Consultor Jurídico

Notícias

Você leu 1 de 5 notícias liberadas no mês.
Faça seu CADASTRO GRATUITO e tenha acesso ilimitado.

Caro e sem garantia

Cai nos EUA interesse de estudantes por curso de Direito

Por 

Até agora, apenas 30 mil estudantes enviaram pedidos de matrículas às faculdades de Direito dos Estados Unidos, para o próximo ano letivo. Houve uma queda de 20% em comparação com o mesmo período do ano passado. E de 38%, em relação a 2010. O número de pedidos poderá chegar a pouco mais de 50 mil, à época das matrículas — metade do número de requerimentos em 2004. Dos 50 mil pedidos, apenas 38 mil deverão efetivar a matrícula, tornando 2013 o pior ano das faculdades de Direito em 30 anos, segundo o jornal The New York Times.

Pelo menos dez das 212 faculdades de Direito dos EUA vão fechar as portas nos próximos dez anos e a maioria terá de enxugar seus quadros docentes e administrativos, desde agora, afirma a revista Forbes. Haverá demissões em massa nas faculdades de Direito, já a partir do próximo ano letivo (que se inicia em setembro), prevê o Times.

"Aliás, algumas escolas, como a Faculdade de Direito de Vermont, já iniciaram o processo de demissões", diz o jornal. De dois terços à metade das Faculdades terão de reduzir o tamanho das classes e fazer cortes de professores e funcionários, disse Brian Leiter, da Faculdade de Direito da Universidade de Chicago ao jornal. Algumas faculdades estão aceitando estudantes que, antes, considerariam desqualificados, porque se saíram mal no curso secundário.

O crescente desinteresse dos estudantes no curso de Direito tem duas razões básicas: os altos custos do curso e as altas taxas de desemprego dos bacharéis.

O custo total do curso de direito, em média, é calculado em US$ 125 mil dólares. Em 2001, a média era de US$ 70 mil. Um curso em uma faculdade de Direito de Nova York pode custar, entre mensalidades, moradia e alimentação, até US$ 80 mil por ano.

A despesa é garantida, o emprego, não. De acordo com um estudo recente da American Bar Association (ABA), a Ordem dos advogados dos EUA, 55% dos bacharéis formados em 2011 não encontraram emprego na área do Direito em um período de nove meses, após a formatura. Empregos no governo, em organizações não governamentais e outras entidades não são boas opções, porque os salários não são compatíveis com a dívida que assumiram. Alguns nem isso conseguem. Acabam arrumando qualquer emprego, até no McDonald’s, para sobreviver.

"Há 30 anos, um curso de Direito era uma garantia de escalada social para estudantes que nasciam em famílias pobres ou apenas remediadas. Hoje, o elevador das faculdades de Direito está quebrado", disse ao jornal o professor da Faculdade de Direito da Universidade de Indiana William Henderson.

Não há emprego porque as bancas, em tempos de crise econômica, estão enxugando seus quadros e não contratando. Mais que isso, estão tentando reduzir custos de uma maneira inusitada, há alguns anos: terceirizando serviços burocráticos da advocacia, como o de pesquisa de legislação, jurisprudência, casos, etc., para estados em que a mão-de-obra é mais barata ou para outros países, pelo mesmo motivo.

Antes, esses serviços eram prestados por bacharéis americanos, enquanto aprendiam a atuar como advogados. "Agora, com a Internet e telecomunicações baratas, ficou fácil para as firmas de advocacia americanas contratar mão-de-obra barata em países como a Índia para fazer o serviço", diz a revista Forbes. A ValeuNortes, uma empresa indiana de pesquisa, informou que a quantidade de firmas no país que oferecem serviços jurídicos a bancas americanas triplicou nos últimos anos. "Já são 140 e devem gerar US$ 1,1 bilhão em receitas no próximo ano".

As faculdades de Direito vêm discutindo, nos últimos dois ou três anos, a necessidade de reduzir os custos para os estudantes. Mas, nenhuma decisão foi tomada até agora. Antes, elas querem descobrir formas de reduzir os próprios custos, para manter suas margens de lucro intactas.

Para onde estão indo os estudantes que não apresentaram pedidos de matrícula às faculdades de Direito? Alguns para o mercado de trabalho, muitos para outras faculdades, com destaque para a área de Economia e ADministração. Nessas escolas, o volume de pedidos de matrícula por estudantes americanos cresceu 0,8% em 2011. E os pedidos de matrícula por alunos estrangeiros cresceram 13%. As escolas de negócios levam essa vantagem sobre as faculdades de Direito: os estrangeiros podem estudar negócios nos EUA e praticarem o que aprenderam em seus países de origem. Obviamente, não têm interesse em fazer curso de Direito nos EUA, para praticar em seus países.

As faculdades que estão se saindo "menos mal", no que se refere ao desinteresse dos estudantes em cursos de Direito, são as poucas escolas que oferecem cursos práticos de advocacia aos alunos, em vez de teoria. Um exemplo é a Faculdade de Direito Northeastern de Boston que, por preparar os estudantes para exercer a profissão assim que caiam no mercado, está sofrendo menos que as outras em razão do desinteresse dos estudantes americanos.

 é correspondente da revista Consultor Jurídico nos Estados Unidos.

Revista Consultor Jurídico, 3 de fevereiro de 2013, 8h02

Comentários de leitores

8 comentários

A culpa é do MEC e da ganância dessas "fábricas de ilusões"

Shen Rochus Mingli (Advogado Assalariado)

Concordo com Sávio e Guilherme. O excesso de "cursos de Direito" no Brasil está desmoralizando a profissão, baixando o nível e entulhando o judiciário com petições desnecessárias. Mas, este fenômeno está acontecendo em outras "profissões"; em Medicina por exemplo, ou Engenharia (onde pessoas que não sabem fazer contas de multiplicar, dividir ou regra de três estão cursando arapucas que prometem diplomas de Engenharia Civil). Minha filha nunca leu um livro na vida, sempre ficava reprovada no ensino fundamental e médio, não sabe aplicar uma injeção sequer e se formou em Enfermagem numa faculdade particular. Em relação ao curso de Direito, conheço uma pessoa que se formou numa dessas fábricas de diplomas (na mesma faculdade de minha filha), conseguiu uma carteirinha da OAB, mas não tem a mínima noção do que está fazendo, todas as ações são temerárias e prejudicam muito os clientes (teve cliente processada por petição desastrada e outras por litigância de má-fé, exclusivamente culpa dessa advogada); ela não faz por maldade - apenas não têm inteligência, talento nem preparação requeridas para exercer a profissão. Tanto o MEC e a OAB estão faltando com o seu dever e são ambos responsáveis por essa insanidade.

cargo público

_Eduardo_ (Outro)

A procura pelo serviço público mesmo por aqueles alunos mais qualificado decorre de um complexo de questões, sobretudo culturais e mercadológicas.
O interessante é que a lei de mercado, tanto elogiada pelos defensores da iniciativa privada, para de valer quando é para a iniciativa particular remunerar melhor justamente estes profissionais.
As pessoas não são burras, é evidente que o emprego público traz diversas benesses, basta ter cérebro para perceber isso. E como o a iniciativa pública vai lidar com isso, reclamando ou buscando atrair de outras formas.
As pessoas não deixam de trabalhar na iniciativa privada somente porque não querem se submeter a pressões. Qualquer profissional BEM CAPACITADO larga seu emprego público se for bem remunerado. Como dizem os americanos, money talks!
É a lei de mercado, o governo tem oferecido melhores benesses, o setor privado, preocupado em concentrar ao máximo o lucro, não. E não me venham com ladainhas de custo brasil, ou coisa que o valha. Grandes coorporações privadas poderiam aumentar a remuneração de seus profissionais sem relevante impacto no lucro, mas o que se quer é simplesmente continuar ao máximo a subjugação, colocando apenas no horizonte a ideia de que se você se esforçar muito, der seu sangue, algum dia chegará lá.

No Brasil, o buraco é mais embaixo

Guilherme G. Pícolo (Advogado Autônomo - Civil)

Aqui, o problema começa na qualidade do ensino fundamental e médio, do qual o estudante sai sem saber sequer tópicos básicos, como as leis de Newton, interpretação textual e o que é o iluminismo, v.g.
*
Sobre a mamata dos serviços públicos narrada pelo colega Pintar, infelizmente uma rápida pesquisa in loco mostra que os mais bem qualificados, aqueles egressos das Universidades "de ponta", são exatamente os primeiros a trilharem esse caminho; no exterior, comparativamente, os mais bem preparados buscam o sucesso no mercado e não a garantia de um cargo burocrático.

Ver todos comentários

Comentários encerrados em 11/02/2013.
A seção de comentários de cada texto é encerrada 7 dias após a data da sua publicação.