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Ideias do Milênio

A principal qualidade de Lincoln era a comunicação

Entrevista concedida pelo historiador Harold Holzer, ao jornalista Lucas Mendes, para o programa Milênio, da Globo News. O Milênio é um programa de entrevistas, que vai ao ar pelo canal de televisão por assinatura Globo News às 23h30 de segunda-feira, com repetições às 3h30, 11h30 e 17h30.

"Uma casa dividida" é um dos mais conhecidos discursos de Abraham Lincoln, feito bem antes de ser candidato a presidente e da Guerra de Secessão. Ele se referia a um país dividido entre estados com escravidão e estados livres, mas era também uma metáfora sobre a própria União. Alguns historiadores acham que houve outros períodos de profundas divisões, mas, para muitos, o atual abismo entre os políticos de Washington é o mais profundo desde a Guerra Civil. Lincoln é o presidente dos presidentes. Democratas e republicanos se declaram lincolnianos, entre eles, Barack Obama, que conhece a fundo os discursos, textos e a história do 16º presidente americano. Desde o bicentenários em 2009, a expectativa dos editores era de uma queda no interesse pelo ex-presidente, mas o filme de Steven Spielberg deu um novo gás a esta fornalha editorial que gerou uma coluna editorial de três andares em Washington. Harold Holzer, que foi consultor do filme de Spielberg, já escreveu ou editou 44 livros sobre Lincoln e trabalha no 45º sobre as relações do presidente com a imprensa. Holzer é também vice-presidente do museu Metropolitan de Nova York. Nesta entrevista ao Milênio, Holzer fala sobre a influência de Lincoln na cultura política norte-americana.

Leia a entrevista, concedida ao repórter Lucas Mendes:

Lucas Mendes — Muitas pessoas acham que os EUA hoje estão tão divididos quanto na época da Guerra Civil Americana. Eu não concordo. Eu acho que o país esteve mais dividido em outros períodos. O senhor vê alguma ligação entre os dois períodos, a atualidade e a época da Guerra Civil?
Harold Holzer — O que assusta é termos, mais uma vez, o Congresso dividido, no que parece opor novamente, o Sul e o Norte, pois o Sul é de maioria republicana, e o Norte tem maioria democrata. E temos antagonismos no Congresso, assim como uma incapacidade de fazer as coisas andarem. Eu digo às pessoas que ter estados azuis e vermelhos... É difícil viver na era do vermelho contra o azul, mas azul contra cinza era muito pior. Morreram pelo menos 750 mil pessoas. Sabe qual é, ironicamente, a vantagem da política moderna? Na época de Lincoln, o Congresso estava num impasse total, havia discussões... As pessoas eram espancadas no plenário do Senado dos EUA. Um deputado a favor da escravidão quase matou a pancadas o senador Charles Summer, do Massachussetts. Mas eles finalmente votaram as leis. Não havia esses atrasos de procedimento de hoje.

Lucas Mendes — Eles nem votam.
Harold Holzer — Talvez pancadas e votações sejam melhores do que essa obstrução parlamentar, porque isso hoje é uma tortura.

Lucas Mendes — Mas o senhor acha que, em algum outro momento, o país esteve tão dividido?
Harold Holzer — Não, eu acho que a época da Guerra Civil, a atualidade, e, talvez, na eleição de 1800, quando o Partido Federalista e o primeiro Partido Democrata começaram a discutir, dando sinais de que haveria um sistema bipartidário no país.

Lucas Mendes — Entre 1880 e 1920, o país também esteve muito dividido.
Harold Holzer — Estava dividido, e essa época marca um período em que os EUA recuaram terrivelmente em sua promessa de garantir direitos iguais para os afro-americanos. Então, embora tenham sido a Idade do Ouro, que tornou vários brancos muito ricos e transformou os EUA em uma superpotência, apesar daquela guerra tola que foi a Guerra Hispano-Americana... Eu vou acabar me encrencando assim. Mas foi ótima para os brancos ricos e não tão boa para os brancos pobres e para a maioria dos negros.

Lucas Mendes — Os americanos adoram comparar o presidente Lincoln com os outros. Quais presidentes tiveram uma ligação forte com Lincoln?
Harold Holzer — Eu tenho trabalhado muito nisso e faço uma palestra pelo país todo chamada “Por que Lincoln é importante para os presidentes”. Se você lembra a história, a começar pelos sucessores imediatos de Lincoln, que eram republicanos, eles acham que são os herdeiros da política de Lincoln. Então vemos um período em que Theodor Roosevelt e Woodrow Wilson, dois opostos, lutam por esse legado. Wilson dizia: “Ele era como nós. Ele acreditava na América unida combatendo os agressores.” Theodore Roosevelt dizia que ele era como os republicanos progressistas. Eles chegaram a brigar pelo apoio do filho de Lincoln em 1912, quando William Howard Taft reivindicou o legado de Lincoln. Mas Franklin Roosevelt se assemelha muito a Lincoln. Da segunda vez que se candidatou, ele se tornou o primeiro democrata a ganhar os votos dos afro-americanos, o que persiste há 75 anos, depois que Roosevelt devolveu isso para os democratas, que foi um momento extraordinário. As primeiras palavras de Kennedy no debate com Nixon, talvez tão famoso para a História americana quanto o debate entre Lincoln e Douglas... A primeira coisa que ele disse, o que eu lembro ter ouvido ainda criança, quando havia apenas começado a ler sobre Lincoln, foi: “Lincoln disse que uma casa dividida não fica de pé. Este país não ficará de pé nem este mundo, tendo metade da população escrava e metade livre.” Esse era Kennedy na época da Guerra Fria. Mas todos fizeram isso. Eu já elaborei programas para o presidente Bush, para o presidente Clinton, e todos eles se identificam intimamente com Lincoln, se inspiram em diferentes aspectos da presidência dele e nas palavras dele.

Lucas Mendes — Barack Obama cita Lincoln com frequência. Você vê semelhanças entre os dois?
Harold Holzer — Eu vejo várias semelhanças, algumas menos perceptíveis, outras bem óbvias. Ambos foram criticados pela falta de experiência...

Lucas Mendes — Que é verdade.
Harold Holzer — É verdade. Ambos enfrentaram uma divisão interna impressionante. Ambos eram escritores de sucesso antes de se tornar presidentes. Que tal essa informação desconhecida? Nós sabemos que Obama escreveu um livro sobre o pai, mas o presidente Lincoln publicou os debates Lincoln-Douglas a tempo de servir como ferramenta de campanha da eleição de 1860. Foi um best-seller, com 60 mil exemplares.

Lucas Mendes — Incrível.
Harold Holzer — Eu queria vender bem assim. Mas, como você sabe, ninguém é Lincoln, e o presidente Obama... O que eu gosto nele... Gosto de muitas coisas nele, mas o que gosto com relação à História é que ele se importa com a História. Ele se tornou um estudioso de Theodore Roosevelt.

Lucas Mendes — Ele reúne uns historiadores, não?
Harold Holzer — É verdade. Ele tem um pequeno círculo de historiadores. Doris Goodwin é uma grande amiga dele, bem como Robert Caro, grande biógrafo de Lyndon Johnson. Se você quiser aprender a persuadir o Congresso, Lyndon Johnson é o cara certo. Mas ele se reúne com alguns desses homens e mulheres.

Lucas Mendes — Então temos esse homem com pouca experiência política, que foi apenas deputado, tendo perdido duas eleições para o Senado. Em uma época como a dele, quando não havia televisão, internet, nada, nem mesmo microfones.
Harold Holzer — Não havia microfones.

Lucas Mendes — E como Lincoln foi divulgado para o povo americano?
Harold Holzer — Hoje nós achamos normal usar a internet, e as campanhas ocorrem tanto lá quanto na televisão, mas Lincoln tinha vários novos meios que começaram a se fortalecer quando ele concorreu à presidência, e uma delas era a fotografia. E embora pessoalmente ele não tivesse atrativos, fosse esquisito...

Lucas Mendes — Feio.
Harold Holzer — Feio. A pele dele era péssima...

Lucas Mendes — Ele é feio nas fotos.
Harold Holzer —
Sim, mas ele tinha uma pele horrível, não cuidava da aparência e era esquisito, muito desajeitado. As roupas nunca lhe caíam bem. As mangas eram curtas demais, as gravatas eram grandes demais... Mas ele ficava ótimo nas fotos, tinha um ar de líder. E a fotografia e as impressões, como gravuras e litografias, venderam a imagem dele país afora em 1860, numa época em que a tradição não permitia fazer campanhas. E a maneira como ele foi vendido pelos gerentes de campanha foi: “Esqueçam a questão da escravidão. Não falemos sobre essa questão controversa. Vamos falar do fato de que os EUA são isso: nascer na obscuridade, estudar, cortar madeira, construir cercas, pilotar barcos no Mississipi, sair da pobreza para o sucesso.” Lincoln era a história americana, a realização do sonho americano, e assim divulgaram sua imagem: “Abe, o Honesto”. A honestidade dele não era um mito.

Lucas Mendes — Foi como ele foi vendido.
Harold Holzer — Honest Abe, o lenhador.

Lucas Mendes — O general McClellan o chamava de “gorila”. Isso é verdade?
Harold Holzer — É. O gorila original. Não era o tipo dele. Era alto demais, mandão demais, interferia demais e, ao contrário de McClellan, achava que o Exército devia lutar, em vez de construir trincheiras e poços.

Lucas Mendes — E eu li um artigo recente de um historiador, não sei se no The New Yotk Times ou no Wall Street Journal, que dizia que foi um grande erro não fazer planos para os escravos depois de serem libertados. De repente, havia milhões de escravos sem ter o que fazer, sem lugar aonde ir, sem emprego.
Harold Holzer — Eu também li isso.

Lucas Mendes — É verdade?
Harold Holzer — É preciso dizer que existe uma outra historiografia com credibilidade que é anti-Lincoln e que diz que talvez Linclon tenha sido um tirano, um Lincoln racista que não se importava com os negros. Essa teoria ganhou espaço durante os movimentos pelos direitos civis, quando historiadores afro-americanos começaram a dizer que deram crédito demais a Lincoln por “libertar os escravos”, menos do que aos escravos que realmente se libertaram quando receberam a notícia da lei que os emancipava. E isso é muito discutível. Ele fez o que fez. O que sentiu que podia fazer era emitir uma ordem que permitisse que o Exército americano libertasse escravos que fossem mantidos cativos por rebeldes contrários à União. E ele não fez nenhum plano para depois disso.

Lucas Mendes — E muitos morreram. A maioria deles.
Harold Holzer — Houve uma grande epidemia.

Lucas Mendes — Ficaram doentes.
Harold Holzer — O que ele pretendia era alistar os afro-americanos como soldados. Isso era considerado revolucionário: dar armas a eles. Muitas pessoas achavam que negros não podiam manejar armas, pois atirariam no brancos. Em vez disso, eles serviram heroicamente no exército da União e tiveram baixas maiores do que os soldados brancos. E, quando eram aprisionados, muitas vezes... Bem, eles muitas vezes eram mortos mesmo depois de largar as armas. Mas, quando aprisionados, voltavam a ser escravos, mesmo sendo livres.

Lucas Mendes — Não lembro quem chamou Lincoln de “presidente dos brancos”.
Harold Holzer — Foi Frederick Douglass. Mas isso foi 11 anos antes de dizer que ele foi o presidente dos negros. Portanto, Frederick Douglass é um revisionista de suas próprias teorias. E eles tiveram uma relação interessante. Foi o primeiro líder afro-americano que Lincoln conheceu. Ele esteve três vezes na Casa Branca.

Lucas Mendes — Eu soube que você está escrevendo um livro sobre as relações dele com a imprensa.
Harold Holzer — É verdade. É o que estou escrevendo.

Lucas Mendes — Ele já vai ser lançado?
Harold Holzer — Estou na metade do livro. Ainda falta metade. Porque eu decidi escrever sobre a ascensão de Lincoln vista através da imprensa. Primeiro pela imprensa de Illinois, depois, pela imprensa de Chicago e, finalmente, de Nova York. Fala dos três maiores editores de Nova York das décadas de 1840, 1850 e 1860: Horace Greley, do New York Tribune; James Gordon Bennett, do New York Herald, que era uma espécie de Rupert Murdoch da época, que fazia um jornalismo sensacionalista; e Henry Raymond, do New York Times. E o New York Times era como hoje: muito responsável. Talvez não tão de esquerda quanto é hoje. E tudo era filtrado através dos artigos deles, mas é um jornalismo totalmente diferente, é totalmente politizado. Além de serem leais aos partidos políticos, os jornais faziam parte da máquina política. Eles eram armas de propaganda, eram assessores de imprensa e diários ao mesmo. Era uma cultura totalmente diferente. E eles foram recompensados por isso, com empregos, anunciantes, influência, chegando até a se sentar à mesa do poder. Hoje a imprensa é independente, mas, na época, a imprensa era criada pelas campanhas. Era uma relação de imagens e palavras totalmente diferente.

Lucas Mendes — A maioria das pessoas acha que ele foi o melhor presidente americano, porque salvou a União e libertou os escravos. Ele poderia ter feito uma coisa sem ter feito a outra.
Harold Holzer — Não. Ele provavelmente teria dito, no começo da rebelião, que gostaria de restaurar a União sem mexer na escravidão. Porque ele tinha todos aqueles estados do meio, que tinham escravos, mas não queriam se separar: Missouri, Kentucky, Maryland e Delaware. E ele também não queria afastá-los da União, porque, se fizesse isso, a maior parte do país seria parte da nova Confederação, e ele teria desistido da ideia de unir o país de novo. Mas ele então percebeu que não poderia ganhar a guerra sem acabar com a escravidão, e o futuro deveria ser uma União restaurada com liberdade.

Lucas Mendes — Que qualidade você considera essencial em um presidente e qual era a qualidade principal de Lincoln?
Harold Holzer — A Comunicação. Dominar a arte da comunicação. Hoje chamamos isso de bully pulpit. Obama, por exemplo, levou seu recado sobre o abismo fiscal a fábricas, televisões, comícios... O que Lincoln fez foi dominar a arte da comunicação através da imprensa, preparando cartas e artigos a serem publicado nos jornais. Ele sabia... Não era só o fato de não haver essa amplificação eletrônica para propagar sua mensagem, mas a voz humana era limitada, mesmo que alcançasse 20 mil pessoas. Ela ficava limitada a essas 20 mil pessoas. Se você publicasse algo, seria lido por 10 vezes mais pessoas no dia seguinte. E Lincoln sempre falou não só para quem os ouvia, mas também para quem os lia.

Lucas Mendes — Como as pessoas podiam ouvi-lo? Falando para 20 mil pessoas sem um microfone, às vezes em espaços abertos.
Harold Holzer — Suponhamos que metade delas nunca o tenha ouvido. Disseram que estavam lá, mas não estavam. Mas essas... Fala-se muito sobre a voz de Lincoln.

Lucas Mendes — Que era alta.
Harold Holzer — Dizem que era bem potente. Mas eu acho que era alta como a de Pavarotti. Se você não tivesse uma voz capaz de alcançar milhares de pessoas, você não seria político, e sim ferreiro ou escrivão. Ele precisava ser ouvido, ou então não teria chegado aonde chegou. Ele só tinha um timbre diferente.

Lucas Mendes — Sobre o filme de Spielber, você foi consultor dele. Até que ponto o filme é realista, próximo do homem que ele era?
Harold Holzer — Eu acho que ele se aproxima muito da imagem que se tem da personalidade de Lincoln. As mudanças de humor, a paixão, a argumentação, a lógica... Temos comprovações de que Lincoln mudava de humor assim em poucos minutos, às vezes. Há coisas no filme que eu critiquei — às vezes, me deram ouvidos, outras vezes, não — por não serem exatamente verdadeiras.

Lucas Mendes — Por exemplo? A relação com a esposa?
Harold Holzer — Não, isso está bem correto. Há um trecho em que alguém diz: “Não podemos comprar muito mais deputados, senhor presidente, pois seu rosto está nas moedas e eles não querem ver seu rosto.” É uma boa fala, mas o rosto dele não estava em moeda alguma em 1865 ou durante a vida dele. Enfim, coisa sem importância. Me pediram para apontar o que não estivesse correto, e eu fiz meus comentários. Mas tive a oportunidade de apresentar Steven Spielberg em Gettysburg. Ele falou que chamamos de Dedication Day, o aniversário do discurso de Lincoln em Gettysburg, em 19 de novembro. Ele fez um discurso maravilhoso sobre o que esperava alcançar com o filme e disse algo que me tocou muito. Ele disse: “A arte vai aonde a História e a memória não vão. Nós não podemos faze o que vocês fazem, mas vocês podem fazer o que nós fazemos.” A menos que eles sejam muito bons. Acho que ele e Tony Kushner, o grande roteirista que escreveu o filme, não pretendiam substituir a História, eles queriam passar a imagem deles. Mas é uma imagem bem embasada e também inspiradora.

Lucas Mendes — Você escreveu um livro em que disse que o discurso no Instituto Cooper Union tornou Lincoln presidente.
Harold Holzer — Isso.

Lucas Mendes — Por que não foi nem um discurso de campanha, foi bem antes da campanha.
Harold Holzer — Foi três meses antes da convenção do partido. Mas havia as primárias...

Lucas Mendes — Mas 6 meses antes da eleição.
Harold Holzer — Ou mais. Mais. De fevereiro a novembro. Mas o discurso o tornou presidente porque ele não era um candidato forte à indicação.

Lucas Mendes — Com um só discurso, ele ganhou força?
Harold Holzer — Veja onde ele fez o discurso: em Nova York. Eu chamo de “teoria Kander e Ebb da História Americana”. Foram eles que compuseram a música “New York, New York”. E é verdade. Se você faz sucesso em NY, fará sucesso em qualquer lugar. E foi o que Lincoln fez. Com o New York Times, o New York Tribune, o New York Herald e o New York Post falando do discurso no dia seguinte e o enchendo de elogios, ele não precisava de mais nada. Ele nunca ganhou em Nova York. Ele teve cerca de 30% dos votos nas duas vezes em que concorreu. Mas não importava, pois os jornais eram nacionais. E eles criaram esse sentimento de que ele devia ser levado a sério.

Lucas Mendes — Você escreveu uma antologia enorme, de mil páginas, para o bicentenário de Lincoln. Foram 95 escritores...
Harold Holzer — E seus textos sobre Lincoln.

Lucas Mendes — Se você tivesse que dar três livros ao presidente Obama, quais seriam eles?
Harold Holzer — Sobre Lincoln?

Lucas Mendes — Exato.
Harold Holzer — Eu sei que ele tem Team of Rivals, que ele usou para se preparar para ser presidente. Eu pediria que ele lesse o livro de Carl Sandburg de novo. Acho que não prestigiamos mais Sandburg, mas ele é um poeta, e, sempre que leio as citações dele em livros de outras pessoas... Carl Sandburg escolheu não fazer citações ou notas de rodapé. Sempre que leio as citações dele, vejo que ele tem razão. Ele era um pesquisador maravilhoso, mas nunca quis receber os créditos disso. E a maneira de escrever dele é mais do que bonita. Então... Na verdade, são 6 livros, mas com um só título. Eu sei que ele leu meu livro Lincoln President-Elect antes de se tornar presidente, e espero que tenha ajudado. Mas o melhor livro continua sendo — são vários livros de novo — The Collected Works of Abraham Lincoln. A maneira como ele escreve é sublime. E o presidente é um ótimo escritor. Lincoln estava acima do imaginável. Harry Beecher Stowe disse que os escritos dele mereciam ser gravados em letras douradas. Edmund Wilson disse que de todos os presidentes americanos, ele é o único que poderia ter sido um grande escritor, mesmo sem ser político. E a maneira como ele usa a escrita para convencer as pessoas, generais, almirantes e grande parte do povo americano, é impressionante.

Lucas Mendes — No seu livro, você diz que Karl Marx fala de Lincoln. O que ele disse?
Harold Holzer — Karl Marx escreveu algo incrível sobre Lincoln. Ele leu a Proclamação de Emancipação dos escravos, que tem uma linguagem muito jurídica. Lincoln não quis escrever palavras inspiradoras. Na verdade, ele só queria algo que sobrevivesse aos processos, que sobrevivesse aos pleitos na Justiça. Marx estava na Alemanha e escreveu: “Esse Lincoln pega a questão mais corriqueira e escreve um tratado majestoso sobre o assunto. Mas quando se trata da maior questão do mundo, a liberdade, ele escreve como um advogado defendendo seu caso em contraposição a outro advogado.” Ele não entendeu, mas ficou maravilhado.

Revista Consultor Jurídico, 1 de fevereiro de 2013, 14h53

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