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Ideias do Milênio

Adoraria escrever uma história sobre uma família feliz

Entrevista concedida pelo escritor Jonathan Franzen, ao jornalista Edney Silvestre, para o programa Milênio, da Globo News. O Milênio é um programa de entrevistas, que vai ao ar pelo canal de televisão por assinatura Globo News às 23h30 de segunda-feira, com repetições às 3h30, 11h30 e 17h30. 

Observar a realidade e, a partir daí, criar um universo pessoal com que todos nós conseguimos nos identificar. Esse é o principal desafio de um escritor. As palavras no papel ganham significado a cada leitura e o ponto de contato com o nosso cotidiano nos faz refletir e enxergar o mundo com outros olhos, quase como se pudéssemos ver outra vida, outros sofrimentos, outras alegrias. Jonathan Franzen é um autor que, como poucos, consegue mergulhar na realidade dos personagens. No romance liberdade, um de seus livros mais conhecidos, Franzen descreve os dilemas, sonhos e conflitos da classe média americana contemporânea. Introspectivo e bem humorado, Franzen nos convida nessa entrevista ao Milênio a conhecer um pouco do seu mundo.

Edney Silvestre — Pensei em começar com outra coisa, e, então, percebi que eu sempre relacionei isso ao seu trabalho, especialmente a Liberdade. É uma frase de Leon Tolstói: “Todas as famílias felizes se parecem. Só as famílias infelizes são diferentes.”
Jonathan Franzen —
É.

Edney Silvestre — De certa forma.
Jonathan Franzen —
Isso explica a predominância de famílias infelizes na ficção “séria”. Ele só estava sintetizando o óbvio.

Edney Silvestre — É, mas ninguém disse isso antes dele.
Jonathan Franzen —
Não, é verdade. E ele disse algo diferente. Ele disse: “Toda família feliz é feliz da mesma forma. A infelicidade de uma família infeliz é individual.”

Edney Silvestre — É uma frase bem melhor.
Jonathan Franzen —
Isso significa que há uma história a se contar sempre que existe uma família infeliz, porque todo mundo é infeliz de uma forma diferente. Eu adoraria tentar escrever uma história sobre uma família feliz um dia.

Edney Silvestre — Talvez pessoas e famílias felizes não gerem bons romances.
Jonathan Franzen —
Ou talvez elas gerassem um bom romance uma vez só. Ninguém conseguiria repetir o feito, porque a história já teria sido contada.

Edney Silvestre — Ainda sobre a felicidade e a infelicidade, você mencionou numa entrevista que escrever é estar muito infeliz da forma mais feliz possível.
Jonathan Franzen —
Isso.

Edney Silvestre — Pode explicar isso? Você estava se referindo a Liberdade e ao período de nove anos entre...
Jonathan Franzen —
É, mas eu estava me referindo mesmo ao período em que o escrevi. Levei um ano escrevendo. E, durante esse tempo, fiquei constantemente preocupado com o livro. Eu tinha medo de ir trabalhar e não conseguir escrever. Eu estava frustrado, porque não sabia sobre o que era a história. Eu estava completamente em um estado... Ainda assim, esse tipo de trabalho é prazeroso. Estar completamente preso num problema como esse é a minha ideia de liberdade e felicidade. Então, de minuto após minuto, não era tão bom, mas eu sabia, mesmo naquele momento, que, quando eu deixasse o escritório às 14h, tudo o que eu queria era voltar ao escritório às 6h30 no dia seguinte. Foi um período muito feliz, e eu sabia disso, porque eu tinha que fazer uma coisa no dia seguinte, que era escrever mais.

Edney Silvestre — Quando você diz “escritório”, você quer dizer, de acordo como o que eu li, o pequeno escritório...
Jonathan Franzen —
Eu tinha um pequeno escritório em Nova York, sim. Eu o mantinha escuro e silencioso. Quando estou escrevendo bem, eu acordo, saio da cama e vou logo escrever. Assim, ainda estou meio adormecido.

Edney Silvestre — Você nunca escreve em casa?
Jonathan Franzen —
Não se eu puder evitar. Eu fiz isso até meus 30 e poucos anos. Mas eu comecei a me sentir muito estranho de ficar sentado em minha cama... Passei minha vida toda no meu quarto, porque eu precisava trabalhar no meu quarto, dormir lá, escrever lá... Eu saía à noite, mas passava 20h por dia no meu quarto. Então, comecei a me sentir como um inválido, uma pessoa doente. Quem mais passa 20 horas em seu quarto? Ficou tão ruim, que eu tentava vestir meu único terno, uma gravata, e sentar no meu quarto, para tentar sentir que eu não era uma pessoa doente. Finalmente, eu percebi que era melhor trabalhar fora de casa.

Edney Silvestre — Eu fiquei surpreso em ouvir que você não fazia ideia do que ia escrever, porque você levou um ano para escrever. Por outro lado, você levou nove anos compondo, de certa forma.
Jonathan Franzen —
Bom... Eu publique vários outros livros e escrevi muita coisa de não ficção. Uma boa parte disso está saindo aqui no Brasil. Eu não aguentava pensar num romance por mais de três meses do ano. Então, nos outros nove meses, eu escrevia outro tipo de coisa. Mas o que eu não fazia era criar um resumo do livro. Eu não quero escrever um livro de um resumo. Dá para ver quando um livro é escrito a partir de um resumo, quando o autor sabe o que vai acontecer e escreve isso. Por mais que fique lindo, não é um livro, é uma mentira. Você tem que correr perigo. Tem que ter uma ansiedade, um risco ao fazê-lo, ou não é interessante para mim, como escritor, produzi-lo, ou, como leitor, lê-lo. Quero sentir que o autor ou autora não sabia o que estava fazendo. Mas o problema é que isso só acontece dois meses antes de você entregar o livro, e você ainda não tem um resposta sobre o que é o livro.

Edney Silvestre — Você tinha um contrato?
Jonathan Franzen —
Eu tinha um contrato.

Edney Silvestre — Você tinha que entregar...
Jonathan Franzen —
Para me pressionar. Eu estava dois anos atrasado nesse prazo. Não fez muita diferença, mas eu sabia que ia terminar o livro no final de 2009. Eu sabia que ia finalizar e ainda... Quando falo dessa infelicidade maravilhosa... Minha mente estava sempre ansiosa com esse problema, sobre o que seria o livro. Eu pensava nisso quando dormia, quando via as pessoas, quando escrevia no metrô... Eu estava sempre pensando nisso. E... Finalmente, as coisas começaram a se encaixar no final, a gente precisa fazer escolhas e, de repente, acabou. Terminar um livro é uma coisa muito triste. Parece uma grande perda. É o fim da minha relação com os personagens, significa que vou voltar àquela situação de não ter um trabalho a fazer todas as manhãs. Eu já chorei no final de um livro simplesmente porque fico triste por não tê-lo mais. Se você não chora por não ter mais um livro, ele não significou tanto para você. Quando você chora por alguém que morreu, você chora porque amava aquela pessoa. Estou viajando. Me ajude.

Edney Silvestre — Como você sabe que a história acabou? Eles vão embora da casa, constroem uma cerca, mas você teve que chegar até isso.
Jonathan Franzen —
É, o final de Liberdade foi...

Edney Silvestre — É um final?
Jonathan Franzen —
É.

Edney Silvestre — É realmente...
Jonathan Franzen —
É, é um final. Acho que eu sou “pós-pós-moderno”. Eu acredito em finais. Acredito que precisamos de um final numa história para que ela tenha um possível significado. Acho que significado não são apenas associação infinitas. Significado é uma narrativa estruturadas com um final. Sempre achei isso. Nunca fui um bom escritor pós-moderno, porque sempre acreditei em finais. O final dele surgiu quando eu estava no banho dois dias antes de eu terminar o livro. Eu ainda não tinha um final. Eu fui para casa e o vi enquanto estava no banho. O banho é um bom momento para se pensar. Eu passava umas seis horas trabalhando, ia à academia, respondia meus e-mails, mas, quando eu tomava banho, tudo acontecia. E eu tinha que sair correndo molhado para anotar. É um clichê, é um clichê terrível. O escritor austríaco Daniel Kehlmann é um escritor atormentado. Aonde quer que ele vá, ele faz turnês pelo mundo, todos perguntam de onde ele tira suas ideias. Ele diz que sempre as tem em sua banheira. Esse é o clichê dos autores, mas é verdade. A banheira é um ótimo lugar para termos ideias.

Edney Silvestre — Você sentiu um luto muito grande, uma dor enorme, durante o tempo em que compôs Liberdade por causa da perda de seu amigo, do suicídio de seu amigo.
Jonathan Franzen —
Foi. É verdade.

Edney Silvestre — Isso o afetou, é claro. Isso teve um efeito na sua literatura.
Jonathan Franzen —
Algumas particularidades da morte dele me deixaram muito bravo. Mas, ao mesmo tempo, ele era meu amigo e meu rival. Quando eu escrevia um livro, ele escrevia um livro. Nós dois sofríamos. A gente ficava orgulhoso um pelo outro. Era tão bom, que nós sofríamos. Eu fiz isso com ele, e ele fazia isso comigo. Isso era muito motivador para mim. Eu tinha que vencer o David. Não porque...

Edney Silvestre — Era uma competição fraternal.
Jonathan Franzen —
Uma verdadeira competição fraternal. Competições com pessoas que eu amo sempre foram muito adequadas para mim, porque venho de uma família cheia de irmãos. Tem gente que pensa que, se nós competimos, não gostamos da outra pessoa.

Edney Silvestre — É claro que há um afeto.
Jonathan Franzen —
Você ama e respeita a pessoa...

Edney Silvestre — Por isso, compete.
Jonathan Franzen —
Por isso, compete. Exatamente. E... Eu realmente... Eu queria escrever um livro que o vencesse mesmo morto. É uma loucura dizer isso, mas é assim que a mente funciona, não é? Eu sabia que ele tinha um romance inacabado antes de partir, então, pensei que foi a última chance dele. Por isso, eu abraçaria a minha chance. Acho que o motivo disso foi manter algo vivo. Era manter viva por mais um ano uma relação, uma relação de competitividade baseada no amor e na amizade que não ia durar muito mais. Eu não a tenho agora. Ele se foi. Tenho que encontrar outro motivo para...

Edney Silvestre — Outro rival.
Jonathan Franzen —
É, outro rival. Ou, de repente, só parar de escrever de modo competitivo, embora eu seja, por natureza, muito competitivo.

Edney Silvestre — Você vem de uma família de quantos irmãos e irmãs?
Jonathan Franzen —
Tenho dois irmãos mais velhos que são incríveis e sempre me deram muito apoio. Um deles, em particular, é um competidor. Então, eu sei como isso funciona. Eu os via dois competindo de certa forma. Não sei de onde isso vem. Sou uma pessoa competitiva. As pessoas não gostam de falar sobre competição nos Estados Unidos.

Edney Silvestre — Elas acham pesado.
Jonathan Franzen —
É, elas acham pesado, mas a competição é o coração do sistema do mercado livre. Nunca conheci uma família na qual não houvesse competição.

Edney Silvestre — Eu venho de uma família grande. Sei do que você está falando.
Jonathan Franzen —
Pois é. Exatamente.

Edney Silvestre — Algo que eu considero importante que você mencione é parte deste ensaio. Aqui diz que o que mudou no sistema de publicações nos EUA foi a situação econômica. O livro que estava no topo da lista em 1955, Marjorie Morningstar, vendeu 190 mil cópias. Em 1994, A Câmara de Gás, de John Grisham, vendeu mais de três milhões de cópias. E, ainda, a publicação de livros subsidia Hollywood. O que você escreveu, certamente, não é um livro fácil de se adaptar para um filme. É claro que pode ser adaptado. Qualquer coisa pode ser adaptada.
Jonathan Franzen —
Você citou um ensaio que me fez questionar por que alguém se daria ao trabalho de escrever um romance numa era de imagens, televisão, cinema e internet. Da minha forma competitiva, sou um defensor ferrenho dos romances. Um dos meus objetivos é escrever romances que não podem ser transformados em filmes.

Edney Silvestre — Escreveria Orlando de novo.
Jonathan Franzen —
Pois é, até Orlando.

Edney Silvestre — Orlando virou filme.
Jonathan Franzen —
Exatamente.

Edney Silvestre — Um ótimo filme, aliás.
Jonathan Franzen —
Um ótimo filme. Exatamente. E, ironicamente, acabei trabalhando para a TV, tentando transformar As Correções num programa de televisão, mas, para o meu alívio, não deu certo. Eu passei, basicamente, um ano escrevendo roteiros, mas, por vários motivos, o piloto não ficou bom, e ele não foi escolhido.

Edney Silvestre — Quem era a produtora?
Jonathan Franzen —
HBO. A minha sensação era a de que meu livro tinha vencido não só o cinema, mas também a televisão.

Edney Silvestre — “Venci! Perdendo, eu venci!” Foi isso? Perdendo, você vencia?
Jonathan Franzen —
Por mim, como romancista que se importa com o romance, eu não me importo. Pode existir um filme a partir de Liberdade, mas gosto que o romance se destaque em sua forma. Acho que os romances têm prazeres únicos, como uma experiência única, uma experiência artística única. O romance pode fazer certas coisas que nenhuma outra forma pode chegar perto de fazer. É uma forma que você consome completamente sozinho. É uma forma que você cria com o autor. São palavras mortas na página, e você cria as imagens, você ouve aquelas vozes. Você sozinho, enquanto o leitor, é quem faz tudo isso. Por vários motivos, o romance não é como qualquer outra coisa. Umas das missões da minha vida é tentar manter essa tradição viva, manter o romance como algo com o qual as pessoas comuns podem se conectar e ter uma experiência intensa com ele. Espero que isso continue a inspirar os mais jovens a se tornarem romancistas. Nem todo mundo deve fazer televisão e cinema. Devemos ter romancistas, como vocês têm no Brasil. Mas, nos anos 1990, antes de eu despontar com As Correções, eu estava muito preocupado. Eu achava que os romancistas desapareceriam em 5 ou 10 anos.

Edney Silvestre — Depois você se tornou o grande romancista americano, na capa da revista Time. Posso imaginar, falando de rivalidade de rivalidade e competição, quantos romancistas americanos...
Jonathan Franzen —
Me odeiam.

Edney Silvestre — O odeiam!
Jonathan Franzen —
Exatamente.

Edney Silvestre — Eles adorariam tirá-lo do jogo.
Jonathan Franzen —
Pois é.

Edney Silvestre — Também disseram coisas não tão boas sobre você. “Uma mala pretensiosa.” Eu nunca tinha ouvido essas palavras juntas. Saiu na Newsweek.
Jonathan Franzen —
Isso foi na época da Oprah. É, isso foi daquela época.

Edney Silvestre — Porque você se recusou...
Jonathan Franzen —
É, eu ofendi uma billionária.

Edney Silvestre — Mas a Oprah também disse que você escreveu uma obra-prima, a Oprah ou seja lá quem produz a Oprah, quando Liberdade saiu.
Jonathan Franzen —
É. Liberdade e As Correções eram sugestões da Oprah.

Edney Silvestre — Isso é um sonho de, provavelmente, qualquer escritor americano.
Jonathan Franzen —
Nem de todos. Não dos de vanguarda. Mas eu acho que o problema foi que estávamos tentando fazer a mesma coisa. Acho que ela estava preocupada em expandir sua audiência à ficção mais séria, assim como eu, mas é necessário um ego muito grande para seguir com essa tarefa, tomar isso como missão. Daí, terminamos com dois grandes egos entre problemas e processos.

Edney Silvestre — Mas o resultado foi ótimo!
Jonathan Franzen —
O resultado foi ótimo para todos. E, então, finalmente, fui ao programa dela há um ano e meio.

Edney Silvestre — Como foi?
Jonathan Franzen —
Ela fingiu não se lembrar de nada que aconteceu.

Edney Silvestre — Como num casamento.
Jonathan Franzen —
É.

Edney Silvestre — Quando queremos manter o casamento, temos que fingir que nada aconteceu.
Jonathan Franzen —
É verdade. Ela é casada com seus fãs. Acho que a estratégia foi exatamente essa, era como um casamento. “Eu não me lembro de nada!” Ela disse isso.

Edney Silvestre — O sentido de liberdade, imagino eu, surgiu enquanto você decidiu deixar de lado “uma escrita purpurinada e adornada com joias”. Você deixou os personagens fluírem e falarem ao passo que eles surgiam. Algo assim.
Jonathan Franzen —
É. Em As Correções, eu era um escritor relativamente jovem, achando que o mundo não havia prestado atenção certa a mim, como todo jovem escritor sente. Eu queria que cada frase mostrasse do que sou capaz. Tenho muito orgulho de As Correções, mas eu sabia que não podia escrever melhor do que aquilo, mas eu tentei. A escrita era um tanto intrusiva, então, eu queria que ela não me atrapalhasse. Eu não queria que a escrita parecesse perdida, desorganizada, porque isso distrai o leitor cuidadoso. Eu queria que ela fosse transparente, e isso era novo para mim: tentar criar uma conexão o mais próxima possível entre os personagens e o leitor sem que a língua atrapalhasse.

Edney Silvestre — Qual é o próximo passo?
Jonathan Franzen —
Estou pensando num novo romance. Eu gostei muito de fazer jornalismo, não em tempo integral, mas eu adoro esse tipo de trabalho. Tenho orgulho disso. Estou ansioso em poder fazer mais. Espero que seja na América do Sul, talvez no Brasil.

Edney Silvestre — Muito obrigado.
Jonathan Franzen —
Obrigado a você.

Revista Consultor Jurídico, 2 de novembro de 2012, 8h00

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