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Ideias do Milênio

Governo do Irã tem de se adaptar a cenário internacional

Entrevista concedida pelo professor e pesquisador iraniano Touraj Atabaki ao jornalista Marcelo Lins, para o programa Milênio, da Globo News. O Milênio é um programa de entrevistas, que vai ao ar pelo canal de televisão por assinatura Globo News às 23h30 de segunda-feira, com repetições às 3h30, 11h30 e 17h30. 

O que é um país estrangeiro senão a imagem que fazemos dele? E qual é a imagem que o Ocidente vem constituindo do Irã há mais de trinta anos? As agências de notícias mostram uma terra de perigosos fanáticos antiamericanos, que mistura em sua trilha sonora os sermões dos mulás nas orações da sexta-feira a gritos contra Israel em passeatas quase diárias. Mas o Irã tem uma história milenar e uma cultura riquíssima com uma tradição poética das mais refinadas. A história contemporânea do  país, que é herdeira da antiga Pérsia, é marcada por sucessivas disputas de poder, por hegemonia regional ou por aliados internacionais. Da experiência nacionalista de Mohammed Mosaddeq, no início dos anos 50, do século passado veio o golpe apoiado pelos Estados Unidos e o Reino Unido, e com ele a onda ocidentalizante incentivada pelo xá Reza Pahlevi. A concentração de renda produzida pelo regime monárquico trouxe a insatisfação popular e a radicalização das lideranças religiosas mais influentes. Em 1979, esse movimento resultou na derrubada do xá e no estabelecimento do governo dos aiatolás, liderado por Ruhollah Khomeini. Trinta e quatro anos depois, o Irã continua uma teocracia, na qual a religião dita a lei. É também um país sem as enormes diferenças econômicas de seus vizinhos, que realiza eleições periodicamente e participa de boa parte dos fóruns mundiais. Mas o regime é fechado, tem baixíssima tolerância com os opositores, como aconteceu durante a repressão ao movimento Onda Verde, que questionou os resultados da eleição de Ahmadinejad. O professor Touraj Atabaki é um dos muitos acadêmicos iranianos que precisaram deixar o país para conseguir desenvolver suas pesquisas. Em recente visita ao Brasil, o professor Atabaki falou com surpreendente calma e otimismo sobre o Irã de hoje, suas origens históricas e perspectivas para o futuro. Minimizou a ameaça das ditas pretensões nucleares de Teerã que tanto assustam o mundo, e disse que como tudo, o regime dos aiatolás é passageiro, e o Irã é muito maior do que a imagem que nos acostumamos a ter dele.  

Marcelo Lins — Eu gostaria de começar perguntando se há características e valores culturais que sejam essencialmente iranianos e que se sobrepõem às circunstâncias históricas. O senhor acredita que existe uma “alma iraniana”?
Touraj Atabaki — Se você analisar em um contexto mais amplo, eu diria que hoje não existe um estereótipo iraniano único. O mesmo aconteceu durante a Guerra Fria, entre o Ocidente e o resto, o bloco soviético. Algo similar acontece entre o Norte e o Sul. Então, essa representação estereotipada não é única. Ela é muito reducionista e muito parcial. E a mídia, infelizmente, nem sempre apresenta a complexidade da cultura, do cenário político, o que as pessoas do país querem ou se elas são participativas. Isso é muito importante. Mas, se eu quisesse dizer, em poucas palavras, algo muito particular sobre o Irã, teríamos que voltar na história e olhar o mapa da região. O Irã é o único país da região que, nos últimos 500 anos, manteve, de alguma maneira, suas fronteiras intactas. O Império Otomano desapareceu, bem como o Império Czarista e, recentemente, o Império Soviético. Mas o Irã é o único país ali que continua igual. Se você analisar as raízes dessa comunidade das fronteiras iranianas, por um lado ela se deve à harmonia existente entre os iranianos. Mas, por outro lado, isso também se deve ao tipo de tolerância que os iranianos sempre tiveram com relação ao mundo exterior para manter sua integridade e sua territorialidade. Infelizmente, o que está acontecendo hoje obscurece o passado do Irã, mas ninguém percebeu isso. Hoje, o regime atual do país não representa verdadeiramente a longa história do Irã. Por exemplo, quando ouvem o presidente iraniano indo à ONU e fazendo um discurso extremamente agressivo contra alguns países, as pessoas acham que o Irã sempre foi um país agressivo. Mas não foi. Se tivesse sido sempre assim, o Irã não existiria hoje como nação nem como país na região.

Marcelo Lins — Haveria divisões.
Touraj Atabaki — Claro. Como outros impérios e outros países. Então, eu acho que não deveria haver esse tipo de generalização excessiva e essa imposição das características de um determinado período a toda a cultura e à história de um país.

Marcelo Lins — Também não podemos achar que será assim para sempre. É um momento e vai passar. 
Touraj Atabaki — Isso acontece na história de qualquer país. Ninguém imaginaria que, após 70 anos de domínio do marxismo-leninismo na União Soviética, veríamos a desintegração de um império. 

Marcelo Lins — Continuando nesse tema das circunstâncias da História e voltando à Revolução de 1979 e um pouco antes, eu gostaria de lhe perguntar, já que o senhor nasceu e foi criado no Irã. Como era o dia a dia no Irã, que tipo de educação as pessoas tinham nas escolas públicas? Como as pessoas eram formadas e criadas no Irã?
Touraj Atabaki — O Irã praticou uma espécie de modernização autoritária nos 50 anos que se seguiram à Primeira Guerra Mundial. E essa modernização autoritária impôs uma mudança muito rápida no país: industrialização, urbanização, educação pública... Tudo isso aconteceu, mas o que realmente faltava no Irã era modernidade em si. A modernidade significa pensamento crítico, liberdade política, prestação de contas do governo e todas essas coisas. E isso é algo que não podemos esquecer. Naquele período, o que fez milhões de iranianos sairem às ruas e dizer não ao xá e ao antigo regime foi o fato de que, além das liberdades sociais de um modo de vida próprio e da prosperidade econômica, eles queriam respeito à individualidade, queriam liberdade política, um sistema multipartidário. Esse era o denominador comum que levou os iranianos às ruas em 1979. E eu acho que, em alguns aspectos, foi semelhante ao que ocorreu na chamada Primavera Árabe. Não foram apenas as questões econômicas que levaram tunisianos e egípcios às ruas. Foi mais do que isso. Se você procurar a história desse rapaz que se queimou, ele não fez isso por ser extremamente pobre. Ele se queimou porque, em dado momento da vida, ele achou que sua dignidade não estava sendo respeitada como indivíduo. Portanto, isso é algo importante na História. E eu acho que os iranianos foram às ruas com essa mensagem, a de que eles queriam tudo o que tinham, mas também queriam liberdade e individualidade. 

Marcelo Lins — Não podemos esquecer que, em 1979, quando as pessoas foram às ruas, quando o aiatolá Khomeini ainda estava no exílio e voltou, os protestos não envolveram apenas pessoas religiosas. Havia comunistas, liberais, partidos não religiosos nas ruas. Não eram só religiosos.
Touraj Atabaki — Exato. Naquele momento, estavam todos nas ruas. Mulheres, homens, religiosos, armênios, assírios, cristãos... Todos saíram às ruas pedindo mudanças. Mas o que foi realmente significativo na época foi as pessoas não estavam organizadas, com exceção dos religiosos. Eles tinham suas redes, suas mesquitas. Eles tinham uma estrutura, estavam muito bem organizados e souberam utilizar isso.Podemos dizer que, organizacionalmente, eles se impuseram à revolução. E o que eles prometeram, culturalmente, foi uma sociedade igualitária, uma sociedade sem corrupção, que respeitasse as individualidades, com igualdade entre homens e mulheres, sem discriminação e tudo o mais. Isso teve um grande apelo. E não podemos esquecer que o aiatolá Khomeini era um líder muito carismático. 

Marcelo Lins — E ele também tinha apoio do Ocidente.
Touraj Atabaki — Havia dois aiatolás Khomeini: o que estava no exílio, em Paris, prometendo às pessoas todas essas coisas que eu falei, mas foi o outro aiatolá Khomeini que chegou a Tererã e praticou sua política. E a partir do momento em que chegou a Teerã, ele percebeu que a única alternativa para ele era praticar uma teocracia absoluta. Na verdade, no começo da Revolução, algumas pessoas lhe diziam: “Não adote o parlamentarismo. Não é necessário. O governo islâmico já basta. Se tivermos alguém no alto, fazendo as leis, será suficiente”. Assim, a sociedade deveria ser dividida entre quem faz as leis e quem obedece a elas. Só isso. Sem intermediários no meio. Isso ocorreu em 1979, e era muito sedutor para o povo. Havia certos slogans culturais que foram usados. Mas devo acrescentar mais um aspecto: não esqueça que a Revolução Islâmica ocorreu no contexto da Guerra Fria. Eu sempre me pergunto, e meus alunos me perguntam: como seria se a União Soviética tivesse de desintegrado 10 ou 15 anos antes? A Revolução Islâmica teria sido bem sucedida? É uma pergunta a se fazer. Porque o que nós sabemos é que desde a Revolução Islâmica, o governo islâmico e o regime islâmico iraniano se beneficiaram fortemente de um mundo extremamente polarizado, de um mundo dividido entre potências do Leste e potências do Oeste. Eles ainda estavam jogando as mesmas cartas. A Revolução Islâmica nasceu nesse ambiente e o cenário internacional ideal para o regime foi esse mundo dividido em duas potências. Assim, o Irã podia se associar a uma delas e fazer oposição à outra. 

Marcelo Lins — Em pouco tempo, quando o aiatolá Khomeini começou a mostrar esse seu outro lado, ele também começou a perder o apoio que tinha conquistado no Ocidente, nas universidades, e o Irã se tornou cada vez mais isolado do resto do mundo — ao menos das potências do Oeste.
Touraj Atabaki — Houve uma alienação construída gradualmente entre as pessoas, principalmente entre os setores urbanos e pessoas ligadas ao regime. Mas, por outro lado, voltando à política internacional, nós vivenciamos, gradualmente, uma espécie de afastamento entre o Irã e as organizações internacionais, as agências internacionais, a política internacional, as relações internacionais. Isso aconteceu aos poucos. Havia uma política de confronto, entende? O Irã precisava muito de um antagonista. Sem ele, o Irã não conseguia sobreviver. Esse antagonista foi idealizado. Era o inimigo sem o qual o Irã não sobreviveria. Isso foi algo que o regime iraniano aprendeu a criar. Esse antiamericanismo, que eles chamam de “antiocidentalismo”, faz parte desse projeto de sobrevivência do regime. Eles precisam ter um inimigo. 

Marcelo Lins — Então, a partir daí, a guerra contra o Iraque poderia ter sido melhor. 
Touraj Atabaki — Ela era desnecessária. Embora o Iraque tenha imposto a guerra ao Irã, isso é fato, a política iraniana, a política de confronto, abriu caminho para essa guerra. Em dado momento, não havia mais necessidade de continuar com a guerra. 

Marcelo Lins — Mas ela durou oito anos. Foi a mais longa guerra convencional. 
Touraj Atabaki — E a razão dessa continuação burra da guerra foi que o governo iraniano acreditava que, com a guerra, poderia consolidar seu poder. Porque eles achavam que a Revolução era recente e o que o governo precisava de uma mobilização, precisava levar as pessoas às ruas, à linha de frente, para apoiar a Revolução. E foi por isso que milhões de pessoas morreram em uma guerra totalmente desnecessária. 

Marcelo Lins — Na sua opinião, o que faz o caso iraniano ser diferente do caso dos países árabes que vivem a chamada Primavera Árabe?
Touraj Atabaki — Permita-me explicar uma coisa. Um governo, para ter estabilidade, precisa de vários fatores, mas, pelo menos, de três: legitimidade, aceitação popular e eficiência. Você pode não ter legitimidade nem aceitação popular, mas, se for eficiente, o governo pode resistir por um tempo, não para sempre. A eficiência tem seu limite. O problema do Irã hoje é ter um espaço privado muito grande e um espaço público muito limitado. Se você analisar o espaço privado, o Irã se modernizou muito nos últimos 30 anos nas questões individuais, na educação, no acesso à internet, na tecnologia. Nesses setores privados, eles se orgulham de terem se atualizado e o contato diário que eu tenho com o Irã me mostra que se trata de uma sociedade de alta mobilidade, única na região. Por outro lado, quando falamos do espaço público, é algo muito limitado, que me lembra a União Soviética. A questão é: quando a fronteira entre o público e o privado cair, o que vai acontecer?

Marcelo Lins — Quem vai preencher essa lacuna?
Touraj Atabaki — Isso é exatamente o que se viu, em pequena escala, em junho de 2009, com o Movimento Verde. Viram-se, nas ruas, milhões de pessoas, principalmente as mulheres. A presença das mulheres, das moças, nas ruas, foi algo inédito em toda a região. Isso não foi visto na Tunísia, no Egito, mas foi visto no Irã. Isso mostra que esse espaço privado, no Irã, está muito fortalecido, e isso é muito forte. Mas, voltando à questão dos motivos de os iranianos não continuarem protestando é que, infelizmente, naquela época, as medidas que o governo adotou para conter o movimento foram imprevisíveis e inimagináveis. Sempre se espera alguma brutalidade, sempre se espera alguma repressão.

Marcelo Lins — Mas não naquele nível.
Touraj Atabaki — Não naquele nível, com tortura e estupro. Homens foram estuprados, mulheres foram estupradas, pessoas foram torturadas, outras desapareceram. Foi algo sem precedentes na história do Irã. 

Marcelo Lins — E qual é o papel da religião nesse xadrez iraniano?
Touraj Atabaki — O triste, quando analisamos de um ponto de vista religioso, é que a promessa, ou proposta do aiatolá Khomeini era islamizar a política. Essa era a mensagem dele. Mas o que aconteceu no Irã após a Revolução foi que ele politizou o islã, e, quando se politiza o islã, os atos políticos do dia a dia de alguma maneira, tornam-se ícones islâmicos, religiosos, então é preciso usar a religião para dar cobertura a eles. Se a economia vai mal, eles usam a religião para justificar isso. Se há corrupção, a justificativa é religiosa. Se há desigualdades no país, a justificativa é religiosa. De alguma forma, quando você justifica os fatos do dia a dia pela religião, você torna as pessoas religiosas.

Marcelo Lins — O oposto do que deveria ser.
Touraj Atabaki — Exato. Vejamos, por exemplo, nossos países vizinhos. As pessoas da Turquia são mais religiosas, mais muçulmanas, do que no Irã. E isso é resultado dos 30 anos de teocracia no Irã. E, quando se usa a religião como ideologia — pode ser qualquer coisa usada como ideologia, nacionalismo, marxismo-leninismo —, de alguma forma, você afasta as pessoas  e é isso que acontece no Irã hoje. Quando você não islamiza a política e politiza o islã, é isso que acontece. 

Marcelo Lins — O Ocidente, Israel e os Estados Unidos, têm mesmo motivos para temer o programa nuclear iraniano.
Touraj Atabaki — Eu não posso julgar isso, pois não estou envolvido nesse projeto. Minha impressão é que, no momento, o governo iraniano não está interessado em produzir armas nucleares. Ele alega que seu programa é apenas para fins pacíficos, para gerar energia nuclear. Mas eu acho que qualquer regime autoritário que adota essa política de confronto sempre tem o desejo de ser a força dominante de sua região e o preço por esse domínio é algo importante. Eu acho que devemos ser muito cuidadosos com isso. Não só com Irã, mas com qualquer país da região que tenha essa ambição, de dominar a região, de ser o mais poderoso. 

Marcelo Lins — A opção do Ocidente, da ONU, dos EUA e de muitos países, de isolar cada vez mais o governo iraniano com sanções, pode trazer alguma mudança?
Touraj Atabaki — O que nós temos até agora é a população pagando um preço alto por isso. Há falta de medicamentos e falta de comida. A elite tem acesso a tudo, pode comprar tudo. É a população comum que está pagando o preço disso. Eu sou mais favorável a sanções com uma alvo específico do que a sanções generalizadas, que punem a todos indiscriminadamente

Marcelo Lins — Algumas iniciativas, como da Turquia e do Brasil, foram quase ridicularizadas. O senhor acha que há espaço para um diálogo?
Touraj Atabaki — Eu acho que, antes de partir do Brasil ou da Turquia, a disposição para o diálogo deveria partir do governo iraniano. O governo iraniano deveria perceber, de uma vez por todas, que não pode arquitetar, sozinho, as relações mundiais. Eles precisam negociar com as potências internacionais, precisam negociar com os atores internacionais e se adaptar ao cenário internacional. Não se pode seguir para sempre com essa política de confronto e antagonismo.

Revista Consultor Jurídico, 29 de março de 2013, 8h01

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