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Ideias do Milênio

Crescimento da economia precisa caber dentro do planeta

Entrevista concedida pelo economista britânico Andrew Simms ao jornalista Silio Boccanera, do programa Milênio, da Globo News. O Milênio é um programa de entrevistas, que vai ao ar pelo canal de televisão por assinatura Globo News às 23h30 de segunda-feira, com repetições às 3h30, 11h30 e 17h30.

Andrew Simms - 26/04/2012 [globo.com]O orgulho nacional brasileiro inflou quando saiu a confirmação estatística, este ano, de que o Brasil ultrapassou o Reino Unido como sexta economia do mundo. O critério de comparação é Produto Interno Bruto, ou PIB, soma de tudo o que o país produziu no ano. Nada a ver com distribuição desse crescimento entre a população, o que certamente ainda separa muito britânicos de brasileiros. O PIB tampouco leva em conta se o crescimento suja, polui, queima árvore ou se a produção se baseia em atividades que destroem o meio ambiente, aquece o clima da terra ou prejudicam seres humanos. O modelo convenciona produzir mais para se consumir mais, vender, gerar empregos, criar renda, que, por sua vez, leva ao consumo, provoca vendas, e, fechando o círculo, resulta em mais produção. Só que alguns economistas começam a se perguntar: Tem de ser assim? Não seria mais razoável produzir melhor em vez de produzir mais? Uma das vozes fortes nesta busca é a do economista britânico Andrew Simms, analista da New Economics Foundation, em Londres, onde o Milênio foi ouvi-lo sobre essa dimensão, que já mobiliza especialistas em vários países. Por certo estará em debate na conferência Rio+20 em junho.

Silio Boccanera — O economista e ativista ambiental Paul Gilding fala do que ele chama de “a grande ruptura”, no livro “The Great Disruption”, quando o modelo econômico atual pró-crescimento ruiria. Ele dá uns dez anos para que aconteça. Você vê essa ruptura chegando?
Andrew Simms — É assustadora a velocidade com que um modelo financeiro desregulamentado e liberalizado cai por terra. Houve um período compreensível de triunfalismo com o fim da Guerra Fria, quando as pessoas viram o modelo soviético fracassado. Foi assustador. Em uma década de rejeição à legislação que mantinha a separação entre a especulação financeira e a alta atividade bancária... Em menos de uma década, tudo deu terrivelmente errado. Aquele sonho, a fantasia utópica das finanças do mercado livre foi por terra. Os grandes sistemas monolíticos de pensamento nesse último século não nos servem mais. Nós precisamos criar um modelo novo, um paradigma novo. Acho que quem trabalha na economia verde está fazendo as perguntas certas. Como devemos lidar com a economia e o ambiente do qual ela depende para evitar tanto a falência financeira quanto a ainda mais ameaçadora falência ecológica? Como encontramos uma economia dinâmica e equilibrada que atenda às necessidades de todos?

Silio Boccanera — As economias europeias praticamente estagnaram. Quase não há crescimento ou geração de empregos. As pessoas saem às ruas para reclamar. Elas querem trabalhar, ganhar seu sustento. No meio disso tudo, uma instituição como a sua sugere que um país não deve ter como objetivo o crescimento como política nacional. Como conciliar essas duas situações?
Andrew Simms — Um dos segredos mais bem-guardados na economia nos últimos 20 ou 30 anos em economias industrializadas modernas, como a da Europa, é que, enquanto a economia cresce de forma estável, resultados humanos significativos com relação ao nível de satisfação na vida caem drasticamente. Há muito tempo, passamos do ponto em que simplesmente consumir mais e ter mais bens e serviços na economia se traduziram em níveis altos de bem-estar. Esquecemo-nos de nos perguntar para que serve a economia de verdade. Agora, mais por acaso do que intencionalmente, muitas dessas economias ficaram estagnadas. As pessoas despertam para um novo tipo de debate econômico. Outra coisa que sabemos é que, quando buscamos políticas criadas para gerar o crescimento sozinho, como um objetivo abrangente, pode acontecer todo tipo de coisas, que não são necessariamente boas. Ainda que o questionamento do crescimento nos limites da economia aconteça há décadas. E, se voltar ao nascimento da política econômica, nos séculos XVIII e XIX, acreditavam que a economia cresceria até certo ponto e, depois, se desenvolveria de outras maneiras. Acho que, finalmente, estamos no limiar de um debate adulto e inteligente sobre a melhor maneira de medir o sucesso de uma economia.

Silio Boccanera — Os governos da Europa, dos EUA e de outros países afirmam que a demanda por consumo deve aumentar para impulsionar a economia. Vender mais, produzir mais, gerar empregos em lojas e fábricas. É uma economia de mercado tradicional. Qual é o problema nisso?
Andrew Simms — Eu acho incrivelmente estranho que, ainda que nós saibamos que o modelo do consumo exagerado movido por dívida tenha levado a economia global ao ponto de quase ruína completa, nós estejamos ouvindo de forma até comum demais de muitos dos nossos líderes políticos que eles desejam voltar a como era antes. Alguns de nós receberam de seus líderes a mensagem de que é nosso dever patriótico voltar a consumir muito, comprar até a recuperação acontecer, repetindo os erros do passado. Eu acho que é uma oportunidade para repensarmos como maximizamos a qualidade de vida enquanto operamos dentro dos limites ambientais que, segundo as Ciências exatas, estão chegando ao fim. E o mais importante é que estamos às vésperas do 20º aniversário da ECO 92, que fez essa pergunta importantíssima sobre como partilhar um planeta finito de forma que as necessidades básicas de todo mundo possam ser atendidas, enquanto temos o imenso desafio de redução da pobreza mundial. Acho que é ainda mais o caso de que nas partes do mundo em que já acontece um alto nível de consumo, um padrão relativamente alto de vida material, teremos que ser muito mais inteligentes aqui sobre como fazer a nossa economia melhorar de uma maneira que não exija o consumo exagerado, prejudicial, destrutivo, que não satisfaz e é impulsionado por uma dívida que não podemos pagar.

Silio Boccanera — Então, você vê a crise atual como uma oportunidade.
Andrew Simms — Eu acho que essa crise é uma imensa oportunidade. Já é possível ver de algumas maneiras experimentações quase acidentais que abrem novas possibilidades. Por exemplo, na área municipal de Utah, nos EUA, no auge da crise, em 2008, o governo local, por não ter outras saídas, passou a jornada de trabalho para quatro dias por semana. Tiveram a esperteza de monitorar o que aconteceria como resultado disso. Eles perceberam que, com a semana útil reduzida, o moral do funcionário aumentou, o nível registrado de bem-estar melhorou e o governo reduziu a emissão de carbono em 14%, porque eles puderam fechar muitos prédios do governo. Forçados pelas circunstâncias econômicas, eles se viram em um experimento, no qual a qualidade de vida das pessoas, a qualidade do trabalho e o impacto ambiental melhoraram.

Silio Boccanera — É o experimento francês da jornada de 35 horas. É disso que estamos falando?
Andrew Simms — O experimento francês da semana útil reduzida é muito interessante. Ainda que alguns aspectos dele tenham sido revistos e rejeitados, o que nós vemos no local é que a maioria das grandes empresas que adotaram a semana reduzida viu que ela dava resultado e continuou utilizando-a. Ela levanta uma questão: como podemos repensar nossa vida no trabalho de forma que possamos aprender com a literatura antiga sobre o bem-estar humano, sobre o que realmente nos dá qualidade de vida, como podermos passar tempo com amigos e familiares, podermos ser pessoas ativas, podermos aprender a vida toda, apreciarmos o mundo à nossa volta? Uma das maneiras de fazermos isso é dividir nosso trabalho em uma economia que – certamente no caso do Reino Unido – seja marcada por pessoas trabalhando durante muitas horas e uma grande quantidade de pessoas sem trabalhar. Desemprego ou carga de trabalho exagerada. Dividindo isso, todos vão ter a chance de trabalhar, de apreciar a comunidade e o que o trabalho oferece de bom. Mas livrando-nos de alguns aspectos prejudiciais e criando oportunidades para vivermos de forma mais inteligentes, com um nível mais alto de satisfação.

Silio Boccanera — Uma citação do site da sua organização, a New Economics Foundation, diz: “O crescimento gera sociedades problemáticas e desiguais. Se continuar, vai tornar grandes partes do planeta inadequadas para a vida humana.” Não é um certo exagero?
Andrew Simms — Se observar a forma e a dinâmica pelas quais a economia global se desenvolveu, não apenas nas últimas décadas, mas há uns 200 anos, ela foi marcada por duas dinâmicas principais: uma delas é um enorme crescimento em escala, em tamanho. A outra é a dinâmica da desigualdade. O abismo entre ricos e pobres não parou de aumentar. Notamos que as sociedades muito desiguais têm a tendência infeliz de cair por terra. Se for para dividirmos o nosso planeta para atender às necessidades básicas da maioria das pessoas que vivem nele, sabemos que teremos que partilhar esses recursos de forma mais igual. As pessoas entendem a mudança climática. Sabemos que já passamos do ponto de poluir a atmosfera de certa maneira que começa a desencadear, para muita gente no mundo, uma reviravolta climática crescente, extrema, perigosa e prejudicial. Temos um tempo muito curto para derrubar os dominós ambientais de forma que isso se torne incontrolável. Mas não é só com a mudança climática. Se observar outros ecossistemas fundamentais para a vida, seja o ciclo de nitrogênio para a agricultura, ou a biodiversidade, que é a malha, a teia da vida na Terra, sejam outras formas e outros níveis de poluição, erosão e perda do solo, todas as Ciências nos dizem que estamos vivendo além dos nossos recursos ambientais de uma maneira insustentável. Quanto antes tentarmos fazer a nossa economia ficar de acordo com o planeta, melhor. Senão, começaremos a jogar uma roleta ambiental. Você fica puxando o gatilho. Em algum momento, algo ruim vai acontecer.

Silio Boccanera — O padrão para se medir o desempenho econômico é o PIB dos países, ou Produto Interno Bruto. Os EUA, a maior economia mundial, têm produção anual de US$ 15 trilhões. Depois, vêm a China, o Japão... O povo brasileiro está muito feliz porque ficou na 6ª posição mundial, no lugar da Grã-Bretanha. Mas você não gosta desse tipo de medição, o PIB, gosta?
Andrew Simms — O PIB é uma medição do valor financeiro de todas as trocas de bens e serviços que acontecem na economia, não é uma medição qualitativa. Por exemplo, se acontecesse um grande desastre ou um grande vazamento poluente e o país gastasse muito dinheiro para limpar, isso seria registrado como positivo no PIB. O PIB é uma medição cega, não é qualitativa. Acho que precisamos de medidas mais significativas. Por exemplo, outra maneira de medir a qualidade da atividade econômica seria comparar todos os recursos usados para produzir nossos sustentos e até que ponto eles nos dão qualidade de vida, satisfação e expectativa de vida. Expectativa de vida é uma boa medida que substitui vários outros indicadores de desenvolvimento humano. Nós experimentamos com ela. Quando fazemos isso, acontecem coisas muito interessantes. Países ricos têm um péssimo desempenho, porque têm pegadas ecológicas imensas. Países muito pobres também vão mal, porque apresentam baixa expectativa de vida. O fascinante é que partes do mundo que se saem bem, que têm uma relação relativamente boa entre o impacto ambiental e a qualidade de vida, são países da América Central e América do Sul. As partes do mundo com melhor resultado de todas as regiões são pequenas ilhas-estados. Há algo em estar em uma pequena ilha que desenvolveu modelos econômicos que parecem ter melhor cooperação e divisão nas quais as pessoas têm mais consciência de seus limites ambientais. Existem inúmeras outras maneiras de ter indicadores mais significativos e informativos para mostrar o que está acontecendo na economia, se ela está indo bem ou mal.

Silio Boccanera — Estamos falando de abandonar o crescimento como objetivo econômico ou mudar para um crescimento diferente?
Andrew Simms — Certamente teríamos uma imagem melhor se subtraíssemos do PIB o custo dos danos ambientais, o custo das mazelas sociais. Se começarmos com o PIB como base, ainda significará que estamos presumindo que podemos continuar nesse caminho de crescimento cada vez maior, infinito. Há um problema físico e ambiental nisso, que acaba nos colocando contra algumas leis da Física. Presumindo-se que poderíamos continuar, teríamos que achar um meio ad infinitum de aumentar a eficiência e fazer substituições tecnológicas, ou seja, poderíamos sempre compensar o impacto ambiental em uma economia que cresce infinitamente. As leis da Termodinâmica nos dizem que não podemos ter melhorias infinitas de eficiência. Em algum momento, teremos que achar um jeito de chegar a um equilíbrio entre a economia e a biocapacidade da terra finita da qual nós dependemos. Isso é uma arte. O interessante é que isso como uma pergunta para a economia responder, estava bem no seu próprio surgimento, e nós precisamos de 250 anos e inúmeras revoluções econômicas e industriais para voltarmos ao primeiro princípio de que a economia é um subsidiário da biosfera e a ela pertence. É preciso encontrar uma maneira de trabalhar em equilíbrio com ela. Se você se comprometer, em qualquer nível, com o crescimento infinito e o consumo de recursos, não vai conseguir fazer isso.

Silio Boccanera — Muito dessa obsessão por crescimento se deu nos anos 1930, durante a Depressão, não?
Andrew Simms — Uma das grandes ironias da nossa obsessão por ter o PIB como indicador hoje é que o economista Simon Kuznets, que foi um de seus criadores nos anos 1930... Ele foi criado durante o desfecho da Grande Recessão, a queda de Wall Street, em 1929, chegando à II Guerra Mundial, quando a capacidade de produção da economia era fundamental, importantíssima. Foi criado como indicador para dar uma noção da capacidade de produção da economia. Mas o economista Simon Kuznets, um dos principais arquitetos dele, disse logo no início: “Haja o que houver, não usem o PIB como um indicador geral do bem-estar social ou do bem-estar econômico. Se o fizerem, estarão cometendo um terrível erro.” E o que fizemos? Exatamente isso.

Silio Boccanera — Onde entra o conceito de economia verde nessa imagem que você fez?
Andrew Simms — A ideia da economia verde é vital. Todas as atuais economias avançadas e industrializadas estão presas ao alto uso de energia, presas ao alto uso de recursos, presas a modelos de consumo exagerado e movido à dívida. Todos eles terão que passar por um processo de transição. Nós vemos como uma ótima transição, um processo através do qual teremos que reinventar e repensar nossas economias em transportes, na agricultura, na construção, na nossa locomoção, em como vivemos e trabalhamos para alcançar um melhor bem-estar com menos consumo. A economia verde entra como uma maneira de administrar essa transição. A boa notícia é que a economia verde é incrivelmente geradora de empregos. Por exemplo, o Deutsche Bank fez uma pesquisa sobre as nossas alternativas e nossos sistemas energéticos. Calcularam que a transição para um sistema descentralizado, com base em energia renovável geraria duas ou quatro vezes mais empregos com a mesma quantidade de recursos investida. A economia verde é a maneira como administraremos a transição para que a economia funcione dentro dos nossos limites ambientais. E vai ter um potencial enorme para a criação dos empregos verdes.

Silio Boccanera — Você sabe que mentes paranóicas em muitos lugares, principalmente no mundo pobre, vão dizer: “Lá vamos nós de novo. Outra conspiração do mundo rico para manter os pobres no lugar deles, para continuarem pobres sem crescimento econômico.” Consegue enxergar pelo ponto de vista deles?
Andrew Simms — Há duas histórias bem diferentes aqui. Há uma história sobre as mudanças que precisam ser guiadas e demonstradas no mundo rico. A menos que comecemos a utilizar menos espaço ambiental na biosfera mundial, não vai haver espaço ambiental para o tipo de desenvolvimento que será necessário para dois terços da humanidade. O ônus está esmagadoramente sobre os países ricos para arrumarem suas casas e reduzirem seu volume de consumo, para que o desenvolvimento ainda possa acontecer na maior parte do mundo. Mas também acho que há oportunidades incríveis nos países em desenvolvimento para pular as fases mais sujas de desenvolvimento pelas quais o mundo rico passou. Se procurar no mundo alguns dos exemplos mais impressionantes de desenvolvimento em tecnologia de energias renováveis de micro e média escala... Quando observamos a China e a Índia, que são dois países mais populosos e têm os piores exemplos de geração de energia, dependem das formas mais sujas de combustíveis fósseis, mas, ao mesmo tempo, a escala de inovação que acontece neles faz muitos dos países mais ricos passarem vergonha.

Silio Boccanera — Então, é mais fácil os países pobres se adaptarem.
Andrew Simms — Acho que vai ser trágico se não aprendermos com os erros de países como a Grã-Bretanha, os EUA e países europeus, no sentido de que nos prendemos ao nosso estilo de vida com alto gasto de energia de recursos.

Silio Boccanera — É fácil ver oposições às suas ideias vindo tanto da esquerda quanto da direita. A direita vai dizer que você é anticapitalista, que se opõe à expansão e ao lucro das empresas etc. A esquerda, incluindo sindicatos, vai dizer que está destruindo empregos com as suas ideias. Você já não está enfrentando esses dois tipos de oposição?
Andrew Simms — Acho que nós passamos, em termos econômicos, por três décadas de Keynesianismo pós-guerra, que gira em torno de aumentar a demanda. Passamos por duas ou três décadas de desregulamentação, liberalização, privatização. Ambos os modelos se mostraram, se me permite a expressão, verdadeiros tiros na água. Precisamos de um pensamento novo para tratar dos problemas econômicos atuais e a realidade inevitável de partilharmos um panfleto finito. Precisamos fazer isso de forma que as necessidades de todos sejam atendidas e que todos tenhamos boa qualidade de vida. Eu pergunto: como vamos fazer isso? Achamos que algumas formas que o movimento da economia verde explora nos mostram um caminho. Se alguém tiver uma solução melhor para tratar desses problemas simultaneamente, estarei totalmente disposto a ouvir.

Revista Consultor Jurídico, 27 de abril de 2012, 8h56

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