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Tráfico de drogas

Polícia mata traficante apontado como sócio de Beira-Mar

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A morte, na noite de terça-feira (1°/11), do traficante Marcelo da Silva Leandro, o Marcelinho Niterói, na favela Parque União, pode significar a derrocada do poder do traficante Luiz Fernando da Costa, o Fernandinho Beira-Mar, onze anos após ele ser preso na selva amazônica, na Colômbia, ao lado de guerrilheiros das Forças Armadas Revolucionária da Colômbia (Farc). Aoperação na favela Parque União, que fica no conhecido Complexo da Maré (conjunto de favelas localizados na entrada da cidade do Rio entre a Avenida Brasil e a Linha Vermelha) contou com a participação da Polícia Federal, de 30 agentes do Batalhão de Operações Especiais da Polícia Militar (Bope) e dez policiais civis em duas aeronaves.

Durante todo este tempo, mesmo mantido em prisões de segurança máxima, a estrutura do tráfico de drogas criada por Beira-Mar manteve-se forte e serviu para abastecer os traficantes ligados à facção Comando Vermelho. Mesmo em novembro de 2007, quando a Polícia Federal deflagrou a Operação Fênix, a partir de uma investigação iniciada em Curitiba (PR), com mandados de prisão de cerca de 35 pessoas ligadas ao traficante, seus “negócios” não foram paralisados.

Um dos procurados era justamente Marcelinho Niterói, cujas investigações mostravam que estava abrigado no morro da Mangueira, zona Norte do Rio, onde o tráfico era dominado pelo Comando Vermelho. Faltou, porém, uma melhor definição do endereço do traficante para pegá-lo. A Polícia Federal chegou a pedir ao juízo um mandado de busca genérico, para tentar localizá-lo na favela, mas isto lhe foi negado.

Àquela altura, através de interceptações telefônicas autorizadas pela 2ª Vara Federal Criminal de Curitiba (PR), era nítido que Marcelinho Niterói assumira papel importante na quadrilha, notadamente depois do desaparecimento, em junho de 2007, do advogado João José de Vasconcelos Kolling. Este, de defensor do traficante tornou-se uma espécie de sócio e assumiu o comando da quadrilha até cair em desgraça junto ao chefão do bando e desaparecer.

Para os investigadores ele foi morto a mando de Beira-Mar que o descobriu dando golpes na venda das drogas. A última vez em que ele foi visto com vida foi em junho de 2007, ao deixar sua casa em Petrópolis (na região serrana do Rio) em direção à Favela Beira-Mar, em Duque de Caxias, reduto do traficante.

Outra cabeça importante do bando era a mulher de Fernandinho, Jacqueline Alcântara de Moraes da Costa, mas ela, ao contrário de Marcelinho Niterói, não mantinha contato com os traficantes de outros países, participantes de um consórcio que abasteciam com maconha do Paraguai e cocaína vinda da Colômbia, o esquema de Beira-Mar que se transformou em um dos grandes atacadistas de drogas não apenas no Rio de Janeiro. Por ter morado no Paraguai, época em que foi tratado pelo traficante como “meu filho loiro”, Marcelo Niterói teve contato com aqueles que abastecem Fernandinho.

Foi no Paraguai, inclusive, que ocorreu sua última prisão, em julho de 2007, em um carro com alguns comparsas e diversas armas pesadas. O porte dessas armas naquele país não chega a ser um crime como no Brasil e é apenas punido por multas. Com isto, ele foi entregue aos policiais federais na fronteira, por estar em situação irregular no país, sem o visto. Foi solto ao constatarem que não existia mandado de prisão contra ele e refugiou-se no morro da Mangueira.

Com as prisões da Operação Fênix, inclusive de Jacqueline, Marcelinho Niterói transformou-se no principal nome da quadrilha. Depois que a Polícia o procurou na Mangueira, mudou-se para o Complexo do Alemão. Continuou monitorado por policiais federais de Curitiba, ainda por conta da investigação da 2ª Vara Federal. Também o investigavam os agentes federais lotados no escritório carioca do Grupo de Investigações Sensíveis (Gise), da Polícia Federal. Foi este grupo o responsável por seguir os passos de Beira-Mar, inclusive no Paraguai e na Colômbia, responsáveis pelas informações repassadas ao Exército colombiano que o prendeu na selva.

Houve momentos em que os agentes que investigavam Marcelinho Niterói defenderam a incursão da Polícia Federal no Complexo do Alemão para pegá-lo. Esbarraram na oposição do então superintendente do DPF no Rio, Ângelo Gioia, que alegava não querer patrocinar uma carnificina. O desânimo dos encarregados pela investigação fez com que passassem o trabalho para o setor de inteligência da Polícia Civil e da Secretaria de Segurança do Estado do Rio.

Na época, o então diretor de Polícia Civil do Rio, Alan Turnowski, reuniu-se com o juiz Sérgio Moro, em Curitiba. Com a ocupação do Complexo do Alemão, em novembro do ano passado, acreditava-se na sua prisão. Para tal, tinham o endereço dele, no Largo dos Coqueiros, e imagens da casa de três andares, com piscina no terraço, que ele ocupava.

No local, porém, só encontraram seis bilhetes escritos por Beira-Mar, de dentro da Penitenciária Federal de Campo Grande (MS), com ordens e cobranças para a quadrilha, inclusive propostas de sequestros de personalidades que poderiam ajudá-lo a sair detrás das grades. Foi o único rastro que Marcelinho Niterói deixou, frustrando o grupo de policiais federais que entrou na favela na expectativa de prendê-lo.

O trabalho policial, porém, continuou e o traficante voltou a ser descoberto na Favela Parque União, única localidade dentro do Complexo da Maré dominada pelo Comando Vermelho. As investigações se deslocaram do eixo de Curitiba e passaram para a Delegacia de Repressão a Entorpecentes do Rio de Janeiro. Por pelo menos duas vezes pensou-se em ir buscá-lo, mas as tentativas acabaram frustradas. Na terceira vez, deu certo, embora não tenham conseguido pegá-lo com vida, o que seria um trunfo importante para as investigações em torno do tráfico internacional de drogas.

Ainda não se sabe quem assumirá o lugar dele no comando deste tráfico que abastece os pontos de vende de entorpecentes bancados pela facção. Mas não deve demorar a surgir um substituto. É questão de tempo. O grupo de Beira-Mar, porém, perderá muito espaço com este assassinato.

 

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 é jornalista.

Revista Consultor Jurídico, 2 de novembro de 2011, 16:48

Comentários de leitores

9 comentários

DR . MARCOS

Fernando José Gonçalves (Advogado Sócio de Escritório)

Respeito a sua posição mas devo lembrar que, ao contrário do que pensa, já temos, na prática, A PENA DE MORTE implantada no Brasil pelos marginais. O pior: sem processo, sem julgamento e sem recurso. Enquanto cada policial tiver que fazer um relatório por cada bala disparada, o BANDITISMO AGRADECE E O PAÍS PERECE. Pense nisso.

UM DOS SÓCIOS, NÃO ?

Deusarino de Melo (Consultor)

A Máfia brasileira é muito mais vasta e complexa do que a carcamana. Para cada Capo de tutti capo há centenas de vice, sub, etc, de modo a que o processo não sofra qualquer solução de continuidade pela fácil morte de qualquer deles, aliás, alvejados até mesmom entre si e por motivos outros, pois a nossa mafiotagem é mais agiota do que qualquer outra e só pensa em números, cifras e cifrões. Cuidado, de repente você é nomeado para um papel desses e nem sabe... E como vai saber, se tudo é farinbha do mesmo saco e o saco é da mesma tecelagem...???

A falácia do combate ao crime a qualquer custo

Marcos Alves Pintar (Advogado Autônomo - Previdenciária)

Muitos ainda se empolgam com o anseio de poder de agentes estatais. Vimos há poucas semanas centenas de manifestações de policiais, delegados e agentes de segurança quando a Juiz Patrícia foi assassinada, reclamando "mais poder para agir". Aqui mesmo nesta conceituada Revista muitos foram os comentários no sentido de que o crime estaria "tomando conta do Estado", e que caso não fosse autorizado aos policiais e delegados "reagir à altura" o cidadão comum restaria refém do crime (como se todos já não estivessem). Bastou alguns poucos dias para se concluir que o crime, na verdade, aparentemente foi cometido por policiais, utilizando inclusive balas e armas da própria polícia, pagos por nós, quando delegados, policiais e tantos outros simpatizantes que reclamavam por uma liberdade para atuar com violência simplesmente desapareceram. Não sejamos ingênuos. Há bons homens nas polícias brasileiras, que abraçam a profissão com devoção, mas um bom tanto de criminosos por debaixo da farda, que não raro estão em busca de mais poder para cometer crimes sob o pretexto de combatê-lo. Repressão ao crime sim. Justiça a qualquer custo não.

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