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18 janeiro 2012
Coisafobia
País está muito chato ao ver discriminação em tudo
[Texto publicado na Coluna Circo da Notícia, no Observatório da Imprensa]
David Nasser, turco que gostava de ser chamado de turco, compôs uma beleza de batucada: "Nega do Cabelo Duro". Oswaldo Santiago e Paulo Barbosa brincaram com os chineses ("Lá vem o seu China na ponta do pé/ lig, lig, lig, lig,lig, lig lé (...) chinês, come somente uma vez por mês"), Adoniran Barbosa falou dos judeus ("Jacó, a senhorr me prometeu/ uma gravata, até hoje ainda não deu/ faz trrinta anos, que esto se passarr/ e até hoje o gravata não chegarr"). Lamartine Babo disse que a cor da mulata não pegava. Racismo? Racismo é a mãe!
Pois não é que agora querem ver discriminação racial em tudo? Há dias, um artigo assinado por um desses intelectuais com gavetas cheias de diplomas e uma cabeça vazia de ideias e raciocínio fez duros ataques ao ator Marcelo Serrado, que faz o papel de bicha louca numa novela. Dois eram os principais argumentos: primeiro, que a bicha louca fazia trejeitos de bicha louca, e isso provocava homofobia; segundo, que o ator disse que não gostaria que sua filha de sete anos visse um beijo gay na TV, e isso, para o professor-mestre-doutor-sabetudo, também é homofobia. Cá entre nós, homofobia é a mãe.
Primeiro, o ator faz papel de bicha louca porque é assim que seu personagem na novela deve se comportar. Anthony Hopkins se comporta como canibal em O Silêncio dos Inocentes porque seu papel é de canibal. Se é para criticar alguém, que se critique o autor — mas como acusar de homofobia exatamente um dos maiores lutadores contra a homofobia, Aguinaldo Silva, que há uns 30 anos editava o jornal Lampião e enfrentava o moralismo da ditadura? Ah, Lampião! Ali estavam também Antônio Chrysóstomo, Jean-Claude Bernardet, João Antônio, João Silvério Trevisan, Peter Fry, tudo gente de primeiro time. Um belíssimo jornal.
Segundo, há gente que tem medo até de olhar para gatos (é uma doença, a ailurofobia). E daí? Se ninguém os obrigar a pegar um gatinho no colo, se o ailurófobo não sair por aí maltratando gatos, tudo bem. Há gente que odeia salas sem janelas. Se não forem obrigadas a entrar nestas salas, se não saírem quebrando os móveis, e daí? O ator não gostaria que sua filha de sete anos visse um beijo gay na TV. Este colunista não gosta de ver essas lutas de UFC e muito apreciaria que seu filho também não gostasse. Mas ele as aprecia. O colunista não gosta de comer bacalhau. E daí, cavalheiros? Alguém pretende processá-lo por negar-se a ver pessoas brigando? Estará insuflando a bacalhaufobia? Sejamos sérios!
Este país está ficando muito chato. Este colunista é gordo, não "forte". Todo mundo que tem a sorte de não morrer cedo fica velho, em vez de "entrar na melhor idade". Anão é anão, preto é preto, cego é cego. Afrodescendente? O material científico disponível informa que o Homo Sapiens tem origem na África. Todos somos, portanto, do negão ao sueco albino, afrodescendentes.
E, lendo essas coisas que a gente vê por aí, é preciso firmar opinião: seja qual for o número de diplomas que ostente, burro é burro.
Carlos Brickmann é jornalista e diretor da Brickmann&Associados.
Revista Consultor Jurídico, 18 de janeiro de 2012
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Comentários
Comentários de leitores: 10 comentários
Disseminação Inconsciente do Preconceito
O que ele não examina é que a língua é o principal veículo de disseminação de preconceito, ainda que inconsciente.
Quando eu me refiro a um afro-americano como 'crioulo' ou 'preto', não significa, por si só, um ato de discriminação racial, punível penalmente. Isso é evidente.
É preciso examinar o contexto em que tais vocábulos foram empregados, isso para efeitos penais.
Mas a questão é um pouco mais complicada.
Por que designar alguém por 'crioulo' ou 'preto' pode ser ofensa, dependendo do contexto, mas não ocorreira a ninguém pensar que chamar alguém de 'branco' seria ofensa, em qualquer contexto????
A língua é um dos principais produtos da cultura e obviamente recebe os influxos das práticas sociais, inclusives as discriminatórias.
Há vários estudos (inclusive na internet) sobre o uso da metáfora negra, vale a pena ler.
A questão foi pobremente enfocada pelo articulista.
O problema não é afirmar que há preconceito em tudo, mas sim tomar consciência de que a língua é o maior veiculo INSCONSCIENTE de disseminação do preconceito, de geração a geração. Seu filho vai falar exatamente como vc. fala...
Pode até ser chato para alguns, mas acho que é um exercício muito importante para desenvolver a nossa sensibilidade.
Desenvolver nossa sensibilidade, para evitar que sejamos veículos inconscientes de discriminação, inocentes úteis, tomando consciência dos eventuais usos discriminatórios da língua, é sinal de avanço da sociedade.
Assim, sem dúvida, a humanidade estará dando um passo a mais para se distanciar da barbárie.
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