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Ideias Milênio

Desigualdade aumenta após explosão de crescimento

Entrevista concedida pelo economista e professor James Galbraith, ao jornalista Silio Boccanera, para o programa Milênio, da Globo News. O Milênio é um programa de entrevistas, que vai ao ar pelo canal de televisão por assinatura Globo News às 23h30 de segunda-feira, com repetições às 3h30, 11h30 e 17h30.

Desigualdade tornou-se um tópico de preocupação, pesquisa e estudos de muitos economistas, com atração maior entre os profissionais de inclinação ideológica mais de centro para a esquerda. São os que tendem a se abalar com as diferenças crescentes entre ricos e pobres. Fenômenos que os de centro-direita se inclinam a aceitar como resultado natural da competitividade do mercado. Alguns nessa categoria insinuam até que os mais pobres merecem sua condição porque não se esforçaram para avançar na sociedade. Essa é uma posição popular entre a ala mais conservadora do Partido Republicano nos Estados Unidos, representada por Paul Ryan, companheira de chapa do candidato presidencial Mitt Romney, ele mesmo alvo da acusação de pensar da mesma forma. A preocupação com desigualdade social atrai uma quantidade crescente de estudos não só pelo que o tema representa do ponto de vista moral, como ofensa a um senso de justiça, mas também pelo impacto que provoca no bem estar da sociedade como um todo, seja desagregação, problemas de saúde e educação, confronto entre classes sociais, criminalidade. Esse é o tema de estudo do economista americano James Galbraith. Sim, o sobrenome é inconfundível e refere-se ao falecido pai dele, John Kenneth, igualmente formado na Universidade de Harvard e também seguidor de uma visão da economia onde o Estado tenha um papel significativo e mantenha uma regulamentação eficiente do mercado na proteção dos menos favorecidos e em busca de menor desigualdade na sociedade. Galbraith Filho estudou ainda em Yale e Cambridge. Hoje dá aulas na Universidade do Texas.

Silio Boccanera — Seu livro diz que a desigualdade pode levar à instabilidade. Como essas duas questões estão relacionadas? Há uma relação direta ou forte?
James Galbraith —
Eu achei interessante tratar a questão nesses termos, dizer que medir a desigualdade é semelhante a medir a pressão arterial nos seres humanos. E uma subida vertiginosa na desigualdade é sinal de que teremos problemas, assim como uma subida vertiginosa na pressão arterial é sinal de que você terá problemas. Na verdade, pode haver um momento de prosperidade aparente, como aconteceu nos EUA no final dos anos 1990, quando houve um aumento rápido na desigualdade como resultado do boom na indústria de informática e tecnologia. Mas foi um fenômeno temporário, que culminou em uma quebra.

Silio Boccanera — Todos já ouvimos o velho clichê: os ricos ficam mais ricos, os pobres ficam mais pobres. Isso não é uma tendência em toda parte? Não é assim independente de onde se esteja?
James Galbraith —
Nem sempre. Na verdade, uma das coisas que mostro em um capítulo do meu livro é que houve um declínio substancial na desigualdade no Brasil e em outros países da América do Sul, especialmente na Argentina, desde a crise do início da última década. As políticas de governo que o Brasil têm adotado nos últimos 12, 16 anos implementaram uma expansão de programas direcionados aos pobres e consolidaram a classe média. Além disso, a parcela da renda do setor financeiro tem diminuído, bem como a desigualdade.

Silio Boccanera — O que você concluiu — se puder separar as duas coisas — que é mais fácil ajudar os pobres ou segurar os ricos? Ou é preciso atacar nas duas frentes?
James Galbraith —
É preciso, basicamente, fazer as duas coisas. Vamos analisar o exemplo dos Estados Unidos no início dos anos 1980, quando se aumentaram os impostos sobre os ricos, mas também se diminuiu a pobreza. As duas coisas eram parte do mesmo processo, porque, se você reduz a contribuição de pessoas de renda alta, você cria condições políticas em que é muito difícil construir e manter uma classe média.

Silio Boccanera — O que nos leva a perguntar qual é o papel do Estado nisso. Até que ponto o Estado interfere para tentar ser mais igualitário? Ele taxa mais, controla mais?
James Galbraith —
A responsabilidade do setor público é atuar como uma força estabilizadora. Ele não existe para eliminar a desigualdade, é claro, mas para moderá-la. E essa é uma função importante, que, de tempos em tempos, pode ser atacada e efetivamente subvertida, quando uma sociedade estiver tendo problemas.

Silio Boccanera — Há momentos específicos no ciclo dos negócios, no caminho de uma economia, em que as desigualdades tendem a aumentar?
James Galbraith —
Há. Elas tendem a aumentar nas fases finais de uma explosão de crescimento. Mais uma vez, isso foi visto claramente nos EUA, após crescimento liderados pelo setor financeiro, pelo aumento no crédito. Nessas situações, há um crescimento enorme da renda de duas classes de pessoas no alto da pirâmide: as que dirigem o setor financeiro — os banqueiros tendem a se dar muito bem — e as indústrias ou setores que eles apoiam naquele momento. No final da década de 1990, foi a indústria da informática. Em meados da década de 2000, foi o setor militar, claro, que também contava com um grande apoio do governo. No final da década de 2000, antes da crise, o setor imobiliário.

Silio Boccanera — Antes os CEOs das grandes empresas ganhavam 30 vezes mais do que seus operários. Hoje em dia, eles ganham 300 vezes mais. O que mudou tão de repente?
James Galbraith —
Esse é um fenômeno muito peculiar. É preciso ter em mente que o número de CEOs é muito pequeno. Temos a lista das 500 maiores empresas da Fortune, então são apenas 500 CEOs. Mas o que buscamos analisar é o efeito da remuneração dos CEOs, que está profundamente enraizada no mercado de ações, sendo composta por opções de ações, e o valor dessas opções depende fortemente do preço das ações da empresa. Então, nos períodos de alta no mercado de ações, a remuneração dos CEOs aumenta muito. Ela também cai nos momentos de quebra na bolsa. Ela está intimamente relacionada com o valor das ações de um número bem pequeno de grandes corporações.

Silio Boccanera — A desigualdade significa necessariamente mais pobreza? É possível os ricos serem mais ricos, e os pobres, menos pobres ao mesmo tempo, mas em taxas diferentes?
James Galbraith —
Não ao mesmo tempo. O que nós observamos com muita frequência é que a desigualdade aumenta durante a explosão de crescimento. E isso porque a renda é composta pela soma da remuneração do trabalho e do capital, e, para os que estão lá no alto, o valor dos ativos de capital aumenta exponencialmente. É por isso que tomo o cuidado de não dizer que o aumento da desigualdade constitui, necessariamente, um sinal de perigo. Ele não quer dizer, necessariamente, que a pobreza está crescendo naquele momento específico. É um sinal de que haverá problemas mais à frente, é um sinal de que há um processo em marcha que não poderá se sustentar.

Silio Boccanera — A desigualdade é uma consequência inevitável do sistema econômico, do sistema capitalista?
James Galbraith —
Certamente.

Silio Boccanera — Com base na premissa de que ele incentiva a desigualdade.
James Galbraith —
É claro que é uma consequência. E alguma taxa de desigualdade é absolutamente essencial para criar motivação e para distinguir níveis diferentes de recompensa. O problema todo é moderá-la, mantê-la controlada. É como qualquer tipo de motor, de sistema: é preciso ter certo grau de diferença de temperatura, mas, se ela for grande demais, os materiais não terão capacidade de aguentá-la, e o motoro irá fundir. E é isso que temos observado nos EUA e no mundo no setor financeiro nos últimos 4 anos.

Silio Boccanera — Há essa expressão que descreve essa situação. É uma expressão cunhada nos EUA, mas que ganhou impacto mundial, a ideia da “política da inveja”, que os representantes da direita utilizam quando os ricos são criticados, ao dizer que essas críticas não tem fundamento, que advém do fato de eles serem ricos.
James Galbraith —
Em minha opinião, os EUA continuam sendo, basicamente um país de classe média no que diz respeito às atitudes. As instituições criadas no New Deal e na Great Society continuam a funcionar. Elas estão sob pressão, mas continuam a funcionar. Por isso eu acho que ainda estamos em um estágio em que o futuro ainda deve ser determinado.

Silio Boccanera — O debate ideológico nos EUA parece estar mais polarizado, mais radicalizado. A direita, a extrema-direita do Partido Republicano chega a chamar o atual governo de “socialista”, o que intriga o resto do mundo, que vê o socialismo como algo totalmente diferente. Qual é a força e a influência desses grupos? Eles estão impedindo os avanços?
James Galbraith —
Bem, a ala direitista do Partido Republicano agora controla a Câmara dos Deputados e, assim, tem um poder enorme nos Estados Unidos. Ela ainda não controla o Senado, muito embora, após a próxima eleição, é bem possível que isso aconteça. E, no momento, ela ainda não controla a presidência. Ela já se tornou a força dominante dentro do Partido Republicano, com uma influência substancial no ramo legislativo.

Silio Boccanera — Certamente, você deve sentir isso, como sentem os economistas que pensam como você... Assim como economistas da geração anterior, como seu pai, são chamados de “liberais”, não é surpresa que alguns grupos chamem vocês de “socialistas”. Isso acontece com você?
James Galbraith —
Não.

Silio Boccanera — Eles não vão tão longe.
James Galbraith —
Eu não fui atacado... Não fui envolvido em nenhuma discussão política. Nem mesmo quando me convocaram para depor no Congresso. Não aconteceu isso.

Silio Boccanera — Eles não acham que você é muito de esquerda? Não acusam você disso?
James Galbraith —
Eu não fui acusado da nada. É interessante. Sei que acontece, mas...

Silio Boccanera — Bem, do jeito que vão as coisas, algumas pessoas estão chamando as eras Reagan e Nixon de “republicanismo moderado”, o que era difícil pensar na época.
James Galbraith —
A filha de Richard Nixon, Julie, esteve em Austin, fazendo uma palestra na minha universidade há algumas semanas, e ela descreveu o pai como “o último presidente liberal”.

Silio Boccanera — É exatamente do que estou falando.
James Galbraith —
E Reagan também era uma figura muito mais complexa do que muitos de nós, contrários a ele, percebíamos na época. Nós não compreendemos totalmente, até o final dos anos 1980, como era sutil a política dele para com a URSS e Gorbatchev, e acho que houve avanços que ninguém pode negar.

Silio Boccanera — Há quem diga que algumas políticas do Reagan não o identificam com o seu partido, que seriam totalmente rejeitadas pelos republicanos hoje em dia.
James Galbraith —
Eu tenho um colega que trabalhou comigo no Comitê de Economia e que foi dirigente do grupo do Partido Republicano na época do Reagan, e ele afirmava exatamente isso, que os republicanos hoje rejeitariam Reagan.

Silio Boccanera — Ele se afastou da direita.
James Galbraith —
É interessante, mas Reagan era um produto do New Deal. Então, até certo ponto, ele não estava preparado para concordar com a destruição das principais instituições do New Deal, especialmente com a seguridade social. Eu acho que isso o distingue do Partido Republicano atual.

Silio Boccanera — Como você sabe, o Brasil tem uma das maiores taxas de desigualdade de rendas do mundo. É um assunto que você tem estudado recentemente. Talvez você possa nos falar das consequências da desigualdade, além do fato óbvio de que algumas pessoas ganham mais dinheiro que outras.
James Galbraith —
Eu acho que, de maneira geral, meu trabalho é um estudo comparativo da economia mundial. Nós descobrimos que, mantendo um alcance razoável, níveis mais baixos de desigualdade produzem uma economia mais eficiente, mais constante e com maior taxa de emprego. Normalmente, ela é um indicador bastante bom do desempenho, e eu acho que, em termos sociológicos mais amplos, é sempre possível dizer que ela é um indicador da força da classe média de um país. E isso tem sido associado ao bom funcionamento da sociedade e também a processos democráticos.

Silio Boccanera — O crescimento generalizado do setor financeiro nos EUA e em outros países preocupa você?
James Galbraith —
Acho que deveria preocupar qualquer pessoa, tendo em vista o que acontece. O setor financeiro se retirou do papel de força motriz da expansão econômica global, e foi por isso que não houve uma recuperação da crise que começou em 2008. Ainda estamos em uma fase da história econômica em que o setor bancário não atua como força motriz por trás da expansão econômica. Nem nos EUA, nem na Europa, de forma alguma. Na Europa, na verdade, há uma verdadeira guerra entre o setor financeiro e o setor público, o Estado, que tem feito a economia europeia contrair muito rápido.

Silio Boccanera — Vimos os abusos cometidos pelo setor financeiro em toda parte após a falência do Lehman Brothers. Mas não vemos as pessoas responsáveis sendo punidas. Por quê?
James Galbraith —
A maioria não foi punida. E boa parte dos responsáveis foram afastados das organizações, mas não houve, nos EUA, investigações criminais que lidassem efetivamente com as grandes fraudes na constituição e no repasse das hipotecas. E as pessoas vítimas dessas fraudes, que compraram os papéis podres das instituições financeiras, tiveram que confiar nas ações cíveis, na justiça cível, para conseguirem o mínimo de compensação a que têm direito. Esse é um grande problema da Justiça americana. E, infelizmente não será resolvido, por causa da prescrição. O prazo para se processar e julgar esses crimes está passando. Mas eu acho que o problema é mais profundo ainda. O problema é que o setor financeiro perdeu a confiança. Ele não é mais considerado confiável por parte das pessoas que têm bens a investir. Então elas investem esses bens em títulos do Tesouro dos EUA, da Alemanha, do Reino Unido, em títulos do Tesouro das maiores economias. E, enquanto elas fizerem isso, não haverá crescimento econômico que seja durável e oriundo do setor financeiro privado. Então temos que perguntar: para que ele serve? Temos um setor bancário que, em seu auge, pagava 10% dos salários e ganhava 40% dos lucros das empresas. E isso é um custo enorme para o resto do setor privado. Esses lucros não irão para pequenas e médias empresas, que dariam emprego e forneceriam bons serviços à população. Elas ficam com os banqueiros. E a pergunta é: isso é sustentável? Eu não creio.

Silio Boccanera — E quanto às tentativas de resolver essa distorção desde o início da crise? Elas não foram muito longe, não é?
James Galbraith —
Bem, não... A política do governo Obama, na verdade, foi fazer caixa para os bancos, deixá-los funcionarem como instituição, na esperança de que liderassem a recuperação econômica. Ao menos essa era a esperança, mas isso não aconteceu. Talvez possamos dizer até que foi uma ilusão achar que instituições que ficaram tão comprometidas voltariam a emprestar dinheiro. Para quem? As famílias, a grande classe média americana, teve seus bens econômicos destruído. Milhões de famílias, cujo principal bem era sua casa, tinham esse bem hipotecado, e o valor da casa passou a ser menor do que deviam por ela, e elas não tinham mais capacidade de pegar empréstimos, de refinanciar sua dívida. Elas não podem se tornar fontes de consumo para sustentar uma recuperação econômica. Então você pergunta se isso virá das empresas privadas. Não, não serão eles. Então o que vai ser? Nós temos atividade especulativa de curto prazo no setor energético, e isso é... Isso é praticamente o que tem acontecido nos últimos anos.

Silio Boccanera — Voltando à questão da desigualdade social, uma das características da sociedade americana era a mobilidade social, as pessoas ascendiam socialmente e podiam progredir e enriquecer. Isso não acontece mais, acontece?
James Galbraith —
Eu acho que, com um crescimento rápido nas desigualdades, na verdade, grandíssimas compensações vão para um pequeno número de pessoas. Um número muito pequeno de pessoas. Pessoas que estão nos cargos dirigentes do setor financeiro, no setor de tecnologia da informação. É uma fração minúscula das pessoas empregadas. Essas pessoas podem vir de qualquer lugar, não são necessariamente os filhos dos ricos. Durante o boom do setor de tecnologia da informação, pessoa que tinham uma formação técnica se deram muito bem. Era preciso ter formação técnica para ter sucesso nessa área. Durante o boom do setor financeiro, não era uma má ideia ser matemático. Pessoas que formularam modelos de gerenciamento de risco acabaram sendo contratadas pelos bancos. Mas é um número muito pequeno de pessoas. Então, do ponto de vista da população em geral, é um mercado totalmente inacessível. E, nesse sentido, sim, a mobilidade social diminui. Porque é um número muito pequeno de vagas de emprego, e elas são muito concorridas. As pessoas dizem que é preciso desenvolver novas habilidades para ter acesso a esses empregos, mas a verdade é que o número de vagas de emprego nunca chegará nem perto do número de pessoas capazes de ocupá-las, de pessoas com a formação apropriadas. E o resultado disso é visto de maneira muito concreta. Eu dou aula na Universidade do Texas, e nós fizemos grandes investimentos, como muitas universidades, no programa de Ciência da Computação no final dos anos 1990 e nos anos 2000, mesmo depois do boom da internet. Nós treinamos as pessoas para entrar nessa indústria, mas isso não significa que elas terão emprego.

Revista Consultor Jurídico, 26 de outubro de 2012, 8h00

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