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Embargos Culturais

A arte do convencimento em Platão

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Caricatura: Arnaldo Godoy - Colunista [Spacca]Uma das mais seguras fontes de informação sobre a vida de Platão encontra-se na obra de Diógenes Laércio, Vida e Doutrina dos Filósofos Ilustres. Diógenes Laércio teria vivido no século III.

Segundo esse grande biógrafo, Platão nasceu em Atenas, filho de Aríston e de Perictione (ou Potone), o que fazia sua ascendência recuar a Sólon. É por Platão que conhecemos Sócrates, ainda que haja também referências a Sócrates em Aristófanes e em Xenofonte.

Em Atenas, Platão fundou e manteve uma escola chamada Academia; conservavam livros e coleções científicas, debatiam todos os assuntos que interessam à natureza humana. O encontro com Sócrates teria mudado a vida de Platão; isto é, se Sócrates verdadeiramente existiu.

No diálogo Górgias, Platão teorizou a oratória e a retórica. Sócrates perguntou a Górgias que nome dar à arte que com proficiência ele dominava. Górgias respondeu tratar-se da oratória. Rebateu Sócrates: "Devemos, pois, chamar-te um orador?" Para Górgias, a oratória trataria da proficiência das palavras. Palavras, que segundo Górgias, cuidariam dos assuntos humanos mais importantes e nobres.

Platão antecipou-se a Aristóteles e esboçou a divisão da oratória em três gêneros: deliberativa, judiciária e de aparato. Respondendo a Sócrates, Górgias teria afirmado que a oratória consistiria no poder de, pela palavra, convencer os juízes do tribunal, os senadores do conselho, os debatedores na assembleia e em todo outro ajuntamento onde se reunissem cidadãos.

Sócrates continuava o diálogo definindo a oratória como produtora de persuasão. Reconheceu, no entanto, que a oratória não seria a única forma de convencimento: a aritmética também persuade!

Górgias esquivou-se, invocando que a retórica cuidaria tão somente de persuasão nos tribunais. Mais à frente, Sócrates concluiu que a oratória seria produtora duma crença e não do ensino sobre o justo e o injusto. E o mesmo Sócrates (no diálogo) rematou: "O orador, por conseguinte, não ensina aos tribunais e demais ajuntamentos o que é justo e o que é injusto; limita-se a persuadi-los".

Platão inseriu uma questão de âmbito ético que transcende seu tempo. O orador, para Platão, talvez não tivesse comprometimento com a justiça ou com a injustiça, com o certo, com o errado. Seu único compromisso seria com a persuasão.

A crítica poderia ter sido dirigida aos sofistas. Estes últimos, vendedores do saber, proficientes na ars bene dicendi, na arte do bem dizer, andavam pelas cidades, discursando e convencendo, para ganhar a vida.

É inegável que certo esvaziamento ético da retórica contribua para seu desprezo. A tomarmos a retórica apenas como arte de convencimento, de persuasão, estaremos eliminando sua eventual prestabilidade concreta. Que finalidade teria? O convencer por convencer pode ao longo do tempo, diminuir o próprio orador, à luz de uma conceituação ética. Tal imagem é comprovada pelo ideário popular que vê no advogado, no político, o estigma da fala demorada, bonita sem dúvida, mas vazia de conteúdo. Daí a imagem negativa de bacharelismo, como esculpido na vida brasileira.

Para Górgias (no diálogo), "o orador está habilitado a disputar com qualquer pessoa sobre qualquer assunto; por isso é mais convincente diante das multidões". Porém, para Sócrates (também no mesmo no diálogo), "o que eu chamo de oratória é parte de algo que não se conta entre as atividades nobres". E continuou, "parece-me se tratar de uma profissão não artística, mas própria do espírito certeiro, arrojado e por natureza hábil no entretenimento com as pessoas; ao seu gênero dou o nome de lisonjaria".

Como se vê, o diálogo Górgias não é manual de retórica, como mais tarde comporão Aristóteles e Quintiliano. Platão refletiu sobre a oratória como um programa de ação política.

Platão questionou os termos éticos da retórica. A retórica poderia enfraquecer o sentido moral das coisas. Assim, a educação não poderia ter bases e alicerces únicos na pretensão do bem falar. Sem rudimentos de moral, de ética, de vínculo com o bem comum, com o bem estar, de nada vale a arte do convencimento.

 é consultor-geral da União, doutor e mestre em Filosofia do Direito e do Estado pela PUC-SP.

Revista Consultor Jurídico, 6 de maio de 2012, 3h03

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