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Ideias do Milênio

Consequências das mudanças climáticas é pior para pobres

Entrevista concedida pela ex-presidente da República da Irlanda Mary Robinson, ao jornalista Silio Boccanera, para o programa Milênio, da Globo News. O Milênio é um programa de entrevistas, que vai ao ar pelo canal de televisão por assinatura Globo News às 23h30 de segunda-feira, com repetições às 3h30, 11h30 e 17h30. 

Um critério para se avaliar a reputação de alguém, sobretudo pessoa pública, é ver quem lhe faz oposição. Mary Robinson, como presidente da República da Irlanda, confrontou a Igreja Católica conservadora e influente naquele país, contrária à defesa que a chefe do governo fazia do direito ao controle da natalidade. Na ONU, quando Robinson chefiou a Divisão de Direitos Humanos, ela enfrentou a ira do governo americano de George Bush. Nem um pouco satisfeito com as críticas que ela fazia aos abusos de direitos humanos e civis pelas forças americanas em nome da guerra ao terror. No momento envolvida com organizações que pesquisam e denunciam os efeitos da mudança climática na produção de comida, ela incomoda os que prefeririam que se aposentasse, agora que completou 68 anos. Ela perturba também alguns grupos descontentes com o seu envolvimento na organização The Elders, formada por líderes internacionais veteranos e independentes já fora do cargo. De Fernando Henrique Cardoso a Jimmy Carter, de Desmond Tutu a Gro Brundtland. Correm mundo alfinetando os acomodados. Pelas palavras de um diplomata: com uma lista de adversários assim Mary Robinson só pode ser gente boa.

Silio Boccanera — Ao discutir mudanças climáticas, muitas vezes ouvimos falar do impacto que terão na produção de alimentos no futuro, mas a senhora e seu grupo realizaram pesquisas que mostram que elas já estão tendo um impacto agora. Fale-nos sobre isso.
Mary Robinson —
Na verdade, foi como passei a trabalhar com mudanças climáticas. Eu trabalhava com outra organização que não pretendia ser permanente. Nós mostramos de maneira pioneira, que levando uma abordagem de direitos humanos ao alimento, à água, à saúde e à cooperação, ajudaríamos os pobres. E nós nos concentramos nos países africanos. E eu continuava ouvindo como as coisas estavam piores. Não temos mais estações. Temos longos períodos de seca e depois inundações. Na Libéria, minha amiga Ellen Johnson-Sirleaf disse: “Mary, não posso planejar minhas estradas, pois as estações chuvosas não chegam mais como antes.” Como eu visitava vários países africanos todos os anos, eu via um padrão de piora na condição dos pobres por causa do clima. E, quanto mais eu lia e mais via aquilo, mais claro ficava que a situação piorava. E não era só o clima, mas também o desmatamento e mau uso do solo. Mas, para as pessoas pobres e já vulneráveis, aquela pequena mudança tinha consequências muito graves.

Silio Boccanera — E a senhora viu isso mais nos países em desenvolvimento.
Mary Robinson —
Exato. E assim que chegamos à justiça climática, através dessa percepção da injustiça dos impactos das mudanças climáticas sobre os pobres, que são os menos responsáveis por elas. Temos que ser honestos quanto a isso, e as pessoas precisam perceber que é isso que estamos fazendo. Nós tentamos ter políticas de ajuda ao desenvolvimento, mas o que estávamos fazendo é piorando a vida dos pobres.

Silio Boccanera — O problema de alimentar as pessoas é um problema de distribuição ou de produção insuficiente?
Mary Robinson —
É, com certeza, um problema de distribuição, em muitos casos. Mas nós precisamos de alimentos nutritivos, ou seja, de segurança alimentar e nutricional... Eu estive na Somália em julho de 2012. Eu tinha estado lá em 1992, como presidente da Irlanda, porque havia uma crise entre os senhores da guerra de lá, e a população não estava tendo acesso à comida, que não chegava nem aos depósitos de alimentos, em Baidoa e Mogadíscio. Então eu fui até lá e pedi que os senhores da guerra deixassem os alimentos chegarem aos depósitos. Desta última vez em que estive lá, tudo estava pior.

Silio Boccanera — E não há mais guerra.
Mary Robinson —
Bem, há a Al-Qaeda. Há o Al-Shabab, ligado à Al-Qaeda. Mas, enquanto estávamos lá, a ONU declarou epidemia de fome em duas regiões da Somália. Pelo menos 28 mil crianças tiveram que morrer para essa declaração. A constatação da epidemia de fome tem regras bem estritas. O que eu não sabia em 1992, quando estive na Somália, foi o ponto principal para mim em julho: o fato de que o Chifre da África viveu seus 8 anos mais quentes da História. Isso causou um impacto, e a próxima crise não vai demorar 19 anos. Então não é também apenas um problema de distribuição, é um problema agravado pelas mudanças climáticas.

Silio Boccanera — São as mudanças climáticas em ação. Não é vergonhoso que tantas pessoas nos países ricos sofram de obesidade, enquanto há mais de um milhão de crianças morrendo de fome?
Mary Robinson —
Nós estamos falando de cerca de 1 bilhão de pessoas, incluindo crianças, que acordam com fome todas as manhãs. É 1/7 da população mundial. Estamos falando de 1/3 das crianças dos países em desenvolvimento que estão abaixo do peso ou com atraso no crescimento. E o atraso no crescimento é um problema da primeira infância que deixa sequelas nas crianças, elas nunca atingem seu potencial físico e intelectual. Para qualquer mãe ou avó, como eu, pensar nisso é algo terrível. E nós temos 1 bilhão de pessoas acima do peso, obesas. Então, nosso mundo tem um problema crônico de equilíbrio alimentar. E nós precisamos tratar do excesso de consumo em programas de mitigação e mudança de hábitos e estilos de vida.

Silio Boccanera — O Brasil tem uma posição privilegiada em termos de produção de alimentos, pois somos autossuficientes nessa área, mas a situação em outros países não é a mesma. Qual a senhora acha que é a razão disso? Solo ruim, má exploração do solo, as próprias mudanças climáticas, uma combinação disso tudo?
Mary Robinson —
Exato. E como isso é complicado, e como a ciência lida com probabilidades, eu acho que há essa capacidade de negar a ciência, de tentar ignorá-la, de tentar desacreditá-la e esse ceticismo com relação à ciência. E, por muito motivos, eu acho que devemos focar mais nas pessoas, no impacto que isso está tendo agora nas pessoas. Não poderemos negar a realidade da vida delas. Esse é um dos motivos pelos quais sentimos que contar essas histórias é importante. Mas lidar com essas questões requer algo complexo, mas também requer revelar o que queremos dizer com igualdade, com responsabilidades comuns, mas diferenciadas, e com respeito pelas capacidades de cada um. O que as pessoas realmente acham de igualdade e justiça? O que podemos fazer? Podemos dar acesso à eletricidade ao 1,4 bilhão de pessoas que não têm luz em casa, às 2,7 bilhões de mulheres que cozinham com carvão e acendem o fogo com óleo animal? Isso é parte da igualdade e das responsabilidades comuns, mas diferenciadas.

Silio Boccanera — Tem que vir tudo junto.
Mary Robinson —
Exato. A igualdade, a adaptação para a igualdade, o financiamento à igualdade, o acesso às tecnologias e a transferência de tecnologia.

Silio Boccanera — Estamos testemunhando a um fenômeno na África em que empresas e países estrangeiros compram as terras para produzir alimentos, não para os africanos, mas para uso próprio. E não são só os chineses. Os árabes também têm feito isso. Isso é preocupante?

Mary Robinson — Isso me preocupa. Mas o que mais me preocupa é a desapropriação da terra. Pessoas pobres estão perdendo suas terras e, quando protestam, elas são presas, como no Camboja, e são chamadas de “terroristas”, porque tentam evitar que suas terras sejam tomadas. Nós precisamos que os governos tenham boas políticas de terras, nós precisamos que os pobres tenham direito à terra, principalmente as mulheres. 80% dos camponeses na África são mulheres, e elas têm 5% da terra. Então há uma discrepância entre seu trabalho e produtividade e a garantia sobre a terra. Isso não ajuda a dar poder a elas. E, se nós quisermos dar mais poder às mulheres, estimulando a igualdade de gênero, precisaremos trabalhar melhor a propriedade da terra. E deter as desapropriações e grandes apropriações. Às vezes, para produzir biomassa, eles usam áreas que poderiam ser usadas para produzir alimentos.

Silio Boccanera — E a senhora acha que dar poder às mulheres na agricultura irá acrescentar uma vantagem a elas?
Mary Robinson —
Na verdade, quando falo sobre dar maior poder às mulheres, não digo especificamente na agricultura. Dar maior poder às mulheres pode mudar drasticamente o desenvolvimento de um país. E nós vimos exemplos disso. Às vezes um país com a Índia, por exemplo, progride quando as mulheres assumem o poder. As mulheres precisam ter maior poder em todas as áreas, mas a agricultura é uma área muito importante, pois é a que produz a maior parte dos alimentos e é onde está a maior parte da pobreza.

Silio Boccanera — No Brasil, há um debate sobre a produção de alimentos. Há quem defenda que fique nas mãos do agronegócio, pois as empresas os produzem com eficiência, em larga escala, enquanto outros dizem que devemos priorizar a produção familiar. Qual é a solução? Uma combinação dos dois?
Mary Robinson —
Eu acho que é importante dar ao pequeno proprietário segurança e tentar melhorar as oportunidades para ele, incluindo aí o acesso à energia. Mas o agronegócio tem que cumprir seu papel. Não falo isso por ideologia, mas por uma questão os direitos humanos. É preciso acabar com a discriminação, dar apoio aos pequenos produtores, garantir que seus direitos sejam respeitados, dar apoio aos indígenas, garantir que eles estejam bem informados e que participem de todas as discussões, trabalhando com eles, pois a tendência do agronegócio, muitas vezes, é atropelar os pequenos proprietários e os indígenas, que não têm a escritura de propriedade da terra. Esse é o perigo. Por isso os governos precisam regulamentar e monitorar a situação.

Silio Boccanera — Em seu discurso na Rio+20, a senhora disse: “Um resultado bem-sucedido da Rio+20 será suprir as necessidades de homens, mulheres e crianças pobres, e não as necessidades de governos, de ONGs e organizações multilaterais.” O que a senhora quis dizer com isso?
Mary Robinson —
Eu estava como mediadora de uma reunião da ONU com as mulheres sobre desigualdades de gênero e fortalecimento das mulheres. A isso, acrescentei a liderança feminina. Havia muita raiva e frustração naquela sala. Essas mulheres achavam que nada do que acontecia mudaria suas vidas. E, pensando bem, ao ler o texto da Declaração da Rio+20, ela realmente irá ajudar esse pobres camponeses, as mulheres os pobres, os 1,4 milhão que não têm acesso à eletricidade etc. Amanhã, semana que vem ou mês que vem? Eu gostaria de ter visto compromissos mais práticos e reais, além de prazos. Por que não criar a meta de acesso à eletricidade para todos até 2030? Em minha opinião, é longe demais, mas nem isso nós fizemos. É um compromisso sem prazo, no momento.

Silio Boccanera — Quando se discute segurança alimentar e a necessidade de alimentar as pessoas do mundo, o que a senhora acha dos transgênicos? Eles têm um lugar? São alimentos do tipo Frankenstein ou são uma alternativa?
Mary Robinson —
Eu acho que há diferentes tipos de tecnologias que ajudam a produção. Algumas podem ser muito boas, mas os que envolvem produtos químicos ou questões de propriedade intelectual, a questão das sementes... Não sou especialistas na área, mas ouvia pessoas muito temerosas, além de experiências negativas, principalmente na Índia, onde há muita preocupação com os rumos da Revolução Verde.

Silio Boccanera — Em termos da distribuição mundial de alimentos, é provável que a senhora compre um mamão brasileiro em Dublin, onde a senhora vive. Isso não é um absurdo em termos de pegada de carbono?
Mary Robinson —
É um absurdo. E também nos preocupamos com a carne brasileira. É verdade, e temos que verificar a pegada de carbono dos produtos. Acho que temos que chegar a esse ponto. Há muitas coisas que temos que fazer, e os países ricos precisam fazer mais para reduzir o consumo excessivo, pois estamos usando com exagero os recursos do planeta, colocando em risco todo o ecossistema terrestre. Eu analiso isso como avó. Eu tenho quatro netos pequenos, que terão uns 40 anos em 2050. Por isso, para mim, 2050 está logo ali. E meus netos dividirão o mundo com pelo menos 9 milhões de pessoas, e eu me preocupo com esses 9 bilhões de pessoas. O que elas dirão de nós se não percebermos, drasticamente, que a Rio+20 deveria ser o pontapé inicial para dizermos que isso não é uma negociação comum, vamos fazer as coisas de maneira muito diferente. As instituições e lideranças deveriam começar a agir, mas pelo menos vamos colocar na cabeça das pessoas que precisamos mudar nossos hábitos, nós precisamos ter um sistema mais igualitário e justo, nós precisamos respeitar a mãe natureza e passá-las aos nossos filhos e netos.

Silio Boccanera — Milhões de pessoas no mundo em desenvolvimento, no Brasil, na Índia, na China, estão subindo na escala social, ganhando mais dinheiro, podendo comer mais, comer melhor, mas, se elas adquirirem os hábitos de consumo dos americanos, dos europeus, não haverá o suficiente para todos. Se os chineses comessem carne como os brasileiros, não haverá pastos suficientes no mundo. Isso é preocupante.
Mary Robinson —
Recentemente, ouvi uma estatística interessante, que me chamou a atenção. Se eliminarmos todas as emissões dos países ricos, de todos os países do Anexo I, quando é que a temperatura mundial vai parar de subir mais de 2ºC, que é a nossa margem de segurança? Considerando as emissões dos países emergentes, a resposta seria em 2025. É assustador. Portanto, no momento, não estamos a caminho de um mundo seguro. E os que historicamente cresceram com base nos combustíveis fósseis e continuam crescendo têm uma responsabilidade maior, mas como as economias emergentes têm esse grande número de pessoas entrando no consumo, todos nós precisamos mudar nossos hábitos e esperamos que os chineses e brasileiros não adotem o estilo de vida de consumo excessivo que nós erroneamente adotamos.

Silio Boccanera — Eu gostaria de falar do seu trabalho com os direitos humanos quando a senhora era alta-comissária para direitos humanos da ONU, mas sei que essa é uma preocupação sua antes e depois dessa época. A senhora se surpreende ao ver como os abusos ainda são comuns, das torturas às surras, aos maus-tratos a presos, a mulheres, as crianças, ao trabalho escravo? Isso ainda acontece muito, não é?
Mary Robinson —
Quando eu era alta-comissária para direitos humanos, eu me preocupava com o fato de não tratarmos eficientemente as grandes violações aos direitos humanos. Violações horríveis, estupros como arma de guerras etc. Mas, no ano 2000, quando eu ainda estava no cargo, parecia que tínhamos começado o século muito bem em termos de direitos humanos com a Declaração do Milênio da Assembleia Geral da ONU, um documento maravilhoso. Dele foram tirados os Objetivos de Desenvolvimento do Milênio. E eles serviram ao seu propósito, ajudaram a tratar questões relacionadas à saúde, à educação, à igualdade de gêneros, à pobreza... Não era nada muito ambicioso, mas os países ao menos adotaram aqueles como seus objetivos. Agora teremos as Metas de Desenvolvimento Sustentável. Mas, um ano depois da Declaração do Milênio e dos Objetivos de Desenvolvimento do Milênio, tivemos os atentados aos EUA. A resposta a eles foi a guerra ao terror, que foi péssima para os direitos humanos. Ela afastou aquela agenda, e o mundo adotou uma abordagem militarista, em vez de tratar os mandantes daquilo como criminosos que cometeram crimes contra a humanidade. Nós espalhamos a violência, e isso foi um erro enorme. A Guerra no Iraque foi um enorme erro para o mundo. Ela só dificultou a questão dos direitos humanos, pois alguns pontos, como o não recurso à tortura, não foram respeitados como deveriam.

Silio Boccanera — Ao contrário do que muita gente pensa, a violação dos direitos humanos não está restrita aos países pobres, como as pessoas normalmente pensam.
Mary Robinson —
Com certeza.

Silio Boccanera — Há países ricos os violando.
Mary Robinson —
Eu tinha uma boa filosofia quando alta-comissária: todos os países têm problemas de direitos humanos. Quando eu vim ao Brasil, o país tinha esse tipo de problema, mas alguns países ocidentais, principalmente um grande país ocidental, sempre quer falar dos problemas de direitos humanos de outros países.

Silio Boccanera — Bem, o afogamento simulado só pode ser descrito como tortura.
Mary Robinson —
Exatamente.

Silio Boccanera — Aqui, no Brasil, ocorreram torturas executadas por forças do governo durante a ditadura militar. Isso acabou, mas a tortura continua nas prisões, na maneira como tratamos os presos. Isso é comum também em outros países? A tortura política acaba, mas ela continua a acontecer?
Mary Robinson —
É claro que não estou tão bem informada quanto na época da ONU, e meu trabalho não se concentra nisso, mas eu ouço relatos muito preocupantes de países da Primavera Árabe. Aqueles países estão vivendo muita repressão, inclusive às mulheres. A polícia continua torturando... Nós precisamos entender que esse é um problema muito sério. O Tribunal Penal Internacional, aos poucos, vai desempenhando um papel importante. O fato de Charles Taylor ter sido condenado por uma enorme série de crimes horríveis é, com certeza, um precedente. Não dá mais para se esconder. Se você for responsável por crimes contra a humanidade, pode levar tempo, mas o mundo irá denunciá-lo e levá-lo à Justiça.

Silio Boccanera — O exemplo de Charles Taylor levado à Justiça nos dá a ideia de que a verdade do que aconteceu foi revelada. Hoje há comissões da verdade em vários países. A mais famosa, recentemente, foi a da África do Sul. Como a senhora sabe, o Brasil criou uma Comissão da Verdade. A senhora acha importante olhar o passado?
Mary Robinson —
Eu escrevi para a presidente Dilma e a parabenizei pela iniciativa de criar essa Comissão da Verdade, pois eu acho isso muito importante para várias pessoas: as famílias, os que sentem que foram esquecidos, os que se sentem injustiçados, pois ninguém foi responsabilizado. Não se pode levar todos às cortes internacionais, e as comissões da verdade são uma oportunidade de enfrentar o passado negro de um país, mas de uma maneira que ajude o futuro. Elas curam feridas que ainda estão abertas.

Silio Boccanera — Ainda no tema dos direitos humanos, analisando a situação da Europa, onde as pessoas têm sofrido com a crise econômico-financeira.
Mary Robinson —
Inclusive meu país, a Irlanda.

Silio Boccanera — Inclusive a Irlanda, que é um dos exemplos mais graves. Isso também é uma questão de direitos humanos.
Mary Robinson —
É. Por um lado, as pessoas estão irritadas, pois foi uma bolha provocada por bancos irresponsáveis. E bancos alemães, por exemplo, emprestaram dinheiro a bancos irlandeses irresponsáveis, mas, quando o banco problemático, o Anglo Irish Bank, teve problemas, foi o governo que pagou a dívida. É uma dívida enorme nas costas do povo irlandês, que não sente que deveria ser responsável por isso. E isso impactou a economia interna. As exportações da Irlanda vão bastante bem, nós temos dado passos importantes. Mas, como ex-presidente, não me envolvo nisso. Eu tenho visto resistência, determinação e solidariedade. Nós temos uma palavra irlandesa, em gaélico, meitheal, muito parecida com a africana ubuntu, que significa: “estou ligado ao próximo”. Ela vem da tradição camponesa, quando se plantava um terreno uma semana e se passava ao terreno ao lado na semana seguinte. Se um camponês adoecesse, seu terreno não ficaria sem cuidados. E eles passavam para o terreno seguinte. O que sinto agora é que as pessoas que prestam serviços públicos ou locais, embora ocorram cortes, não estão deixando esses cortes atingirem tanto o povo. Elas trabalham mais, se apoiam em alguém, mas realizaram o serviço da melhor forma possível, pois não querem deixar aqueles atingidos pelos cortes empobrecerem ainda mais. Para mim, isso é fundamental.

Revista Consultor Jurídico, 5 de outubro de 2012, 8h00

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