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Ideias do Milênio

Sucesso requer trabalho, mas não acontece sem o acaso

Entrevista concedida pelo físico e escritor Leonard Mlodinow, ao jornalista Jorge Pontual, para o programa Milênio, da Globo News. O Milênio é um programa de entrevistas, que vai ao ar pelo canal de televisão por assinatura Globo News às 23h30 de segunda-feira, com repetições às 3h30, 11h30 e 17h30.

Você já teve a sensação de estar sendo enganado pela sua própria mente? De ter certeza de lembrar de uma situação e depois descobrir que ela não aconteceu? A horrível descoberta de que você não tem controle sobre as suas escolhas mais pessoais, que muitas vezes vão contra o que você mais queria? Então bem-vindo à espécie humana. Quase tudo que consideramos certezas sobre nós mesmos e nossa sociedade é falso. O autoengano, que não é necessariamente mentir para nós mesmos, mas simplesmente ter ideias que não combinam muito com a realidade, o autoengano é inevitável. O físico e escritor Leonard Mlodinow lançou recentemente o livro Subliminar: Como o inconsciente governa nosso comportamento, onde ele reúne as principais descobertas de um novo campo da psicologia e da neurociência que estuda o inconsciente. Mlodinow tem uma carreira curiosa. Da Física ele passou para Hollywood, onde escreveu episódios das séries MacGyver e Star Trek, e ficou famoso com o livro O Andar do Bêbado, sobre a influência do acaso nas nossas vidas. De passagem por Nova York, Mlodinow encontrou o Milênio no seu bar preferido do bairro do Brooklin, onde morava quando aconteceram os ataques de 11 de Setembro, que o levaram a fugir para a Califórnia.

Jorge Pontual — Estamos aqui, no bar Five Spot. Este lugar lhe traz lembranças da época em que você morava no Brooklyn?
Leonard Mlodinow —
Traz. Eu morei no Brooklyn durante alguns anos, aqui perto, e eu costumava vir aqui para escrever e ler, além de beber cerveja.

Jorge Pontual — Foi onde teve inspiração para seus primeiros livros?
Leonard Mlodinow —
Foi.

Jorge Pontual — Você tem uma carreira interessante, porque começou como físico, e depois... O que aconteceu? Você se tornou roteirista.
Leonard Mlodinow —
Eu já fiz várias coisas. Na verdade, eu sempre gostei de escrever, desde os 8 ou 10 anos. Eu sempre achei que um dia tentaria escrever, e, em dado momento, eu decidi tornar a física um hobby e tentar escrever como profissão. Mas acabei escrevendo filmes, em vez de livros. Eu decidi partir para isso, pois adoro filmes, e acabei tendo bastante sucesso nessa área por 7 ou 8 anos, em seriado como Star Trek e MacGyver.

Jorge Pontual — É, eu disse a uns amigos que iria entrevistar Leonard Mlodinow. Eu disse que você era um físico famoso, que escreveu O Andar do Bêbado, Subliminar... E as pessoas disseram: “Ah, legal.” Eu disse: “Ele escrevia MacGyver.” “Nossa, ele escrevia MacGyver! Amamos MacGyver!” Ele é o personagem preferido de muitas pessoas.
Leonard Mlodinow —
Eu sabia que as pessoas conheciam Star Trek no mundo todo. Eu escrevia Star Trek: The Next Generation. Mas eu fiquei surpreso, quando viajei para lançar meus livros, com a reação das pessoas ao MacGyver. Eu não sabia que ele fazia tanto sucesso.

Jorge Pontual — Há alguma cena especial de MacGyver de que você se lembre? Algum truque?
Leonard Mlodinow —
Tem um muito bacana, com um detector de movimentos. Sabe aquele aparato no teto que, quando você se mexe, manda um sinal e abre uma porta. Mas, naquele caso, ele acionava uma bomba. Ele precisava entrar numa sala com esse detector de movimentos. Ele então entrou no armário do zelador... Quando criança, eu gostava muito de química. Então me lembrei desse truque. Ele pegou amônia e algo cuja base era ácido clorídrico, que são produtos de limpeza. Ele então abre... Ambos são muito voláteis. Ele abre as duas garrafas e, quando evaporam, as duas substâncias formam um pó branco, e esse pó branco bloqueou o sinal do detector de movimento, que não conseguiu captá-lo, e ele pôde entrar. Foi um truque bacana. Fazíamos isso no laboratório para irritar nosso professor.

Jorge Pontual — Você era meio MacGyver?
Leonard Mlodinow —
Era. Por isso eu gostava tanto do seriado! Eu gostava muito de química quando criança. Eu fazia bombas, foguetes, chamas...

Jorge Pontual — Seus pais deviam adorar.
Leonard Mlodinow —
É verdade. Eles eram muito compreensivos, mas eu botava fogo na casa. Já queimei meus dois braços até aqui e fiz muita coisa, sabe?

Jorge Pontual — Seu novo livro Subliminar é sobre o inconsciente, sobre nosso “eu inconsciente”. Conte-nos como na sua vida você viu que suas decisões, suas escolhas, não eram todas conscientes.
Leonard Mlodinow —
É. Bem, o objetivo do livro... Ele é uma espécie de complemento a O Andar do Bêbado, que diz que, se você não entende o aleatório, interpreta errado vários acontecimentos que ocorrem ao seu redor. Assim, o sucesso... O sucesso requer trabalho, requer habilidade, claro, mas também tem o elemento “acaso”. Quanto de acaso há nele? Se você compara duas pessoas igualmente bem-sucedidas, ou uma pessoa mais bem-sucedida que outra, a primeira não precisa ser mais talentosa, pode ter tido mais sorte. Então, é muito importante entender o papel do aleatório na vida, para não julgar as pessoas apenas pelos resultados, mas fazer uma análise mais a fundo e julgá-las pelo que são. Mas o que me interessou nesse assunto, ainda que pareça bem diferente de O Andar do Bêbado, é que a ideia é a mesma, só que, em vez de olhar o mundo exterior, eu olho para o mundo interior, para a vida interior de cada um. Assim, o mundo social que você vê não é o que você pensa que é se você não entende o inconsciente. Assim como o mundo exterior é diferente se não entende o aleatório. Quando você entende o aleatório, pode ter um insight. O que eu digo é que, quando vê a cena... Eu estou olhando para você agora, e você parece muito nítido e muito real. Você me parece ter três dimensões, por exemplo. Você tem profundidade, não é uma imagem plana. Mas os dados que vêm até minha retina não são esses dados. Em primeiro lugar, eles têm duas dimensões, então são planos. Além disso, são algo muito confuso. Se eu traduzir os dados que minha retina vê em uma imagem, será uma imagem muito confusa. Se você visse essa imagem na sua TV a cabo, ligaria para a empresa e diria que a TV está com problemas. O que acontece é que seu inconsciente pega esses dados limitados e os processa. Ele usa então vários truques, como o contexto, suas crenças, suas expectativas, seus desejos e todo tipo de coisa, e, instantaneamente e automaticamente, sem qualquer esforço seu, sem você sequer perceber, ele lhe apresenta uma imagem que você acha que é real. Tenho aqui uma imagem sua em 3D, e eu acho que ela é real. Não é o que está na retina, mas no cérebro. E a ideia de Subliminar é mostrar que nossa imagem no mundo social, das outras pessoas, das histórias que nos contamos sobre outras pessoas, seu caráter, sua personalidade, ou mesmos sobre empresas, como o tipo e o valor da empresa, ou coisas que ouvimos... Tudo no mundo é uma construção do nosso cérebro baseada em dados limitados e confusos como os da retina, mas que parece real. E nós fazemos muitas suposições injustificáveis sobre as coisas. Então, se não entendermos isso, interpretamos errado as imagens da nossa realidade social.

Jorge Pontual — Isso não tem nada a ver com o inconsciente freudiano, tem?
Leonard Mlodinow —
Não. Isso é novo. O novo inconsciente está escondido de você porque acontece em uma parte do cérebro que é inacessível. O inconsciente freudiano está escondido de você por razões emocionais ou motivacionais. Você consegue acessá-lo com técnicas de introspecção, pensando na sua vida, falando com um terapeuta... Mas não há muita comprovação do fenômeno que Freud descobriu além de o cérebro ser uma fábrica de comportamento. Mas o que a psicologia e a neurociência descobriram nos últimos 20 anos é um inconsciente muito diferente.

Jorge Pontual — Mas não é possível acessar esse inconsciente?
Leonard Mlodinow —
Vou lhe dar um exemplo ligado ao comportamento dos consumidores. Você entra numa loja e vê um vinho na prateleira. No estudo feito, havia vinho francês e vinho alemão. Estavam misturados, mas tinham preço e qualidade semelhantes. Você entra no corredor do mercado e absorve estes dados: o preço do vinho, a procedência, que tipo de vinho é, se é tinto, branco, Cabernet, o que for, o que vai ter para jantar. Você junta isso tudo e decide o que comprar. Mas seu inconsciente completa a imagem com outros dados, como emoções e humor. O estudo então colocou música para tocar na loja, música francesa e alemã em dias alternados. No dia da música francesa, 2/3 das pessoas compraram vinho francês, e, no dia da música alemã, 2/3 das pessoas compraram vinho alemão. O cérebro delas claramente usava outras coisas, mas, quando as entrevistamos depois da compra, eles não se lembravam da música, algumas nem perceberam aquela música suave de fundo e não acharam que aquilo as influenciaria. Então, você não sabe que essas coisas afetam suas decisões, mas, se estiver ciente delas, pode pensar: “Estou ouvindo música. Estou comprando o vinho alemão por causa da música, e vou me arrepender quando chegar em casa e vir que não gosto dele?”

Jorge Pontual — Essa é a ideia de subliminar: algo que está abaixo da percepção.
Leonard Mlodinow —
Exato.

Jorge Pontual — No seu livro, eu descobri que a política usa muito isso. As pessoas acham que escolhem um candidato porque concordam com as ideias dele ou porque fazem uma escolha mais racional e consciente, mas não.
Leonard Mlodinow —
Porque os humanos são criaturas muito sociáveis. Nós nos desenvolvemos para sermos sociais e nos relacionarmos, e captamos mensagens subliminares ou inconscientes das expressões faciais, da postura, e não percebemos que, quando julgamos os candidatos, essas coisas influenciam em nossas decisões. Um professor de Princeton fez um estudo com fotos de todos os candidatos em dezenas de eleições. Ele mostrou as fotos rapidamente às pessoas e perguntou quem parecia mais competente. Com base na estatística de quem parecia mais competente, ele previu o resultado de dezenas de outras eleições para governador, para senador... E ele teve 70% de acerto em suas previsões. Então, em 70% das vezes, ele acertou o vencedor usando apenas a aparência dos candidatos.

Jorge Pontual — É possível manipular as pessoas a ponto de plantar falsas lembranças? Como isso é feito?
Leonard Mlodinow —
Quando se lembra, você vê a imagem do que aconteceu e acha que foi aquilo que aconteceu, pois é como quando você reconstrói as imagens confusas da sua retina: uma imagem muito clara. Você se lembra de episódios diferentes da sua vida, e, quando chama a lembrança, sua mente reconstrói tudo com uma espécie de chute instruído. Mas a lembrança se baseia nesses aspectos gerais de que você se lembra, só que parece algo detalhado. E ela parece muito real e muito clara, mas não é. Ela se baseia nessas poucas coisas. É por isso que podemos ter uma falsa lembrança e ter certeza de que aquilo aconteceu. E os psicólogos que sabem como manipular isso podem levá-lo a ter falsas lembranças. Isso é um problema em processos judiciais, por exemplo, porque você pode ter uma lembrança errada de alguém. Você se lembra do aspecto geral do rosto, mas identifica alguém e se convence de que é aquela pessoa. Mas, geralmente, a memória funciona muito bem. Foi por isso que evoluímos e ganhamos essa capacidade. Isso é realmente um dom, pois não precisamos parar a cada 3 segundos e posicionar conscientemente os dados que recebemos. Nosso cérebro faz isso automaticamente e instantaneamente.

Jorge Pontual — Funciona assim com outros animais?
Leonard Mlodinow —
Nós temos a mesma mente inconsciente que a maioria dos outros mamíferos. Nossa mente consciente é especial para nós, e temos uma mente consciente muito mais elaborada, mas a estrutura e a função cerebrais do inconsciente são muito parecidas com as dos grandes mamíferos. E todos os animais precisam disso para sobreviver, mas o motivo de precisarmos do inconsciente acima disso ainda é um mistério. Os cientistas ainda não entendermos a razão disso do ponto de vista evolutivo.

Jorge Pontual — Há alguma maneira de estarmos mais atentos para os resultados dessas tendências inconscientes? Digo até mesmo para aquelas que são prejudiciais. Por exemplo, uma pessoa diz que não é racista, que trata todo mundo de maneira igual, mas, quando as testamos — os pesquisadores comprovam isso —, elas têm preconceitos inconscientes contra certos estereótipos.
Leonard Mlodinow —
Essa capacidade categorizar as coisas é um verdadeiro dom. Eu falo de um paciente com dano cerebral que não tem isso. Ele não conseguia nem pôr a mesa. Não conseguia distinguir um garfo de outro, estava tudo na mesma categoria: garfos da mesa de jantar. Então isso é um dom. Mas deixa de ser benéfico quando caracterizamos pessoas por causa de sua religião, de sua cor. E isso vem da mídia e da nossa cultura. Somo constantemente bombardeados com mensagens sobre diferentes etnias, diferentes religiões, e é muito difícil não assimilar isso em nível inconsciente, ainda que nosso inconsciente queira ser justo.

Jorge Pontual — Mas como chegar perto da objetividade? Isso é possível, não?
Leonard Mlodinow —
Identificando as influências, nosso consciente pode pensar: “Espera aí. Ao tomar essa decisão, eu vi os dados, mas deixe-me vê-los de novo para ver se algo a afetou, como o sol ou um briga com a minha mulher.”

Jorge Pontual — Motivos secundários.
Leonard Mlodinow —
É, motivos ocultos. Seu interesse. Você pode dizer: “Eu tomei essa decisão, mas sei que fui influenciado.” E você precisa tentar contextualizar isso aprendendo sobre si mesmo.

Jorge Pontual — Mas ninguém escreverá uma manchete como: “Este assunto é complicado demais, não consigo me decidir.” Nós precisamos montar alguns títulos em mente.
Leonard Mlodinow —
Os cientistas muitas vezes dizem isso e continuam trabalhando, mas em outras áreas, como nos negócios, geralmente é preciso tomar uma decisão. Não se pode dizer aos acionistas: “Não sabemos bem sobre a produção. Deem-nos 5 anos para estudar a questão.”

Jorge Pontual — Mas, se eu não tenho acesso ao inconsciente, como posso saber se eu tenho um preconceito ou não? Normalmente isso se reflete no meu comportamento, as outras pessoas me veem assim?
Leonard Mlodinow —
Isso. Outras pessoas talvez vejam melhor do que você, mas você pode testar seus preconceitos inconscientes. Há um site que aplica o teste de associação implícita, IAT (clique aqui para acessar). Ele é incrível. Pode-se testar os preconceitos sobre preferência sexual, raça, obesidade... Depois de fazer o teste, que dura uns 10 minutos, você vê como se saiu, e ele mostra como as pessoas se saíram de maneira geral.

Jorge Pontual — É interessante como os pesquisadores agora usam imagens rápidas, que aparecem na sua frente por 50 milissegundos, e você decide o que está vendo sem mesmo perceber.
Leonard Mlodinow —
É verdade. Isso é interessante. E há muitos experimentos baseados nessa tecnologia para fazer isso. Sua mente inconsciente lembra muito rápido. Então, a razão dessa habilidade é interagirmos sem parar para pensar. Às vezes, é claro que você para e pensa, mas imagine uma conversa em que você tem que parar  para pensar de onde vem a outra pessoa... Enfim, pode ser difícil entender do que eu estou falando, mas imagine uma mulher correndo para pegar um ônibus que vai partir. Você entende automaticamente o que ela está pensando: ela quer pegar o ônibus para ir trabalhar, vai ficar chateada se não o pegar. Todas essas informações implícitas que sua mente entende sem parar para analisar, ela está ali. Se não tivéssemos isso, nossas interações seriam muito difíceis.

Jorge Pontual — Então, pessoas que têm dificuldade para interagir socialmente não tem isso?
Leonard Mlodinow —
Há muitos motivos para não ter interação social. Pessoas que não têm isso, como as autistas, têm problemas para interagir socialmente. Autistas tem problemas com a chamada “teoria da mente”, a capacidade de entender o que o outro pensa instantaneamente, sem analisar e estudar isso.

Jorge Pontual — Isso é inconsciente.
Leonard Mlodinow —
É. Você pode pensar nisso conscientemente, mas, apenas olhando para você e vendo a situação, eu entendo automaticamente muitas coisas sobre você, e isso é inconsciente.

Jorge Pontual — Uma coisa que eu entendi em seus dois livros — e nós acabamos aprendendo isso — é que não estamos no controle de tudo. Nós precisamos ser mais humildes. Mas também mais agradecidos.
Leonard Mlodinow —
Isso.

Jorge Pontual — Por quê? Fale um pouco sobre isso.
Leonard Mlodinow —
Como eu digo, tudo o que você faz — tentar abrir uma nova empresa, tentar escrever um livro, escrever um artigo sobre física — pode ter sucesso ou pode fracassar. Nós tendemos a pensar que cabe apenas a nós — e grande parte cabe mesmo, não digo que não —, porém é como uma equipe esportiva: podemos ter uma equipe ótima, e em alguns dias, a bola simplesmente não rola bem para ela. O que nós precisamos entender é que seu esforço lhe dá apenas uma probabilidade de ter sucesso, mas há também uma probabilidade de você fracassar. E, quando olhamos para trás e analisamos o fracasso ou o sucesso, sabemos que houve fracasso ou sucesso, mas achamos que dependeu 100% de nós, pois aquele foi o resultado, mas não dependeu. Então, acho que isso nos dá esperança e humildade, porque, se você tem sucesso, deveria entender que há pessoas por aí tão boas quanto você que não tiveram sucesso, então parte disso é sorte. Ou, se você não teve sucesso, se você escreve um livro, mas as pessoas não compram, não significa que você não tem capacidade de escrever um livro de sucesso. Significa apenas que você jogou a moeda, e ela caiu do lado errado, mas você deve continuar tentando. O poder de decisão da sua mente consciente, aquela que associamos a nós mesmos, é apenas parte do caminho. Outra parte são nossos instintos animais, nossas emoções e mente inconsciente, que todos nós, seres humanos, temos e que está presente em nossa mente inconsciente. Ela é a base a partir da qual nós agimos e afeta nossa personalidade e nosso comportamento de uma maneira que não entendemos. Nós apenas podemos controlar o que podemos controlar, que é nossa mente consciente.

Jorge Pontual — E devíamos agradecer por isso dar certo.
Leonard Mlodinow —
Exatamente, senão, nossa espécie estaria extinta.

Jorge Pontual — Há outra coisa que é inconsciente, como li no seu livro, que é a autoimagem que temos. Ela é uma ilusão... Não é uma ilusão, mas a autoconfiança é sempre um pouco otimista, não é? O que é bom!
Leonard Mlodinow —
É bom, claro! Tudo isso é bom, mas leva a uma percepção equivocada. Então, mais de 50% das pessoas tendem a se achar acima da média, mas é claro que apenas 50% delas pode estar acima da média. Mas a mente inconsciente nos ajuda a ver o mundo assim, porque nós encontramos várias barreiras na vida. Quando vivíamos na natureza, havia falta de comida, frio, predadores nos caçando... Se tivéssemos uma visão muito sóbria e objetiva da vida, em alguns momentos, provavelmente, nos encolheríamos e desistiríamos. Em nosso mundo civilizado, estamos protegidos desses problemas, mas isso ainda é válido. Podemos ter um grande problema de saúde, como câncer, e ter que fazer quimioterapia, ou podemos abrir uma nova empresa e ter que trabalhar 100 horas por semana, sem qualquer garantia de sucesso... Qualquer que seja seu campo de atuação, há desafios. Mas o bom é que nossa mente consciente nos ajuda a manter uma atitude positiva com relação a isso e a nós mesmos. Ela nos ajuda a derrubar barreiras e realizar coisas que não realizaríamos sem esse otimismo.

Jorge Pontual — E isso é inconsciente.
Leonard Mlodinow —
É criado inconscientemente. É até muito difícil contrariar isso. Adivinhe que pessoas têm uma visão mais realista delas próprias? São as pessoas depressivas, pessoas que sofrem de depressão. Isso é uma das coisas que nos ajudam a não ficar deprimido.

Jorge Pontual — Você sempre conta histórias sobre seus pais, não é? Histórias ótimas sobre eles. Há uma história que fecha o livro que tem a ver com isso, com esse otimismo, com essa confiança de que as coisas podem ser superadas.
Leonard Mlodinow —
Meus pais viveram o Holocausto e ficaram em campos de concentração na Polônia. Eles vieram para Nova York depois da guerra e eram muito pobres. Meu pai trabalhava em uma confecção. Ele era alfaiate na Europa. Minha mãe não trabalhava, e eles não conseguiam pagar nem o aluguel, passavam por momentos difíceis. Meu pai um dia chegou em casa e disse: “Adivinhe só! Precisamos de uma costureira, e eles disseram que o emprego é seu, para você ir comigo amanhã. Vamos ganhar o dobro e ficar juntos.” O único problema era que minha mãe não sabia costurar. Ela vinha de uma família rica e não precisara aprender a isso. Meu pai disse: “Não faz mal, eu te ensino esta noite.” Minha mãe não estava tão otimista quanto meu pai, estava muito preocupada com suas habilidades. Eles conversaram, e ele a encorajou, disse que ele a ajudaria... Às vezes, eu acho que nos unimos às pessoas não só pela maneira como as vemos, mas também por como elas nos veem. Ele achava que ela era capaz e passou a noite ensinando-a a costurar. Na manhã seguinte, ela foi à confecção e conseguiu o emprego.

Jorge Pontual — É uma bela história.
Leonard Mlodinow —
Obrigado.

Jorge Pontual — Eu que agradeço. Obrigado.
Leonard Mlodinow —
Muito obrigado.

Revista Consultor Jurídico, 19 de outubro de 2012, 8h00

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