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Embargos Culturais

Desilusão, agonia e êxtase em Nietzsche

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Demolidor da razão iluminista, o filósofo alemão Friedrich Nietzsche (1844-1900) é um misto de vítima e de algoz de crítica contundente que imputa sua genialidade à inusitada demência, que o vê, toda hora, abraçado a um cavalo, chorando, em uma praça em Turim, na Itália. É de Nietzsche que trato no presente artigo, sem nenhuma ambição que não a de apresentar as linhas gerais de um pensador que provoca a todos nós e a todas as nossas verdades. Chega a incomodar.

Os temas que pulverizam os livros do filósofo alemão identificam as discussões mais recorrentes no chamado ideário pós-moderno. A busca da verdade, a morte de Deus, a vida na terra, a vida bem vivida, o eterno retorno (que os norte-americanos nominam de Life Again and Again), o desejo de poder, o super-homem, a luta entre o bem e o mal (espécie de atavismo do dualismo mazdeísta situado entre Ormuz e Arimã, onde circunstancialmente localizamos o Zaratustra ou Zoroastro, autor de Zend-Avestha, ou a Palavra Viva), a horda e o indivíduo, a oposição da moral do senhor com a moral do servo, além, naturalmente, de reflexões estéticas em torno de conceitos dionisíacos e apolíneos.

O Nascimento da Tragédia é o primeiro livro de Nietzsche. Percebe-se o triunfo do racionalismo (associado com Apolo, o Deus grego da razão e da ordem) em relação à experiência estética (associada a Dionísio, Deus grego do vinho e das festas). Nietzsche evidencia que a paixão precisa ser reintroduzida na cultura moderna. A obra persegue relação entre arte e ciência, tendo como pano de fundo Apolo e Dionísio. Aquele representando a ciência e seus ideais de medida, harmonia e otimismo. Esse último representando a estética, e seu sentido libertador de abandono sexual, de intoxicação, de êxtase libertadora. O cristianismo é questionado, e criticado veementemente, indicando-se aspecto recorrente no pensamento de Nietzsche. A razão ocidental é colocada em questão:

“Todo o nosso mundo moderno está preso na rede da cultura Alexandrina e reconhece como ideal o homem teórico, equipado com as mais altas forças cognitivas, que trabalha a serviço da ciência, cujo protótipo e tronco ancestral é Sócrates. Todos os nossos meios educativos têm originariamente esse ideal em vista: qualquer outra existência precisa lutar penosamente para pôr-se a sua altura, como existência permitida e não como existência proposta. Em um sentido quase aterrador, durante longo tempo, o homem culto era encontrado aqui unicamente na forma de homem douto; a partir de limitações doutas e, no efeito capital da rima, reconhecemos ainda a gênese de nossa forma poética a partir de experimentos artificiais com uma linguagem não familiar, propriamente erudita” (NIETZSCHE, 2000, p. 108).

Humano, Demasiadamente Humano, foi escrito logo após o rompimento entre Nietzsche e o compositor alemão Richard Wagner. Nietzsche deu ao título do livro um complemento, dizendo-o um livro para espíritos livres. A metafísica recebe sentença de morte:

“O homem jovem aprecia explicações metafísicas, porque elas lhe revelam, em coisas que ele achava desagradáveis ou desprezíveis, algo bastante significativo; e, se estiver descontente consigo mesmo, este sentimento se aliviará quando ele reconhecer o mais entranhado enigma ou miséria do mundo naquilo que tanto reprova em si. Sentir-se mais irresponsável e ao mesmo tempo achar as coisas mais interessantes —isso constitui, para ele, o duplo benefício que deve à metafísica. É certo que depois se torna desconfiado em relação a toda espécie de explicação metafísica; então compreende, talvez, que os mesmos efeitos podem ser obtidos por outro caminho, igualmente bem e de modo mais científico; que as explicações físicas e históricas produzem ao menos no mesmo grau aquele sentimento de irresponsabilidade, e talvez inflamem ainda mais o interesse pela vida e seus problemas (NIETZSCHE, 2001, p. 27).

Nietzsche também refuta a lógica, elemento essencial do fundacionalismo iluminista. Haveria possibilidades de libertação e de felicidade em circunstâncias de ilogicidade ou de mera representação da vida em termos não cartesianos. Para o filósofo alemão:

“Entre as coisas que podem levar um pensador ao desespero está o conhecimento de que o ilógico é necessário aos homens e que do ilógico nasce muita coisa boa. Ele se acha tão firmemente alojado nas paixões, na linguagem, na arte, na religião, em tudo que empresta valor à vida, que não podemos extraí-lo sem danificar irremediavelmente essas belas coisas. Apenas os homens muito ingênuos podem acreditar que a natureza humana pode ser transformada numa natureza puramente lógica; mas, se houvesse graus de aproximação a essa meta, o que não haveria de perder nesse caminho! Mesmo o homem mais racional precisa, de tempo em tempo, novamente da natureza, isto é, de sua ilógica relação fundamental com todas as coisas” (NIETZSCHE, 2001, p. 38).

Outros tópicos da tradição ocidental, como as promessas e o valor em cumpri-las, a palavra dada, geradora da confiança, substratos indicativos de conteúdos morais sufragados pelo direito natural, também recebem tratamento agressivo no impressionante Humano, Demasiadamente Humano:

“Pode-se prometer atos, mas não sentimentos; pois estes são involuntários. Quem promete a alguém amá-lo sempre, ou sempre odiá-lo ou ser-lhe sempre fiel, promete algo que não está em seu poder; mas ele pode prometer aqueles atos que normalmente são conseqüência do amor, do ódio, da fidelidade, mas também podem nascer de outros motivos: pois caminhos e motivos diversos conduzem a um ato. A promessa de sempre amar alguém significa, portanto: enquanto eu te amar, demonstrarei com atos o meu amor; se eu não mais te amar, continuarei praticando esses mesmos atos, ainda que por outros motivos: de modo que na cabeça de nossos semelhantes permanece a ilusão de que o amor é imutável e sempre o mesmo- Portanto, prometemos a continuidade da aparência do amor quando, sem cegar a nós mesmos, juramos a alguém amor eterno” (NIETZSCHE, 2001, p. 59).

A Gaia Ciência é de livro de 1882 que consiste em coleção de aforismos. A obra é recorrentemente citada, lá encontramos temas fundamentais para Nietzsche, como a ideia da morte de Deus e a questão do eterno retorno. O título remete-nos ao pensamento de que a ciência não deve ser levada tão a sério. Deve ser abordada com alegria, mediante atitude estimulante. A questão do conhecimento é um dos temas centrais do livro, que enceta o núcleo da epistemologia do pensador alemão. A moralidade é questionada, assim como os propósitos da vida. O desejo de poder que move nossas ações é mencionado. Suposta evolução propiciaria um super-homem. Ao dimensionar o objetivo da ciência, Nietzsche questiona:

“Como? O objetivo último da ciência é proporcionar ao homem o máximo de prazer e o mínimo de desprazer possíveis? E se prazer e desprazer forem de tal modo entrelaçados, que quem desejar o máximo de um tenha de ter igualmente o máximo de outro- que quem quiser aprender a ‘rejubilar-se até o céu’ tenha de preparar-se também para ‘estar entristecido de morte’?” (NIETZSCHE, 2001, p. 63).

O significado da vida é questionado. Aquele determinismo otimista e panglossiano que imputa à existência o eterno caminhar pelos melhores dos mundos possíveis é desafiado:

“Viver —é continuamente afastar de si algo que quer morrer; viver- é ser cruel e implacável com tudo o que em nós, e não apenas em nós, se torna fraco e velho. Viver- é também não ter piedade com os moribundos, miseráveis e idosos? Ser continuamente assassino? —No entanto, o velho Moisés declarou: ‘Não Matarás!’” (NIETZSCHE, 2001, p. 77).

O Direito é criticado. Os modelos normativos são desconstruídos. Passagens do livro são desconcertantes, especialmente se cotejadas com a literatura da época, que propugnava historicismo jurídico, a propósito das ideias de Savigny, jurista alemão que afirmava ser o direito o reflexo do espírito de um povo, chegando inclusive a duvidar da codificação das leis, que tenderia a solidificar instâncias que o espírito do povo transforma-se ao longo dos anos. Pontos de vista enunciados em A Gaia Ciência substancializarão subsequentes abordagens niilistas do direito da tradição ocidental:

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 é consultor-geral da União, doutor e mestre em Filosofia do Direito e do Estado pela PUC-SP.

Revista Consultor Jurídico, 29 de janeiro de 2012, 8h54

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