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Livro Aberto

Os livros da vida da juíza Andréa Pachá

Por 

*Depoimento concedido a Marcelo Pinto

Não foram poucas as vezes em que, atuando como juíza, me socorri em busca da compreensão da nossa precária e contraditória condição humana, que aparece, na sua forma mais simples, na literatura e na ficção.

Na verdade, não consigo imaginar quem eu seria ou o que pensaria se não fosse a literatura na minha vida. Há algumas maneiras de crescer e enxergar o mundo: pode-se viver as experiências, as dores, as alegrias; pode-se ter a sorte das paixões definitivas ou o desamparo das perdas eternas. No entanto, uma vida só é muito pouco para que qualquer pessoa experimente todas as experiências que dizem respeito à sua condição humana.

A leitura tem também o papel de trazer a vida para a nossa alma. As emoções, as dúvidas, as angústias, os valores e os vícios de todos os homens ingressam nas nossas vidas por esse meio inusitado de letrinhas transformadas em romances.

Somos tantos
Viajamos, choramos, rimos, nos inquietamos, assistimos, enfim, ao desfile das contradições humanas a partir de um olhar generosamente compartilhado pelo autor com seus múltiplos leitores. Assim, o que era uma história passa a ser muitas histórias, vistas de muitos lugares, numa experiência digna de Luigi Pirandello: “Somos tantos quantos os que nos veem”.

Sempre senti muito medo de precisar, em algum momento da vida, escolher os dez livros mais importantes que já li. Não sou uma leitora disciplinada. Nunca tive uma orientação acadêmica para a experiência da literatura. Sem falar no medo do esquecimento de uma obra que, depois, lembrarei como essencial.

Sempre curiosa, lia, desde muito cedo, tudo o que chegava às minhas mãos. O Tempo e o Vento, de Érico Verissimo, em uma edição encadernada em couro, na biblioteca do meu pai, foi um ritual de iniciação. 

De Clarice Lispector, com Uma aprendizagem ou o livro dos prazeres, extraí as primeiras inquietações adolescentes e as frases são, até hoje, lembradas de cor, juntamente com as poesias de Fernando Pessoa.

Crime e Castigo e Recordação da Casa dos Mortos, de Fiódor Dostoiévski, abriram a minha percepção para a inquietante degradação do sistema penal e prisional e, vivenciando a abertura política do país — nasci em 1964 —, fui apresentada a livros que me definiram ideologicamente. 

Outro Brasil
Batismo de Sangue, de Frei Betto e Um Homem, de Oriana Falacci, supriram o silêncio ensurdecedor do período da ditadura dos bancos escolares. Grande Sertão: Veredas, de Guimarães Rosa; O Homem Cordial, de Sérgio Buarque de Holanda; Casa Grande e Senzala, de Gilberto Freyre e Essa Terra, de Antonio Torres consolidaram em mim a sensação de pertencimento a um Brasil que não aparecia nas versões oficiais de então. Enxerguei-me brasileira a partir desses autores.

Com as inquietações crescentes e os questionamentos próprios da nossa precária condição humana, participei, em meados dos anos 80 de um grupo de dramaturgia, orientado pelo escritor e diretor teatral Alcione Araújo. Em reuniões semanais, nos dedicávamos a discutir com profundidade os clássicos do teatro, da literatura e da filosofia. Uma sequência de livros foi fundamental para a compreensão da nossa civilização, nossos dramas e tragédias: Édipo Rei, de Sófocles; Hamlet, de William Shakespeare, e Galileu Galilei, de Bertold Brecht. Quem somos nós? Ser ou não ser? Como ser?

Aquelas questões são as mesmas com as quais nos confrontamos diariamente. A leitura periódica desses autores é quase uma consulta ao oráculo, em tempos de dúvidas, contradições e mudanças permanentes.

O prazer do encontro com Gabriel García Marquez em Cem Anos de Solidão e Do amor e outros demônios; a história latino-americana bem narrada por Mario Vargas Llosa em Tia Julia e o Escrevinhador, a lucidez de Jorge Luis Borges em O Aleph e a experiência transcendental de chegar ao fim de O Jogo da Amarelinha, de Julio Cortázar. Todos inesquecíveis, cada qual definitivo.

Direito de Família na literatura
Outros textos de teatro transformaram-se em leituras obrigatórias para o ajuste da lucidez. Vez ou outra retorno a Um inimigo do povo, escrito em 1882 por Henrik Ibsen. É um texto que nunca saiu da cabeceira desde a primeira leitura. Já li mais de dez vezes a história do Dr. Stockman, que ao denunciar a poluição das águas da sua cidade-balneário — causada pelos curtumes —, torna-se persona non grata para a população, principalmente por defender a ideia de que os valores daquele lugar estão sustentados sobre a mentira e de que a maioria não está com a razão. Não costumo perder as montagens, ainda que raras. Verdade, ética, maioria e solidão são algumas das questões propostas pelo dramaturgo norueguês. Difícil a compreensão de que o monopólio da verdade pode não estar com a maioria. Especialmente quando ela é forjada pela verticalidade das informações e opiniões. A dura conclusão de que o homem mais poderoso do mundo é o que está mais só é de uma força libertadora e de uma angústia definitiva. Paradoxalmente, é um texto que me alimenta de esperança nos momentos em que sou acometida de solidão. 

Ligações perigosas, de Choderlos de Laclos, e todas as crônicas sensacionais de Nelson Rodrigues deveriam estar na cabeceira de qualquer profissional que trabalhasse com Direito de Família. Aprendi mais da alma humana lendo esses autores do que aprenderia em livros técnicos sobre o assunto.

Finalmente, os romances de Philip Roth, especialmente Fantasma sai de cena, e os de José Saramago, com destaque para Ensaio sobre a Lucidez, que traduzem, de maneira clara, objetiva e esteticamente deliciosa, as questões da contemporaneidade.

Dizem que a vida depende do ar e da respiração. Para mim, a vida depende também da leitura e do uso que se faz dela.

 é juíza de Direito em Petrópolis (RJ), ex-conselheira do Conselho Nacional de Justiça e autora do livro A vida não é justa.

Revista Consultor Jurídico, 18 de março de 2013, 9h01

Comentários de leitores

9 comentários

Pode isso Casagrande (o comentarista por excelência)?

João Corrêa (Estagiário - Previdenciária)

A juíza disse para deixarmos a dogmática de lado e nos ocuparmos apenas de literatura. Foi isso o que ela disse. Foi sim. Óbvio. Quem não vê? Está a serviço da estandartização do Direito. Pode isso "Casagrande"? -Olha Galvão, quis me parecer que a eminente articulista pretendeu apenas dizer que a formação humanística não será encontrada nas doutrinas e afins. Ou, que a visão ampliada do mundo, sua tradição cultural, oferece uma base humana que sustenta a pré-compreensão necessária para compreender (e, por conseguinte, aplicar). Confere?

Parabéns!

Alex Bittencourt (Servidor)

Infelizmente, tem faltado aos juristas contemporâneos uma expansão maior no horizonte de conhecimento do ser humano. É algo que tem sido deixada de lado em prol apenas do conhecimento técnico(imprescindível, mas insuficiente para uma atuação jurídica adequada).
E não entendo o celeuma com a reportagem. A magistrada diz:"Aprendi mais da alma humana lendo esses autores do que aprenderia em livros técnicos sobre o assunto." E não duvido que seja verdade. Além disso, em momento nenhum a matéria está recomendando que se deixe a doutrina jurídica de lado. Depreender isso da reportagem me faz ficar bastante preocupado com a interpretação que determinados operadores do direito fazem acerca dos casos concretos...

Luzes!

Eduardo R. (Procurador da República de 1ª. Instância)

O depoimento da Juíza está límpido e sereno, revelando até com certa inquietude (regra nessa era) a angústia dos profissionais da Justiça. A ciência jurídica é humanista e sempre se nutre dessa concepção básica da condição humana na sociedade.

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