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Direito & Mídia

As fotos da atriz e o elogio do decoro

Por 

Caricatura: Carlos Costa - Jornalista [Spacca]No início dos anos 1960, fui estudar em um seminário. E os padres e professores insistiam no que se chamava de “decoro”, com recomendações de não se expor em público (ou seja, não se pentear ou cortar as unhas na frente dos colegas), a subir escadas sem saltar degraus de três em três, a cultivar o que se chamava de bons modos. E uma nota era lançada no boletim quinzenal sob o título de “urbanidade”.

O sociólogo Norbert Elias escreveu um primoroso tratado sobre o longo aprendizado pelo qual passou a humanidade. Em seu livro O Processo Civilizador (dois volumes, editora Zahar), ele acompanha a caminhada do homem até produzir o que chama de “o corpo civilizado”. Nesse processo, houve busca por normas para a convivência em sociedade, pois as pessoas já não viviam isoladas em seu vilarejo, mas trafegavam e circulavam, convivendo diariamente com um número crescente de estranhos, vindos de outras regiões e de outras classes sociais.

Na segunda parte do século XIX, com as invenções da máquina a vapor, dos trens, do telégrafo e a abertura de canais como o de Suez, encurtando as distâncias, o mundo começou a ficar pequeno. E aconteceu a inversão: antes anormal e surpreendente era a vista de um estranho ou estrangeiro, pois durante toda a vida um cidadão convivia e cumprimentava sempre as mesmas pessoas, quase sem nunca sair de seu pago. Agora, o que passa a chamar a atenção é o encontro de um conhecido. Quantas vezes, ao circular em um shopping, cruzamos com um velho amigo e nos surpreendemos? A frase costumeira é “Você por aqui! Que mundo pequeno”. Ou seja, encontrar conhecidos, que era o comum até o século XIX, agora é a surpresa, num mundo em que vivemos rodeados de “estranhos”.

Ensina Norbert Elias que a convivência nesse novo ambiente urbano e pós-industrial só se fez suportável mediante a automatização de um número infindável de regras de controle corporal. Ele cita manuais clássicos, como A Civilidade Pueril, em que Erasmo de Rotterdam ensinava, ainda no século XVI, a ter controle sobre a expressão do olhar, a não encarar o outro, a ser cortês. À mesa, esses manuais ensinavam a não limpar os dentes com as pontas das facas, a não se servir com a própria colher da sopeira colocada à disposição de todos, a não assoar o nariz na toalha da mesa ou na manga da camisa: levava-se um lenço no bolso para esse fim.

Isso não precisa mais ser ensinado hoje: aprendemos a olhar respondendo a olhares que nos são dirigidos, e a não encarar despudoradamente a ninguém. E tudo o que hoje nos parece óbvio, como não soltar gases à mesa ou não trafegar nu perante os outros, foi na realidade incutido no comportamento ocidental ao longo de séculos de trabalho “civilizador”. “O lenço, o garfo e a camisola, três objetos que servem para separar os homens de suas funções corporais e cada corpo do corpo do outro, foram mais ou menos adotados simultaneamente nas sociedades de corte. Nos moldamos porque queremos ser aceitos diante do rei e perante outros nobres”, escreve Elias.

No entanto, hoje, constrangidos, subimos no elevador em companhia de jovens casais que se agarram em beijos derramados, sôfregos, lúbricos — algo que em outros tempos se fazia, quando se fazia, a portas fechadas. Alguém poderá dizer que são coisas da modernidade, mas volto a pensar nessa falta de decoro que se tornou uma das marcas dos dias atuais.

Numa média de quatro vezes por semana, a caminho da faculdade ou na volta para casa, costumo tomar o ônibus Brasilândia–Ana Rosa, que em seu trajeto percorre a rua onde moro em Perdizes. Coleciono uma bela amostra de conversas de passageiros em alto som, no celular. Há a história da moça que confessa para o ex-namorado (e para todos os usuários do coletivo) que o havia traído, pois “foi mais forte do que eu”. A da senhora, descuidando o filho que grita, dando reiteradas instruções pelo celular a uma amiga para fazer um beó (boletim de ocorrência) contra a vizinha que a atacara com uma faca. Ou a da jovem que briga com a mãe, também por celular, e declara aos berros: “A senhora não vê que eu estou menstruada?”

Fico chocado com esse palavreado que escancara as intimidades, como esta manhã me chocou ouvir a apresentadora Ana Maria Braga dizer um palavrão (“estamos todos f...”) em uma entrevista com um especialista em nutrição, em seu programa matinal na TV Globo.

Aos poucos — e de forma acelerada — vamos perdendo o que durou séculos para ser construído: o homem civilizado. Há uma confusão entre o público e o privado. E, sobretudo, a necessidade de tornar público o que por decoro deveria ser privado. E nem estou pensando nas maracutaias que acontecem no âmbito dos Legislativos e dos Executivos, sejam federais, estaduais ou municipais, de confundir o interesse público com o privado (como a notícia do ex-diretor da Prefeitura de São Paulo que comprou em 2008 um apartamento de R$ 1,2 milhão pela bagatela de R$ 242 mil). Mas de coisas simples, como a de fotos de intimidade. Seria óbvio dizer que vivemos o auge da civilização big brother, em que há forte necessidade de mostrar o que deveria ser reservado.

O recente episódio das fotos da atriz Carolina Dieckmann faz parte desse cenário. As fotos íntimas foram roubadas e a atriz chantageada, as imagens publicadas em site da internet. Nesta terça-feira (15/5), hackers postaram essas fotos no site da Cetesb (Companhia de Tecnologia de Saneamento Ambiental), e novamente fez-se o carnaval. A atriz teve matéria de 4,5 minutos no Jornal Nacional. Nada a declarar, pois o nascimento da filha da apresentadora Xuxa mereceu reportagem de 14 minutos no mesmo programa, um dado histórico deste jornalístico.

Num momento crítico por que passa o país, sem um projeto claro de desenvolvimento, com uma dívida imensa de reformas (tributária, política), com jogadas midiáticas contrapondo a CPI “do Cachoeira” com o julgamento do mensalão, transformar a “facada no peito” das fotos da atriz em tema número 1 é mesmo um retrocesso. Seria bom que todos passassem pelo crivo nas notas quinzenais de urbanidade.

 é jornalista, professor da Faculdade Cásper Líbero e editor da revista diálogos & debates.

Revista Consultor Jurídico, 16 de maio de 2012, 17h10

Comentários de leitores

14 comentários

Vivência consciente

Gilberto Strapazon - Escritor. Analista de Sistemas. (Consultor)

Correto Fernando. Existem riscos e são verdadeiros. Não os ignoro em absoluto. Veja, vamos para outro exemplo. Quem escala uma montanha está sujeito a diversos fatores de risco. Pedras soltas, falta de ar, avalanches, torcer um pé. Nas minhas incursões vi pessoas se lesionando simplesmente porque não cuidaram de usar uma meia correta e amarrar direito o cadarço do calçado. Mas ao invés de deixar de escalar, aprende-se a dominar as técnicas para interagir neste ambiente hostil e ter o máximo possível de recursos disponíveis no caso de alguma adversidade. É um risco real, e muitos consideram este esporte, uma tentativa de suicidio. Mas ficar jogando dominó na praça também pode ser arriscado. Tem locais em que alguns se aproveitam da distração dos jogadores, ou simplesmente pode cair um galho de uma árvore. Não é muito diferente da questão "urbanidade", assunto que dá a entrada no artigo. Conviver em sociedade não difere muito com os cuidados necessários para andar pela natureza. Simplesmente caminhar pela mata ou numa área montanhosa, sem cuidar do que se faz é um risco enorme. Visite uma caverna e rapidamente vai ser lembrado de que o teto pode estar muito baixo, é preciso olhar para todos os lados. Cuidar muito onde pisa pois as pedras soltas no chão não tem o assentamento causado pela chuva e vento. Podem estar equilibradas de forma precária. Ou estarem escondendo, da mesma maneira, um buraco profundo. Temos paralelos com as tecnologias. Elas trazem conforto e muitas novas oportunidades. Mas é como deixar de andar pela mesma trilha e adentrar-se por labirintos desconhecidos. Quem coloca música alto dentro do ônibus, perturba os demais. Mas também pode ser vítima dele próprio, ao deixar de ouvir um grito de alerta. PP.

Sr. Gilberto (a. De sistemas)

Fernando José Gonçalves (Advogado Sócio de Escritório)

Respeito totalmente a sua opinião e acho mesmo que a sua defesa, feita em prol da garantia da privacidade é absolutamente válida. Ocorre que somos produto do meio em que vivemos (quer se queira ou não).Se o Sr. hoje for viajar para o exterior e for 'escolhido' para ser revistado, pode ter certeza de que se não concordar não embarca. Se for adentrar num banco e for barrado na p.giratória, terá que colocar todos os objetos de metal no guarda-volumes,ou n/entra.Se for fazer uma visita a um cliente ou mesmo amigo numa grde.empresa,terá que aceitar ser fotografado no atendimento,caso contrário não subirá.Se estiver na rua (local público)nem assim poderá impedir de ser fotografado por câmeras discreta e estrategicamente instaladas. Se for a um Motel não poderá ter a certeza de que sua privacidade estará resguardada,infelizmente.Se filmar/gravar sua intimidade e inserir as imagens num computador estará a mercê de racker's; de empresas de manutenção de aparelhos, etc.,principalmente se for uma pessoa pública, já, por força disso mais exposta, e alvo de maior curiosidade alheia.Se for mulher,bonita,sarada e famosa, nem se fale. Entenda,n/sou eu que quero que as coisas sejam assim,nem estou criticando a exposição gratuita de quem acha que todos tem que respeitá-la, apenas,como cidadão,ciente de que tudo isso é verdade e acontece diariamente,procuro não correr riscos desnecessários que as vezes se transformam em danos irreparáveis (caso da atriz),porquanto ainda que se prendam os invasores da sua privacidade, o estrago já foi feito e n/tem volta.Insisto somos produto do meio e quem n/se adapta a ele, dança, só isso. Um abraço.

Direitos?

Gilberto Strapazon - Escritor. Analista de Sistemas. (Consultor)

Caro Fernando José Gonçalves. Se eu concordar com sua última colocação em que expôe como sendo natural e algo que deveria ser aceito, a invasão total da vida privada eu estaria aceitando a tirania, a opressão, a histórica luta dos que se recusam a serem meros objetos, joguetes nas mãos de alguns que buscam impor seus valores pela força. A repressão das mais básicas liberdades humanas é o mecanismo mais usado pelos tiranos, sejam políticos ou religiosos. Se eu temer pela minha integridade pessoal pela possibilidade de algum pervertido sem escrúpulos me assaltar, e ser elogiado pela seu ato criminoso, também temerei por tudo o que faço e deixarei de acreditar na justiça e na possibilidade de uma real evolução da espécie humana. Eu estaria aceitando a volta da barbárie da era das trevas, das câmaras de tortura de tantos séculos que serviram basicamente para impor na marra, desejos egoístas e mesquinhos de dominação, de satisfação unicamente pelo jugo através da violência e incapacidade de aceitar divergências e por um imenso medo de que alguém nalgum lugar possa estar sendo feliz.
Se alguém acha que um cidadão que não faz nada fora da lei, não tem o direito de privacidade dentro de sua moradia, então me desculpem, mas é difícil imaginar em que tipo de valores ou caráter possam estar falando. Isto não é urbanidade, muito menos civilidade. É escravidão e tirania pura e simples.

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