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Carta aberta

Defensores dizem ganhar menos que juízes e promotores por protegerem pobres

Após ficarem de fora do aumento de salário concedido ao Judiciário e Ministério Público, na semana passada, defensores públicos federais afirmaram que não foram beneficiados porque, ao contrário dos juízes e promotores, eles defendem prioritariamente os interesses dos pobres.

“Na Câmara dos Deputados, foram aprovados projetos de lei de fortalecimento da magistratura e do Ministério Público e, descaradamente (tangenciando, para dizer o menos, a deslealdade), foi extirpado do “pacote” a Defensoria Pública, sem qualquer motivação razoável, a não ser o fato de a instituição ser vocacionada para prioritariamente atender os interesses das pessoas economicamente desvalidas (os “pobres”). É aquela velha estória: ‘o interesse do pobre é menor’", diz carta aberta da categoria.

No documento, os defensores cobraram explicações do governo federal e do Congresso Nacional. De acordo com eles, o desprezo da administração Dilma Rousseff pela categoria é “incompatível” com as políticas de inclusão social que ela afirma defender. Já do Legislativo federal os membros das defensorias públicas federais esperam retração devido ao “tratamento humilhante” que receberam na Câmara dos Deputados e no Senado.   

Leia abaixo a íntegra da carta dos defensores públicos federais:

“DEFENSORIA PÚBLICA BRASILEIRA FOI VÍTIMA DE “GOLPE” NO CONGRESSO NACIONAL

A Defensoria Pública Brasileira, que recentemente escreveu – com cores fortes – seu nome na história do sistema de Justiça do nosso país, acaba de sofrer terrível “golpe” no Congresso Nacional.

Há poucos meses a Defensoria Pública foi (tardiamente) equiparada às demais carreiras coirmãs do sistema de Justiça (Ministério Público e magistratura), obra da Emenda Constitucional 80/2014. Esse fato foi amplamente comemorado pela comunidade jurídica e pela sociedade civil organizada, em especial aquelas marcadamente defensoras dos direitos humanos.

Infelizmente, após esse passo a frente, semana passada o Congresso Nacional enxovalhou a instituição responsável pela promoção dos direitos humanos nesse país. É que, ao apagar das luzes, emprestou tratamento desavergonhadamente anti-isonômico à Defensoria, em detrimento das carreiras da magistratura e do Ministério Público.

Ontem, na Câmara dos Deputados, foram aprovados projetos de lei de fortalecimento da magistratura e do Ministério Público e, descaradamente (tangenciando, para dizer o menos, a deslealdade), foi extirpado do “pacote” a Defensoria Pública, sem qualquer motivação razoável, a não ser o fato de a instituição ser vocacionada para prioritariamente atender os interesses das pessoas economicamente desvalidas (os “pobres”). É aquela velha estória: “o interesse do pobre é menor”.

Deve-se deixar bem claro que embora esse particular pleito dissesse respeito com os subsídios das carreiras, a luta da Defensoria Pública é maior, é legítima, porque visa a equiparação institucional, ou seja, fortalecimento da instituição como um todo: carreira de apoio, estrutura física, dentre outras. Visa, sobretudo, reduzir um incomensurável fosso hoje existente entre as carreiras.

A Defensoria Pública Brasileira foi humilhada pelos representantes do povo, cuja maioria é o público destinatário dos seus serviços. Um triste paradoxo, que somente se explica num contexto de representação popular ilegítima.

O povo brasileiro e a Defensoria Pública brasileira não pode permitir silente esse tratamento humilhante, desigual e degradante.

O Governo Federal deve explicações públicas à população diante desse desagradável episódio, quanto mais se brada aos quatro ventos que seu norte é o fortalecimento de políticas públicas voltadas para o atendimento da população miserável. Essa conduta de retaliação ao crescimento institucional da Defensoria Pública é incompatível com a política que afirma defender.

O Congresso Nacional também deve explicações, já que permitiu tratamento humilhante à Defensoria Pública, aos Defensores e também a toda população que conta com esse serviço, em especial, os pobres, os miseráveis.

O que está em jogo não é somente um projeto de lei da Defensoria Pública da União, mas sim o real alcance da interpretação do novel texto constitucional pós EC 80.

A desigualdade social que assola o Brasil não pode prescindir de uma instituição forte na defesa dos mais fracos no sistema de Justiça. E essa instituição, por vocação, é a Defensoria Pública brasileira.

Defensores Públicos Federais”

Revista Consultor Jurídico, 24 de dezembro de 2014, 8h30

Comentários de leitores

24 comentários

A solução... individualista

Daniel André Köhler Berthold (Juiz Estadual de 1ª. Instância)

Sempre que integrantes de uma categoria lutam pela melhoria de remuneração, estão, é claro, lutando por melhora individual, mas também lutam pelo fortalecimento de seu Poder, Instituição ou Órgão.
Por esse segundo aspecto, de nada adianta o simplista argumento de mandar procurar outra tunção ou emprego.
Aliás, tal argumento justificaria que todos ganhassem só o salário mínimo, inclusive os advogados (quando ganharam o salário mínimo no mês, o restante pode ser doado).

A solução.

Lauro Soares de Souza Neto, advogado em Marília-SP (Advogado Autônomo - Criminal)

Se acham que ganham pouco, peçam a conta e vão fazer outra coisa. Sentam, não fazem nada e querem ganhar mais? Tão de brincadeira?

Raciocinar imediatamente

Daniel André Köhler Berthold (Juiz Estadual de 1ª. Instância)

Com a complexidade das regras processuais do Brasil, a defesa das pessoas que não podem contratar Advogado só tem um modo adequado de ser feita: por uma instituição tal qual a Defensoria Pública. Quem mais poderia acompanhar precatórias, interpor, arrazoar e contra-arrazoar recursos?
Essa reiterada afirmação de que o número de presos aumentou desde que a Defensoria Pública existe é falácia, porque o número de presos também aumentou onde a Defensoria Pública não existia (Estado de SC).
O que falta é uma Defensoria Pública mais espalhada, especialmente a da União.

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