava passando a virada do ano na casa dele.
Arnaldo Malheiros — Mas isso era o Márcio, esse acolhimento dele.

Sônia Ráo — Ele contava uma história, ele e um advogado do cível foram fazer uma reunião na CNBB. Eu não trabalhava com ele ainda, não sei que caso que era. Aí o Márcio, todo sério, reunião na CNBB, aí o outro advogado falou assim: “Esse aqui é o criminalista e criminalista é como ginecologista, tem que abrir as pernas e contar tudo”.

Márcio Chaer — Ele era acima de tudo um cara amoroso, não é Sônia?
Sônia Ráo — Ele era muito amoroso e muito gentil. E ele te ouvia.

Márcio Chaer — Sônia, uma coisa que me impressiona muito é o Márcio dizer para os mais próximos que ele garantiu uma renda suficiente para garantir que até os últimos dos netos tenha uma existência tranquila sem precisar trabalhar. Eu fico pensando assim, o Marcelo Odebrecht é dono da maior empresa do Brasil, mas não pode dar essa segurança sequer para ele, porque a Odebrecht está devendo R$ 70 bilhões. O Márcio sem ser propriamente um financista conseguiu equacionar.
Sônia Ráo — O Márcio, além de ser muito bom advogado, era muito bom para negócios, investimentos.

Márcio Chaer — Qual era o método dele de cobrar?
Sônia Ráo — Não dá para ter muito método na advocacia criminal. Você tem uma perspectiva de complexidade do caso, do que pode acontecer ou não. Eu lembro que ele falava para o cliente: “Se não acontecer, melhor para todos nós.”

Márcio Chaer — O Márcio era petista?
Sônia Ráo — Não era petista, nunca se filiou ao PT. Ele gostava muito do Lula, era um cara de esquerda, democrata.

Márcio Chaer — O Márcio inaugurou um jeito de fazer advocacia da forma cooperativada. Foi depois do Ministério, que ele passou a estabelecer parcerias?
Sônia Ráo — É, depois do Ministério. Porque ele voltou com aquela ideia de fazer um escritório pequeno e se associar pontualmente com os advogados que já haviam trabalhado com ele. No meu escritório ainda temos vários casos em conjunto.

Márcio Chaer — Como foi a volta dele do Ministério?
Sônia Ráo — Na ida dele eu fiquei tão triste que fiquei com asma. Eu tinha 43 anos e fiquei com asma pela primeira vez na vida.

Márcio Chaer — Por que ele foi?
Sônia Ráo —
Dos argumentos que eu ouvi dele o que realmente me convenceu foi o entusiasmo com o primeiro governo do Lula. Ele não queria estar de fora desse acontecimento.

 é diretor da revista Consultor Jurídico.

Revista Consultor Jurídico, 29 de dezembro de 2014, 7h43

Comentários de leitores

6 comentários

Márcio

Douglas Dalto messora (Advogado Autônomo - Criminal)

Extraordinário advogado. Defensor nato. Sua forma intimista na atuação no Tribunal do Júri é um marco, um divisor de águas entre o advogado que grita e aquele que argumenta.

Prof. Dr. Lomonaco

Prof. Dr. Jose Antonio Lomonaco (Advogado Sócio de Escritório)

Não vejo como não concordar com o comentarista Paulo Francis, que fez comentário adequado e equilibrado. Apenas discordo quanto às nomeações, mas são coisas que, como bem alertou, somente a história poderá valorar. Vale a observação de que as indicações, quando resultaram em bons ministros, geraram certa surpresa, o que evidencia que a percepção geral era a de partidarização.

Dr. Valdir Troncoso Peres

PAULO FRANCIS (Advogado Sócio de Escritório - Civil)

Almocei com ele diversas vezes em um restaurante da Rua Riachuelo junto com outros dois amigos. Figura ímpar contou belas histórias. Era um grande orador. Faz falta.

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