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Direito & Mídia

Hebe, a crucificação de Neymar e a opinião de Manasses

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Hebe foi encontrada morta na manhã deste sábado (29/9). De certo modo a apresentadora, que teria sido escalada para cantar na inauguração oficial da televisão em 18 de setembro de 1950 e faltou por causa de um compromisso sentimental, segundo a lenda, teve sua história ligada ao meio de comunicação tão popular no país nas últimas seis décadas. Ela até fizera parte da caravana de artistas que havia ido, no ano anterior, receber os equipamentos da RCA aportados em Santos. Ao morrer neste sábado, boicotou a mídia impressa. Foi pranteada nos canais de TV aberta, que soube montar o circo em torno de celebridades de plantão que, num ritual conhecido, em meio a sorrisos discretos repetiam para as câmeras as palavras “dor”, “perda” e “sentimento”.

Tivesse feito sua passagem um dia antes, Hebe aumentaria exponencialmente as vendas das revistas semanais de informação e entretenimento. Na segunda-feira (1º/10), duas edições especiais alcançavam as bancas. Hoje apareceu a Caras, revista em que ela protagonizou 22 capas. Mas Veja, com o atleta Ronaldinho em dieta na capa desta semana, teria lucrado muito se a capa fosse a apresentadora. No próximo final de semana, o impacto da “dor”, “perda” e “sentimento” já esvaneceu.

O primeiro fato que liga Hebe com o futebol foi a nota publicada no Facebook do time de Munique, o Bayern, lamentando, em solidariedade aos jogadores Luiz Gustavo, Dante e Rafinha, a morte da dama da TV: “FC Bayern commiserates with our players Luiz Gustavo, Dante and Rafinha on the death of TV presenter Hebe Camargo. RIP” (sigla latina para “descanse em paz”), postou a assessoria do time.

O segundo fato é que no mesmo sábado de sua morte começavam as discussões e protestos pela imagem de capa da Placar, que na quarta-feira (26/10) antecipara em seu Facebook a atração deste mês: uma cruz nua e a chamada “A crucificação de”, com a pergunta: “Quem é o fulanisson, que está na capa da Placar de outubro, sexta-feira nas bancas?”. Como se viu depois, na montagem sobre a imagem clássica do crucificado de Diego Velázquez, quem ocupava o lugar da cabeça de Cristo era a do controvertido jogador Neymar.

Confesso que esperava uma polêmica maior do que a ocorrida. Num período eleitoral sem brilho como o que se encerra esta semana (um dos mais inócuos de muitas décadas, pela total falta de discussão de rumos para nossas cidades), nem a ousadia da revista de esportes conseguiu emplacar altos pontos no ibope nas redes sociais. Mas houve repercussões até no exterior, como o site espanhol que noticiou o “escândalo” da capa comparando-a com a da revista espanhola Don Balón, que em 1977 fizera semelhante montagem, mais tosca na imagem, mais criativa na manchete: “La semana de la cruycifixion”, numa referência ao craque Cruyff, cuja cabeça encaixou mal na pintura de Velázquez.

Vi essa menção no blog da Juventude Conservadora da UnB (Universidade de Brasília) — e novo espanto pela existência desse tipo de associação. Seguiu-se a isso a troca de pedidos de abaixo-assinados de protesto, com a direção da revista reiterando o respeito pelas diferentes crenças e a defesa da liberdade de praticá-las, mas com a ressalva de que estava “falando exclusivamente de futebol” e que a fotomontagem não seria uma referência específica à crucificação de Jesus. “Vale esclarecer que a analogia da fotomontagem é com a crucificação como método de execução pública praticado antigamente. Como mostra a reportagem, Neymar vem sendo ‘apedrejado’ publicamente com a pecha de ‘cai-cai’. O maior jogador brasileiro, ícone da arte no esporte, virou, para muitos, o símbolo da dissimulação, da tentativa de burlar as regras do jogo. Ele cometeu e comete suas falhas, mas ficou com uma imagem de ‘criminoso esportivo’”, se posicionou a Placar.

A CNBB (Conferência Nacional dos Bispos do Brasil) manifestou na sexta-feira “profunda indignação” com a capa da revista. Era de esperar que a cúpula do bispado nacional se pronunciasse: mesmo reconhecendo o princípio da liberdade de expressão, “há limites objetivos no seu exercício”, pontuou, sugerindo “a manipulação e instrumentalização de um recurso editorial com mera finalidade comercial”, o que também é um fato.

O site PeticaoPublica.com.br, que abriga abaixo-assinados como o “Justiça para Cadela Preta”, dirigido ao Ministério Público da cidade de Cruz Alta, no Rio Grande do Sul (a cadela teria sofrido estupro no banheiro do Posto Pampeano, daquela localidade), abriu espaço para outra petição, agora dirigida ao STF, contra a “afronta da capa feita pela revista Placar, edição de outubro”. Diz o texto (ainda há tempo de assinar): “Nós, brasileiros de confissão cristã, sentimo-nos ofendidos pela utilização do símbolo religioso maior que expressa nossa fé, a do Cristo Crucificado, pela revista Placar, da editora Abril, na capa da edição do mês de outubro, sobre reportagem a respeito do jogador Neymar. De forma alguma aceitamos tal vilipêndio, mesmo que os editores digam que não é relacionada ao Cristo, pois que a imagem gráfica da capa foi confeccionada sobre a imagem do Cristo crucificado. Portanto, pautando-nos no Decreto-lei 2.848 de 07 de dezembro de 1940/Art. 208 vilipendiar publicamente ato ou objeto de culto religioso. Pena: detenção, de um mês a um ano, ou multa, vimos pedir aos poderes públicos que façam a lei acontecer e que punam a revista conforme expresso pela lei.”

Não é possível, pelo site, saber quantos aguerridos brasileiros puseram sua assinatura na petição. Pelo bom senso nacional, sabe-se que na semana que vem todos terão esquecido o fato, para felicidade geral da nação. De quebra, tivemos a oportunidade de reler a palavra vilipêndio, que rima com estipêndio. Mas essas são outras lorotas.

Das muitas manifestações que li em diversos sites, destaco duas. Uma é de um leitor que se identificou como Manasses e escreveu: “Eu sou evangélico e tenho pena de ler estes, digamos, ‘cabeças de bagre’ que escrevem aqui. Vocês nunca disseram a frase: pegaram alguém para Cristo? Isso quer dizer o que? Vocês mesmos já disseram que se sentiram crucificado em alguma situação. Isso é no máximo uma frase sucinta, jamais alcançaria toda a plenitude que significa a crucificação. Deixem de chilique. É só uma reportagem!” Sensato esse senhor Manasses (que postou seu nome sem o acento no “e” final).

Em contraponto, outro post, de Luiz Carlos Magalhães, atiça: “Já pensaram se os cristãos provocam o mesmo protesto, semelhante ao que estão fazendo com um tal filme???!!!”

Pois é, aí residiria o perigo. No mundo islâmico o nível de intolerância vem causando estragos. O filme Innocence of Muslims (A inocência dos muçulmanos), sem ter sido visto por quase nenhum muçulmano, já causou manifestações violentas, desproporcionais, como a que vitimou o embaixador americano na Líbia. Parece que tudo é motivo para atiçar o pavio cada vez mais curto dos adeptos do Islã.

Na madrugada desta quarta-feira (3/10), uma foto da Associated Press mostrava uma passeata de monges em manifesto em frente ao escritório regional da ONU em Bangcoc. Pediam o fim dos ataques contra comunidades budistas em Bangladesh. Segundo a agência espanhola EFE, “pelo menos doze templos budistas foram incendiados em Ramu, no leste de Bangladesh, por radicais islâmicos após a divulgação de um rumor de que uma pessoa que professa o budismo postou em seu perfil no Facebook mensagens consideradas anti-islâmicas”. Essa queima teria acontecido no domingo. E tudo baseado em suspeitas. Como no caso do famoso filme a que se refere Luiz Carlos Magalhães.

Há pouco tempo assisti a um vídeo no CNN.com mostrando uma entrevista com o líder muçulmano belga Abu Imran, numa reportagem sobre o Belgistão, ou a islamização da Bélgica (25% de sua população é adepta do Islã). Estarrecedor. Diz o senhor Abu Imran: “Nós acreditamos que a sharia (código legislativo muçulmano) será implementada em todo o mundo. O Islã e a sharia são inseparáveis, a democracia é do demônio e o mundo regido pela sharia é como o Paraíso na Terra, sem lugar para o crime, a fome ou a injustiça. A democracia é o oposto da sharia e do Islã. Alá é o legislador. Alá faz as leis. Ele é que decide o que é permitido e o que é proibido.”

Ao ser perguntado pelo entrevistador sobre a existência de muçulmanos moderados ou democráticos, Imran ironizou: “É realmente engraçado quando escuto alguém dizer que falou com um ‘muçulmano democrático’. É como dizer que falou com um judeu cristão, um judeu muçulmano ou algo do gênero. Isso é impossível.”

Apostemos que muitos Manassés deem conta dessa parada. 

 é jornalista, professor da Faculdade Cásper Líbero e editor da revista diálogos & debates.

Revista Consultor Jurídico, 3 de outubro de 2012, 13h13

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