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Senso Incomum

O que fazer quando sabemos que sabemos!

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Era uma vez um povo que vivia em uma floresta (ouvi essa estória lá no Mato Grosso do Sul, de um promotor de Justiça, querido amigo e aqui faço a adaptação). Esse povo era vegetariano; não sabia dos prazeres da carne (fixemo-nos, fundamentalmente, na ambiguidade da expressão). Com a falta de predadores naturais fez com que a população de porcos explodisse. O ecossistema funciona desse modo. Ausência ou fracasso de predadores[1] resulta no aumento do elemento a ser predado. Certo dia, um incêndio, fortuito, dizimou parte da floresta, queimando muitos porcos. O povo sentiu pela primeira vez o cheiro de leitão à pururuca...! E caiu de boca. Desbragadamente. Passado algum tempo, as pessoas queriam mais carne assada. O que fizeram? Se você pensa que foram caçar porcos, enganou-se. Na verdade, foram incendiar mais florestas. E assim se sucedia. Fome por carne, florestas ardendo. Claro que, com o tempo, vinhos caros (de até 30 mil pés de porco – logo, abaixo, entenderão o que é pé-de-porco-PDP) passaram a fazer parte do cardápio...!

Com o tempo, as florestas escassearam. Era inexorável. Fome por carne, floresta no chão. Então alguém teve a ideia de plantar novas florestas, para que pudessem ser logo queimadas e, assim, assar mais porcos. Porcos. Muitos porcos. Só se falava nisso. E assim se fez. Mesmo assim, faltou floresta. Então, implantaram faculdades onde se estudavam técnicas pelas quais se plantavam árvores que cresciam mais rapidamente e, assim, mais porcos podiam ser assados...

Inventaram novos métodos de plantação de florestas. Com isso, multiplicaram o espaço plantado. E inventaram modos de queimá-las mais rapidamente. Outra técnica inovadora proporcionou a aceleração do tempo de crescimento das árvores, fazendo com que estas se desenvolvessem vinte vezes mais rápido que o normal. Chamaram a isso de “fator Palloci” (parece que o nome científico era Verbalaif – quer enriquecer? Pergunte-me como...). Também inventaram florestas do tipo “classe A”, que, uma vez incendiadas, já produziam porcos temperados. Suculentos. E sem colesterol. Chamavam a isso de “fator cachoeira”... E “efeito” Delta, empresa “reflorestadora” que recebeu 182 milhões de pés de porco do DNIT (Depto de NITroglicerina pura) referente a 18 obras de plantações de florestas, que, como já vimos, eram incendiadas para que o povo pudesse comer porcos assados. A “Delta Florestalis” tinha quase 8 bilhões de pés de porco de contratos com o governo de terrae florestalis. Pelos “efeitos Delta-Cachoeira”, bastava ligar para a esposa e receber em cash (quer dizer, em notas de 50 pés de porco). O povo chamava a isso de “Operação Professor”. Era “professor” prá lá, “professor” para cá...

E a Polícia Federal de terrae florestalis escutava tudo. E a todo mundo. Era uma “arapongagem” só (também, no meio da floresta, araponga só pode se dar bem!). Como no Big Brother (não o da Globo,[2] mas do livro 1984, do Orwell). Com ou sem ordem judicial. E largavam tudo aos pouquinhos. Para sangrar o porco (desculpem o trocadilho). E, o mais importante: todos ficavam sabendo das conversas antes mesmo dos próprios escutados. Era incrível essa terrae florestalis.

Na medida em que aumentava o consumo de porcos assados e se multiplicavam as plantações de florestas e, claro, as queimadas, também aumentou a logística e a infraestrutura daí decorrente. Criaram um sistema complexo de controle estatal do plantio de árvores, das queimadas, dos impostos sobre os porcos, da venda de fósforos, tochas, emissão de moeda, etc. Claro. Na medida em que aumentava a demanda por porcos assados e a quantidade de florestas incendiadas se multiplicava, o “Estado-Floresta” foi se complexando. Siglas e mais siglas. Criaram controladorias, corregedorias, polícias (de vários tipos), ministérios públicos, juizados (comuns e especiais), tribunais, defensorias, TC’s (Us, Es e Ais...). Muitas procuradorias. Sim, muitas. O Estado-Floresta aumentava, dia a dia, a sua máquina. E todos queriam trabalhar nessa máquina. E, como acontecia ao redor dos castelos no medievo, foram proliferando escolas, cursinhos, cursinhos de preparação para ingressar nos cursinhos (algo do tipo “embargos dos embargos dos embargos...”). Tudo para controlar esse “sistema”, que, na verdade, funcionava como um estado de natureza. Para ter uma ideia, um partido político foi fundado por um Prefeito da maior província usando fundadores de fachada. E ninguém conseguiu detectar.

Sim, havia muitas consultorias, também. Principalmente de ex-ministros. Grandes “intelectuais”. Eles eram muito bons. E cobravam bem pelo trabalho de “responder consultas”. Também havia muitas ONG’s. Quase uma epidemia. Tudo gravitava em torno do “florestão” (nome carinhoso do Estado-Floresta). Festas! Algumas começavam na cidade maravilhosa e terminavam na cidade-luz... Um senador (socialista!) gastou 25 mil pés de porco (revelado o mistério: essa era a moeda daquele país) com dentista, mandando a conta para o Senado (sim, havia Senado). Claro, para comer tanta carne, bons dentes. Uma deputada foi absolvida de corrupção, mesmo com uma filmagem mostrando tudo. Disseram que “nem tudo que parece é...”. Eles eram bons na discussão da prova.

O escândalo mais recente gerou uma CPI[3], para investigar a relação entre água e vinho (percebem? Da Cachoeira jorram vinhos caros, carros, caminhões, dinheiro, poeira, estrada, tudo, tudo...), assim como os respingos disso nos diversos setores governamentais (e de oposição, bastando, para tanto, ver a participação do Deputado que “ajudava” Charles Waterfall – esse era o protagonista principal – a conseguir vistos para os EUA).

Sim, o capitalismo de terrae florestalis se sustentava nos “laços sociais”... Dessa CPI participaram deputados cujos nomes aparecem nas gravações que deram origem à CPI (os deputados ainda não sabem, mas o povo que lê os jornais já sabe, porque a polícia liberou as escutas...). País transparente é isso; quer saber sobre a vida de alguém? Disque 0800 – PF e tecle 1, para saber se o senador, empresário ou deputado toma vinho; tecle 2, para saber sobre suas amantes; tecle 3, para saber o que ele vê na TV; tecle 4, para saber se houve empréstimo de jatinho; tecle 5, para saber se o dinheiro será pago em notas de 50, daquelas depositadas em sacos plásticos na cozinha; disque 6, para saber como foi a comemoração do aniversário do dono da Delta em Paris e se o beijo que ele deu na noiva foi de língua ou não... e assim por diante; tecle 9, para voltar ao menu principal ou 0 para apagar a mensagem, na hipótese de seu próprio nome fazer parte da escuta. Nunca se sabe...!

O que mais se lê hoje em dia é “diálogos citam...” e “as escutas a que somente o jornal teve acesso revelam...”. As “escutas” viraram “entidades metafísicas”. O que mais se respeita na República são “as escutas”. Ter “escutas” é como ter a camisa 10. Respeito é bonito. As “escutas” possuem status ontológico (clássico, é claro). Viraram “coisas”. Sim, houve a “reificação” das escutas. As “escutas” parecem senhoras de grandes proporções, com laquê no cabelo, orelhas grandes... Logo, as “escutas” serão lançadas na bolsa de valores. Eu mesmo quero comprar várias. A República depende das escutas! Pelas “escutas” descobrimos coisas maravilhosas como “o vice-presidente do PRP é pai do presidente do PTdoB, que por sua vez é parente do presidente do PRTB”. E que o tio do chefe de gabinete do governador é presidente do PRP, que, segundo o Charles Waterfall, é P de pato, R de ratazana e P de pato... (essa “ratazana” é licença poética minha...).

O mais interessante é a metalinguagem perceptível na manchete do jornal Folha da Floresta: “Escutas mostram interceptação ilegal de e-mails”. Que coisa, não? E essas escutas eram legais? Se não eram, zero a zero. Seria a ilegalidade da ilegalidade, o que leva a um paradoxo: se todos se escutam, quem será o último escutado? Haverá um escutador do escutador? Mesmo assim, isso pode levar ao infinito, porque sempre haverá outro escutador. A menos que se institua um “escutador fundamental”, espécie de Grund-zuhörer (em alemão, fica mais charmoso), ou seja, um escutador que é fundamento para todas as escutas, como a Grundnorm (a norma fundamental kelseniana)... Quem quiser resolver isso melhor, leia sobre o Trilema de Münschausen, que o Hans Albert desenvolve (ou veja no meu Verdade e Consenso, p. 213). O fundamento do fundamento... Por tudo isso, o filme mais visto em Brasília é Das Leben den Anderen (A Vida dos Outros). Lembro da Staatssicherheitsdienst (a “popularmente” conhecida Stasi, para quem não sabe, era a organização de inteligência e polícia secreta em atividade na República Democrática Alemã, a Alemanha Oriental).

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 é procurador de Justiça no Rio Grande do Sul, doutor e pós-Doutor em Direito.

Revista Consultor Jurídico, 10 de maio de 2012, 8h32

Comentários de leitores

14 comentários

Excelente!

Cirilo Rivera (Advogado Autônomo - Civil)

Quando Raymundo Faoro escreveu Os donos do poder – em contraposição a hegemonia marxista no ambiente acadêmico – novas categorias foram utilizadas para a compreensão do velho modelo de dominação política que havia se estabelecido no Brasil. Em vez da luta de classes entre burgueses e proletários, Faoro analisou as relações de poder a partir de dois conceitos weberianos: o estamento e o patrimonialismo. Para ele, o Brasil era patrimonialista no conteúdo e estamental na forma. Ou seja, acima das classes sociais se encontra(va) o estamento burocrático, apropriando-se da coisa pública para sustentar interesses meramente privados. Tucanos, petistas, democratas (somente no nome), comunistas de fachada (PC do B), banqueiros, bicheiros, empresários, sindicalistas, latifundiários, usineiros, esquerdistas e direitistas, proprietários de revistas e jornais para todos os gostos ideológicos... Enfim, todos eles se esbalda(va)m o máximo possível com os recursos públicos! Desse modo, mais uma vez parabenizo o professor Lenio pela lucidez com que tratou todos esses problemas no presente artigo.
Obs: E ainda existem certos “sociólogos” que afirmam que precisamos mais de Marx para compreendermos a democracia. Ou esses protótipos de “sociólogos” não sabem o que é Marx, ou ainda não descobriram o que é democracia!

Conta outra....

Radar (Bacharel)

Interessante o artigo. Esqueceu de mencionar que, nesta floresta, estranhamente, ou não, o único porco que não queima é o "PIG", e ainda lucra dos dois lados. Bem, mas aí já seria pedir demais ao ilustre articulista... A revista de fofocas está na defensiva, e o partiria para cima do contador de histórias.

porcos togados e becados

galo (Outros)

Oor essas e outras o PT é conhecido como "porcada faminta". Mas faltou falar sobre as varas (coletivo de) de porcos, onde os "porcos togados" sujos da lama da floresta, faltou também falar daqueles porquinhos que usam fitinhas vermelhinhas nas suas roupinhas negras "que fiscalizam a lei" e só fazem "jogo de cena" para que os porcalhões possam continuar a roubar e a beber vinho de R$ 30.000,00 a garrafa, e seus advogados possam cobrar honorários de R$ 18 milhões de reais. É claro que o dinheiro veio do "trabalho honesto" do cliente!
Moral da história:SOMOS TODOS PORCOS, UNS POR AÇÃO, OUTROS POR OMISSÃO

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