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Exame razoável

Exame de Ordem cumpre função social

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Na segunda quinzena de dezembro passado, foi amplamente divulgada pela imprensa a decisão do desembargador Vladimir Souza Carvalho, do Tribunal Regional Federal da 5ª Região, que compreende o estado de Pernambuco, que concedeu liminar a dois bacharéis em Direito em ação de Mandado de Segurança, para se inscreverem na Ordem dos Advogados do Brasil sem terem realizado o exame técnico, previsto pela Lei 8.906/94. No dia 3 de janeiro deste ano a liminar foi cassada pelo presidente do Supremo Tribunal Federal, ministro Cezar Peluso, acolhendo os pedidos do Conselho Federal da OAB e da Secção do Estado do Ceará, para suspender sua execução concedida em Recurso de Agravo de Instrumento.

Esta decisão emanada pelo STF é preliminar, isto é, o caso ainda encontra-se sub judice para análise pelos demais ministros que oportunamente o julgarão em definitivo.

Porém, reabre antiga discussão que se destaca, principalmente, sob dois aspectos: o jurídico, relativo à constitucionalidade da lei que exige a realização de exame pelos bacharéis em Direito e a sua aprovação para exercício da advocacia e o da qualificação profissional destes bacharéis.

Em sua decisão, o presidente do STF sustentou que a matéria discutida se reveste de índole constitucional vez que há suposta violação aos artigos 5º, inciso XIII e 84, da Constituição Federal devido à afronta do TRF-5, que permitiu o exercício da advocacia sem prévia aprovação em exame da Ordem, bem como a caracterização do efeito multiplicador e a consequente repercussão geral da questão constitucional, dada a evidente possibilidade de repetição de feitos idênticos, o que recomenda pronunciamento da Suprema Corte.

A Constituição Federal, em seu artigo 5º, inciso XIII, assegura o livre exercício de qualquer trabalho, ofício ou profissão, atendidas as qualificações profissionais que a lei estabelecer.

Conforme dispõe expressamente esse artigo, fica a cargo da lei infraconstitucional definir sobre as qualificações que caracterizam cada trabalho, ofício ou profissão.

Posto isso, se a teor do artigo 22, inciso XVI, da Constituição, cabe privativamente à União legislar sobre a organização do sistema nacional de emprego e condições para o exercício de profissões e ao Poder Legislativo, através do Congresso Nacional com a sanção do presidente da República, dispor sobre todas as matérias de competência da União, nos termos do artigo 48 da CF, a Lei 8.906, de 4 de julho de 1994, que trata do Estatuto da Advocacia e da Ordem dos Advogados do Brasil, pela sua própria origem e forma, se insere nestas condições, o que por si só já afasta qualquer arguição de inconstitucionalidade.

O livre exercício de qualquer trabalho, ofício ou profissão corresponde ao direito e à garantia de liberdade de escolha, formação e atuação de uma atividade. Significa que ninguém será impedido de exercer uma atividade ou obrigado a exercê-la, desde que respeitados os preceitos e as condições legais, não só sob o ponto de vista trabalhista, mas também criminal, social, etc.

Assim, pela própria quantidade e diversidade de atividades existentes atualmente e pelas características e peculiaridades que cada uma apresenta, faz-se necessário regrá-las para que atendam à função social que lhes é inerente.

Sob este aspecto é que pela própria origem, função e evolução histórica da advocacia, se faz necessário tratá-la de forma específica e adequada, para delinear-lhe suas condições de atuação, primando-se pela qualidade e capacidade técnica daqueles que a exercem. Ressalvando que o advogado representa interesses daqueles que os constituem e é indispensável à administração da justiça.

Diante disso, seja pela razoabilidade (critério subjetivo) ou pela legalidade (critério objetivo) não é inconstitucional exigir para o exercício da advocacia a inscrição na OAB e condicioná-la, dentre outros requisitos, à aprovação em exame técnico, nos termos dos artigos 3º, 4º e 8º da Lei 8.906/1994, visto que é da essência desta carreira à função social e o múnus público.

Ademais, este exame observa normas e diretrizes fixadas pelo Conselho Federal da OAB, atualmente através do Provimento 136/2009, que são de pleno conhecimento e acesso público, onde estão descritas todas as suas características, como, por exemplo, quem pode realizá-lo; quem o regulamenta, define e fiscaliza; o formato de seu edital; onde e quando é realizado; qual o seu conteúdo programático; como e por quem é avaliado; como e por que pode ser impugnado o seu resultado etc. Sendo que paralelamente, nas respectivas Seções da OAB, competem às Comissões de Exame e Estágio, dentre outras atribuições, organizarem, efetivarem e fiscalizarem esses exames.

Neste formato, todo interessado tem pleno conhecimento dos requisitos exigidos pela OAB para o exercício da advocacia, bem como para a realização de seu exame probatório e impugnação de seu resultado, garantido o seu direito de nova realização no caso de reprovação. Contidos, portanto, os princípios fundamentais da publicidade e da ampla defesa, o que também afasta qualquer arguição de inconstitucionalidade. 

Sem contar que outras carreiras como a de cargos públicos de juízes, promotores, defensores, procuradores e serventuários da Justiça, dentre outros, também estão sujeitas a avaliações desta natureza para serem exercidas, além das carreiras privadas, onde médicos, contadores e outros também se submetem à comprovação de suas condições técnicas para o exercício de suas atividades, servindo todos como exemplos da necessidade de organização e controle de suas classes, dada a própria importância de suas atividades e no que elas implicam e representam direta ou indiretamente na sociedade.

A questão da qualificação técnica também é delicada. Ainda são poucas e frágeis as políticas de investimentos em educação do Poder Público em todas as esferas, federal, estadual e municipal. A falta de qualificação técnica de profissionais em geral deve-se à formação deficitária da maioria da população, agregada ao interesse econômico de empresários educacionais que se preocupam muito mais em abrir inúmeras faculdades e universidades e angariar o maior número possível de alunos para lucrar, sem avaliar adequadamente seus conhecimentos fundamentais e nem investir para qualificá-los adequadamente como profissionais.

Logo, o que se vê a cada ano é um grande número de profissionais lançados ao mercado completamente despreparados e desqualificados, gerando problemas de ordens social, econômica e financeira.

Infelizmente, os bacharéis em Direito não estão isentos dessa realidade, fazendo, assim, com que a OAB intensifique seu controle através de seus exames probatórios, para que somente se inscrevam e atuem como advogados aqueles que preencherem suficientemente as condições técnicas exigidas.

Por fim, é de se destacar que o controle de formação e qualificação não pode partir de uma única frente, cabendo ao Poder Público e especialmente ao Ministério da Educação investir pesado na educação fundamental e controlar e fiscalizar de perto a qualidade das instituições de ensino para somente aprovar a abertura de novas faculdades e universidades, que preencham os requisitos necessários à formação de verdadeiros profissionais.

 é advogado do escritório Mesquita Pereira, Marcelino, Almeida, Esteves Advogados.

 é advogada do escritório Mesquita Pereira, Marcelino, Almeida, Esteves Advogados.

 é advogada do escritório Mesquita Pereira, Marcelino, Almeida, Esteves Advogados.

Revista Consultor Jurídico, 3 de março de 2011, 17h00

Comentários de leitores

30 comentários

NORMA DE EFICÁCIA CONTIDA!

Wagner (Advogado Assalariado)

INicialmente, como advogado minha solidariedade á sofrida classe dos estagiários de direito e concurseiros.
Ironicamente, estes mesmos estagiários de direito até a data da prolaçao do V. Acórdão supra, aprenderam em suas apostilas, que o artigo 5, XIII cuida de norma constitucional de eficácia Contida. Agora, não mais. Não mais!
A constitucionalidade dita , se alterou,à vista do E.STF.. Sem questiúnculas. Curvou-se, mostrou a espinha e cedeu ao argumento insofismável da interpretação do E.S.T.F
Agora, que "roma locuta et causa finitae", é que vejo que ironicamente tiveram os estudantes que rever os apontamentos dos cursinhos,ante os argumentos veiculados pelos Ministros, que jamais fizeram exame de ordem (alvíssaras), penso nas sábias palavras do meu saudoso pai, que costumava dizer que no Brasil dorme-se com uma Constituição e se acorda com outra! Ante o artigo 5o. simplesmente as expressões da esperança provaram do gosto amargo da injustiça e voltaram ´pé ante pé às noçoes acadêmicas que até então eram uníssonas em alargar conceitos de formação profissional também para os engenheiros , médicos, etc. Que venham agora, portanto, na forma da lei, os mascates, os carpinteiros, com exames de formação profissional.
Consolo-me. POis se marceneiro ou carpinteiro tivessem há dois mil anos, tais exigências, Cristo teria que ter feito exame para a profissão. A humanidade por sorte, não perderia seus preciosos ensinamentos ...
E Bill Gates jamais nos teria dado o Windows, porque não estava aprovado em seu exame de inscrição.
TEM razãonobres colegas. Quando a POlitica entra por uma porta, a Justiça sai por outra

BACHARELENSES

Júnior Brasil (Advogado Autônomo - Consumidor)

Essa bela tese do Prof. Fernando Lima apenas contribui para dar base àquela parcela de bacharéis vagabundos que não estudaram à época da faculdade, não estudam hodiernamente e nunca estudarão.
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Se alguns bacharéis estudassem com o mesmo afinco com que procuram brechas nas leis para encontrar uma teoria que possibilite advogar sem o exame da OAB, passariam nele com facilidade.
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Se a tese pegar, vamos ver no universo do direito um fenômeno muito comum no mundo canino: o de correr atrás da roda. Sim, porque quando o carro para, o cachorro não sabe o que fazer com a roda que tanto queria.
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CONTINUANDO...

BACHARELENSES

Júnior Brasil (Advogado Autônomo - Consumidor)

CONTINUANDO...
Vai ser igual para essa parcela de bacharéis vagabundos e despreparados. Vão virar advogados, mas não vão aproveitar nada do que essa profissão maravilhosa “tinha” para oferecer. E vejam bem, eu disse: TINHA!
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Lembrem-se: a advocacia como tudo na vida obedece à regra de mercado. Se é escasso no mercado, ou pelo menos existe de forma proporcional à população do país, a tendência é de valorização.
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Porém, se está sobrando, ninguém vai querer pagar nada para ter. O Super Homem só é super porque está no planeta terra. Se estivesse em Krypton seria um qualquer.
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Da mesma forma o peixe grande num tanque pequeno. Se estivesse num tanque grande com outros peixes grandes, teria problemas.
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Inconstitucional ou não, a decisão final vai ser do STF. E vai se política. Ou acham que os profissionais de todos os setores envolvidos vão permitir que se acabe com a advocacia só para agradar a todos que pretendem exercê-la? Reflitam: Ministros do STF, quando se aposentam, voltam a advogar, e não vão querer competir com advogados que “ATENDEM EM BARRAQUINHAS NAS FEIRAS”
, pois é isso que aconteceria com 4 milhões de advogados no Brasil, muito embora eu acredite que nem nas feiras haviam vagas...
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E pior do que isso, são os juízes, que não querem 4 milhões de advogados peticionando. Seria impossível atender a tanto processo. Até o “cite-se” demoraria quase um ano. Da mesma forma, o MP, que não conseguiria dar parecer em tanto processo. Diga-se, “BESTEIROL”, pois sabemos a capacidade técnica desse pessoal.
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Peço desculpas pela falta de argumentos técnicos, mas nesse assuntos os fatos falam por si.
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Não é nada pessoal com ninguém, mas PENSEM E REFLITAM.

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