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Ideias do Milênio

"Nigéria, nação moderna, ainda é um trabalho inacabado"

Wole Soyinka - 17/05/2012 [globo.com]Nigéria, um país dividido. A independência em 1960 não significou a união dos 300 grupos étnicos e culturais que compõem o país. A falta de unidade entre o sul, rico em petróleo, e o norte, agrícola, dava o tom das profundas diferenças econômicas. O conflito nigeriano que primeiro chocou o mundo aconteceu apenas sete anos após a independência. Quando o conflito terminou, em janeiro de 1970, as mortes chegavam a 3 milhões. Hoje, a cisão também é religiosa. Muçulmanos, católicos, protestantes, iorubas, hindus, entre outros, disputam seu espaço. A violência tem se intensificado com atentados e ataques de radicais muçulmanos a cristãos católicos e protestantes. Desta nação bela e conflitada, origem de tantos milhões de brasileiros, nasce a obra de Wole Soyinka. Por escrever e pregar a liberdade de expressão, Wole Soyinka foi considerado um bandido perigoso em seu país. Cartazes com a foto dele, procurado vivo ou morto, foram colocados por toda parte. Essa é uma das histórias que este dramaturgo, poeta, ensaista e romancista, premiado com o Nobel de Literatura em 1986 conta nesta entrevista exclusiva feita ao Brasil.

Edney Silvestre — Eu imagino que, por causa do Prêmio Nobel, seu senso de responsabilidade para com seu país e o que acontece tenha se tornado maior. O senhor sentiu que poderia fazer mais como um vencedor do Prêmio Nobel?
Wole Soyinka Não. Eu acho que não. Mas o que eu admito é que os outros esperam muito de mim. E não só no meu país, mas no continente todo.

Edney Silvestre — O senhor foi preso na época.
Wole Soyinka Eu passei por alguns batismos de fogo. Nem o Nobel impediu que eu fosse preso, já que vivemos uma ditadura. Eu fui declarado "procurado", fui acusado de crimes, com direito a cartazes de "vivo ou morto". Mas é maravilhoso ver o quanto você vale nos cartazes de "vivo ou morto".

Edney Silvestre — O senhor viu cartazes do tipo "vivo ou morto"?
Wole Soyinka Vi, sim.

Edney Silvestre — Eu estou sorrindo, mas não tem a menor graça.
Wole Soyinka Felizmente, eu pude sair do país a tempo. Mas o que era muito encorajador era que, à medida que a polícia afixava os cartazes à noite, as pessoas os tiravam durante o dia e à noite. Esse processo se repetia, então fiquei com algumas das cópias dos cartazes. Mas o Nobel não... Muitos acham que ele nos protege. Até certo ponto, ele ajuda a proteger, mas há monstros que gostam de colocar no currículo: "enforquei um laureado do Nobel". Acho que há pessoas assim...

Edney Silvestre — ...que gostariam de ter a glória de matar alguém como o senhor. Em algum momento, o senhor fundou um partido político.
Wole Soyinka Exato. Foi uns três anos atrás. Os partidos políticos existentes praticamente fecharam os caminhos para os jovens, então fundei um partido para os jovens. Eu o criei e disse: "esta é a sua plataforma. Já que vocês não querem estar associados a outros partidos e, quando são, vocês veem que não têm espaço para suas ideias, vamos criar um partido para vocês". E foi exatamente o que eu fiz. Mas, mais uma vez, foi um erro, pois o efeito foi o oposto.

Edney Silvestre — Foi?
Wole Soyinka Foi. Porque a ideia era: "Este partido é de vocês, administrem-no." Mas eles me procuravam sempre.

Edney Silvestre — O sábio do lugar, com cabelo branco.
Wole Soyinka Foi um grande erro. Eu ainda passo bastante tempo com eles, mas eu me chamo de "agregado". Eu não tenho nenhuma posição no partido.

Edney SilvestreA existência da Nigéria como nação sem uma unidade cultural, histórica ou econômica significa que a Nigéria não é viável ou é preciso haver maneiras para ter pessoas diferentes, de culturas diferentes, de religiões diferentes? Isso é possível ou é uma utopia?
Wole Soyinka Não, não é uma utopia. É preciso lembrar que vários países, não só a Nigéria, foram criados pelo poder colonial em seu próprio benefício, não em benefício das pessoas, desrespeitando os limites geográficos das comunidades orgânicas. Porque há várias nações em um país como a Nigéria. Não é apenas uma nação, há várias nações. Podem chamá-las de "tribos", de "nacionalidades étnicas" e todas essas outras expressões, mas, na realidade há várias nações dentro da Nigéria. Assim, a Nigéria, como nação moderna, ainda é um trabalho inacabado. Os povos têm histórias variadas, culturas variadas, economias variadas...

Edney Silvestre — E bases econômicas.
Wole Soyinka Mecanismos econômicos e de produção variados, bem como relações comerciais com povos do outro lado da fronteira. Em suma, as fronteiras são artificiais, e as pessoas dentro das fronteiras coloniais estão tentando criar nações coesas nesses territórios. Mas o ponto que você levantou é que eles querem aceitar o fato de que são um conglomerado de nacionalidades no qual se trabalhe, em total liberdade, sua própria existência autônoma, em diversas modalidades de coabitação. Como se chama esse sistema? Federalismo? Confederação? O que for. O sistema de cantões, como a Suíça, por exemplo. Mas não apenas lenientemente seguir o padrão que foi determinado por forças externas. Este é o problema de países como a Nigéria. As pessoas, as nacionalidades, não fazem parte da liberdade delas, para que digam: "Vamos resolver como vamos conviver." Assim, há conflitos étnicos amanhã, confiltos religiosos no dia seguinte, suspeitas, planejamentos economicos desiguais para o país. Isso cria todo tipo de tensão.

Edney Silvestre — E a não aceitação das crenças religiosas dos diferentes grupos. Isso é um dos problemas mais sérios da Nigéria, a meu ver.
Wole Soyinka É verdade. Mas quando esse problema começou mesmo? Eu cresci em uma comunidade de diferentes fés. Embora eu tenha sido criado em um lar cristão... Na época do Natal, se, por exemplo, minha família não mandasse bolo de Natal ou peru para os vizinhos muçulmanos, eles bateriam na nossa porta para perguntar o que aconteceu. No Ramadã, se não ganhássemos um pedaço do cordeiro sacrificado, nossa família perguntaria: "o que está acontecendo? Nós estamos esperando o pedaço do cordeiro para cozinhá-lo." E assim era no país todo. Havia áreas predominantemente muçulmanas, áreas predominantemente cristãs, mas havia também outras religiões, como a crença nos orixás. E todas elas sempre conviveram de modo bastante pacífico. Às vezes, havia algum pequeno conflito, o que acontece em qualquer lugar, até nos países europeus. Mas o nível de conflitos sanguinários que vemos hoje é uma doença importada do fundamentalismo religioso e da religião política, que tem ocorrido no mundo todo. A África não pode esperar ficar imune quando há pessoas que têm um conceito de um reino universal de Deus, Alá ou do que for. É inevitável. E, obviamente, os políticos se aproveitam do oportunismo desse tipo de força, que é basicamente estranho às tradições do país. Então eles manipularam as diferenças religiosas até que, hoje, temos uma desunião que divide a nação. Isso não acontecia quando eu era criança. Eu cresci com pessoas de todas as religiões. Na escola pública onde eu estudava, os muçulmanos podiam orar a seu modo, os adventistas, os anglicanos, os católicos... Parecia a maneira mais natural e sensível de convivência. Mas, agora, a política global foi injetada na Nigéria e em outros países africanos, junto com alianças ideológicas e alianças religiosas. E o que aconteceu no Iraque e no Afeganistão, nós estamos testemunhando na Nigéria hoje.

Edney Silvestre — Isso pode ser mudado?
Wole Soyinka Bem, eu espero que sim. Nós estamos propondo uma conferência genuína e autêntica de nacionalidades, na qual todas as culturas, todas as religiões e todas as tendências ideológicas se reúnam em um debate nacional, para que se parta daí. Na minha opinião, que é a opinião crescente de vários nigerianos, até isso ser feito, só estaremos remendando as opções, sem tratar do desconforto latente, sem tratar da questão de que as pessoas são doutrinadas, desde a infância, para odiar outras religiões. São escolas de doutrinação do ódio.

Edney Silvestre — Escolas do ódio.
Wole Soyinka Escolas do ódio. E esse é o legado que estamos deixando aos nosso filhos.

Edney Silvestre — O senhor não acredita que a paz seja possível?
Wole Soyinka Eu acho que é possível, mas as pessoas devem ser reeducadas. E é preciso haver uma compreensão mútua e a percepção de que alguns tipos de pessoas não irão se converter por meio da força. Elas preferem morrer e se defender a se curvar a uma nova forma de imperialismo. Ninguém vai rejeitar o imperialismo externo europeu e aceitar o imperialismo religioso, aliado a organizações terroristas em outros países. Até que entendam isso, eles vão matar praticamente todo mundo. E eles estão se saindo bem nisso. São massacres diários, massacres na Páscoa. Isso é muito preocupante. Muito preocupante.

Edney Silvestre — Quanto da cultura ioruba permeia seu trabalho?
Wole Soyinka Meu trabalho é... Acho que as raízes do meu trabalho vêm, em primeiro lugar, da cultura ioruba. Eu cresci com uma tradição de teatro e contadores de histórias, que era, em grande parte, ioruba, na maior parte, ioruba. Meu primeiro trabalho foi a tradução de dialeto nativo para o inglês de um romance ioruba: "Forest of a Thousand Daemons". Inevitavelmente, esse tipo de literatura sempre permeou o meu ambiente literário, desde o começo. E minha exploração da condição humana em geral tem como base a condição humana do ambiente em que eu vivia. Acho que isso é a coisa mais natural do mundo.

Edney Silvestre — É, se você respeitar e quer que sua cultura seja conhecida. Ou você pode fazer o que o professor faz na sua peça e estar disposto a ver as florestas serem destruídas, a ver a mulher que ele ama e com quem quer casar alisar o cabelo, usar salto alto, passar batom etc. As intenções dele eram boas, eram claramente boas, mas ele adota uma cultura diferente.
Wole Soyinka Ele não a adota realmente, ele adota os aspectos superficiais dessa cultura. Eu não vejo nenhuma surpresa em se sentir atraído por outra cultura, querer conhecer aspectos dela, pelo menos, e torná-los parte do seu estilo de vida. Mas o que aconteceu com muitos dos que eu chamo de "geração pós-colonial"... Não, com a geração colonial, pré-independência...

Edney Silvestre — Que é a sua geração, de certo modo.
Wole Soyinka É, sim. Eles observaram os aspectos das civilizações e culturas criadas e tentaram impor isso às suas próprias culturas nativas. Eles levaram o catecismo dos missionários britânicos com tudo o que tinha direito. Primeiro, você tem que virar cristão, então tem que adotar os modos de vida cristãos, que iguala a civilização, o indivíduo aculturado. Ele sente que sua cultura é atrasada, e tudo relacionado a essas culturas deve ser rejeitado. Mas, obviamente, havia mentes muito fortes que não aceitaram isso. E eu certamente achava minha própria cultura rica e fascinante demais para ser rejeitada por qualquer sermão externo.

Edney Silvestre — Ainda que você tenha tido uma educação "ocidentalizada"?
Wole Soyinka É, mas a ironia é que, por exemplo, minha ida para a Universidade de Leeds aprofundou meu apreço pela minha cultura. Essa é a realidade. Isso o aprofundou. Talvez eu sempre tenha tido uma mente corporativa. Vou dar um exemplo. Na biografia da minha infância, "Aké", eu narro... Eu fui criado na igreja cristã, eu ia à igreja todo dia, frequentava a escola dominical... E eu fiquei cansado disso muito cedo, é o que tenho a dizer. Porém, o que eu queria dizer era que, na igreja, onde víamos os vitrais com as imagens dos santos, o que víamos, acima desses vitrais, eram as máscaras ancestrais da minha cultura. Eu as via como os egunguns do outro lado. Era o que parecia para mim. Eu não as via como representações gráficas. Eu as via como algo equivalente ás máscaras da cultura ioruba. Isso me fez compreender, muito cedo, como a cultura ioruba, que é tão forte no Brasil... Acho que muitos escravos tiveram uma criação parecida, no que se refere à condição mental. Então eles não viam diferença entre os santos católicos e algumas divindades iorubas. Mas há algo sobre a cultura ioruba que se recusa a ser totalmente dominada

Edney Silvestre — Mas, em casa, o senhor era incentivado a permanecer próximo da cultura original?
Wole Soyinka Não. Não na minha família próxima. Mas meu avô... Eu cresci perto dele e fiquei feliz de ver que ele ainda era ligado à sua religião tradicional, mesmo depois de ser batizado e de receber um nome cristão. Ele ainda frequentava o conclave tradicional de anciãos. Sua linguagem, seus gostos e seus amigos eram praticantes dessa cultura anterior, então...

Edney Silvestre — E ele colocou o senhor sob as asas dele.
Wole Soyinka Ele me colocou sob as asas dele, bem como seus amigos, e eu mal podia esperar para a festa de Ano Novo, para me reintegrar na cultura dele. Eu simplesmente preferia aquela cultura, não me pergunte por quê. Mas eu a considerava mais rica, talvez porque fosse próxima à natureza, e eu sou uma criatura da natureza, sempre. Então talvez isso tenha me levado tão visceralmente às divindades iorubas e, do mesmo modo, à cultura, aos costumes iorubas e daí por diante. Tanto o folclore quanto a mitologia fazem parte do meu trabalho desde a infância.

Edney Silvestre — O que deveria ser ou é o caminho da literatura em países como os nossos em países em desenvolvimento?
Wole Soyinka Bem... Eu não vejo a literatura como uma faceta do desenvolvimento. É claro que ela me atrai muito, porque é minha profissão, é o que eu faço. Mas eu não vejo a literatura ocupando um lugar único no desenvolvimento de nenhuma nação. A literatura, se você quiser simplificar, pode ser dividida em dois grupos. Há uma forma de literatura com um alvo imediato estabelecido cujo objetivo é penetrar através da sociedade com urgência, podemos dizer. Em outras palavras, a literatura escrita de modo a se tornar quase uma força de guerrilha, quer ela seja adaptada para o teatro, nas ruas, ou quer se criem polêmicas ou sejam publicadas em forma de pequenos contos ou poemas nas páginas literárias dos jornais que defendem aquela causa. Então eu vejo a literatura mais ampla, que eu digo pertencer à visão dos burocratas. Ela existe, está bem arraigada e realiza um lento processo transformador. O que você consome naquele momento é quase como o alimento que fica no rúmen dos ruminantes. Ele regurgita o alimento de tempos em tempos, para lembrar, como pontos de referência a partir dos quais a pessoa cria modelos de possibilidades humanas. Então, há também esse tipo de literatura. Vou ter que simplificar muito a minha resposta, mas, respondendo a essa pergunta do meu ponto de vista de consumidor, é assim que eu lidaria com a literatura. Eu faço os dois tipos de literatura, e isso faz com que eu me mantenha em forma, não desatualizado ou enferrujado.

Revista Consultor Jurídico, 18 de maio de 2012, 5h39

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