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Confusão pronomial

“Vossa Excelência” concorda na terceira pessoa

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Cansado de presenciar tantos equívocos, notadamente, em audiências e peças processuais, resolvi elaborar o presente texto, na humilde tentativa de elucidar uma questão tão corriqueira.

Quem nunca ouviu alguém utilizar inadequadamente o pronome possessivo “vosso”, com pessoas que recebem o pronome de tratamento “Vossa Excelência”?

Inúmeras foram as vezes em que ouvi advogado, em audiência da Justiça do Trabalho (que, apesar de se dizer informal, resiste em adotar o sistema cross examination), antes de formular pergunta às testemunhas, dizer: “Excelência, gostaria de saber da testemunha, por vosso intermédio [...]”. Lamento dizer, mas isso não está gramaticalmente correto.

Que, de logo, fique claro: Vossa Excelência é uma pessoa singular!

Para quem ainda duvida disso, segue trecho extraído do Manual de Redação da Presidência da República, que traz uma explicação bem singela e pedagógica sobre o tema:

Os pronomes de tratamento (ou de segunda pessoa indireta) apresentam certas peculiaridades quanto à concordância verbal, nominal e pronominal.

Embora se refiram à segunda pessoa gramatical (à pessoa com quem se fala, ou a quem se dirige a comunicação), levam a concordância para a terceira pessoa.

É que o verbo concorda com o substantivo que integra a locução como seu núcleo sintático: “Vossa Senhoria nomeará o substituto”; “Vossa Excelência conhece o assunto”.

Da mesma forma, os pronomes possessivos referidos a pronomes de tratamento são sempre os da terceira pessoa: “Vossa Senhoria nomeará seu substituto” (e não “Vossa ... vosso...”).

Assim, no caso referido inicialmente, o correto é dizer: “por seu intermédio”. Se se considerar que isso soa de forma desrespeitosa, que então digam: “por intermédio de Vossa Excelência”. Mas que paremos de usar o pronome “vosso/vossa” de maneira inadequada.

Certo é que muitos que já frequentaram algum culto religioso (notadamente cristão) podem ter observado que, nos ritos litúrgicos, em orações, utiliza-se o referido pronome, quando se está se dirigindo a uma Divindade individualmente considerada. E aí?

Ora, de fato, os cristãos fazem isso quando dialogam com Deus, porque, consoante a doutrina da Santíssima Trindade, Ele se revela em três pessoas distintas: o Pai, o Filho e o Espírito Santo. Como já dizia Renato Russo, em sua composição “Índios”, “quem me dera ao menos uma vez entender como um só Deus ao mesmo tempo é três”[1]. É, portanto, uma Pessoal Plural, e, por isso, deve-se utilizar o pronome vosso/vossa.

No entanto, quando nos dirigirmos a alguém que mereça o tratamento de “Vossa Excelência”, “Vossa Senhoria” etc, o pronome possessivo adequado é seu/sua (referente à terceira pessoa do singular).


[1] Antes que apontem erro na concordância, oportuno registrar que a letra traz o verbo no singular mesmo (“é”, no lugar de “são”). Mas o compositor tem licença poética para tanto.

 é procurador federal em Mossoró (RN).

Revista Consultor Jurídico, 30 de março de 2011, 16h19

Comentários de leitores

8 comentários

Muito boa... Excelente explicação...

Carlos André Studart Pereira (Procurador Federal)

Muito boa, meu caro FERNANDO JOSÉ GONÇALVES!
(rs)

Correção Gramatical para Juizes... aí depende...

Mais que coragem, é preciso humildade pra mudar de opinião. (Vendedor)

Concordo com veemência com a afirmação do sr. José Fernando Gonçalves. E adiciono que, diante de qualquer juiz, tratá-lo [mesmo que gramaticalmente correto] por algum pronome que o coloque no mesmo patamar de normalidade e/ou humanidade em que coexistem bilhões de outros indivíduos [seres humanos que não são juízes] é implicitamente ferir o ego pretorial. Na dúvida, perpetuemos [ou mutilemos a língua pátria] os erros em prol de nossos objetivos. Novamente, vamos rever este axioma típico do Judiciário brasileiro: "Como a classe dos juízes se divide em duas categorias: a) os que acham ser Deus e b) os que têm certeza de serem"

AÍ DEPENDE

Fernando José Gonçalves (Advogado Sócio de Escritório)

Como a classe dos juízes se divide em duas categorias: a) os que acham ser Deus e b) os que têm certeza de serem, então, para estes últimos, fica valendo o tratamento consignado como "incorreto" na matéria, i.é., e exemplificando: "Vossa Excelência nomeará o 'vosso' perito ?. Afinal "DEUS", por definição, reúne num só ser, a santíssima trindade (Pai, Filho e Espírito Santo)e, dessa forma, correta a indagação. Para a primeira classe, fica aberta a 'exceção', usando-se o tratamento gramaticalmente correto: "Vossa Excelência nomeará o 'seu' perito ? É fácil. Antes da audiência é só indagar em qual categoria aquele Magistrado pertence e, após isso, seguir o tratamento consoante aquele entendimento. Simples assim. E.T: PARA NÃO 'MILINDRAR' O JUIZ A PERGUNTA PRÉVIA PODERÁ SER FEITA MESMO A SUA/VOSSA ESCREVENTE.

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