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Mudanças na corte

"STF está adotando posição mais política"

Avesso à imprensa, o ministro aposentado José Carlos Moreira Alves quebrou o silêncio. Em conversa com o repórter Juliano Basile, do jornal Valor Econômico, o ex-presidente do Supremo Tribunal Federal afirmou que a corte que conheceu, de 1975 e 2003, não é mais a mesma. "Hoje, o STF está adotando uma posição mais política do que antigamente", afirmou.

A conversa entre o jornalista e Moreira Alves pode ser lida na edição desta terça-feira (23/8) no jornal Valor Econômico. Sobre o ativismo judicial, ele disse: "No meu tempo não havia isso; mas vão dizer que estou velho e não compreendo os temas novos".

Leia a reportagem:

Por mais de duas décadas, o Supremo Tribunal Federal (STF) foi conhecido como a Corte de José Carlos Moreira Alves. Aposentado desde 2003, o jurista constatou que o STF se tornou outro tribunal. Está mais político do que em seu tempo, mudou orientações em relação a outros Poderes, como o Congresso, passou a dar sentenças em que acrescenta regras para o cumprimento de suas decisões e, para completar, se informatizou, fazendo com que os ministros tomem decisões através de senhas eletrônicas.

"Hoje, o STF está adotando uma posição mais política do que antigamente", afirmou Moreira Alves, numa rara entrevista. Em mais de 27 anos no Supremo, Alves defendeu muitas teses fortes. Uma delas era justamente a de que o juiz não deve falar com a imprensa; apenas nos autos dos processos. Aos 78 anos, ele quebrou essa regra por 20 minutos ao aceitar conversar com o Valor, no dia 11 de agosto, após receber o título de doutor "honoris causa" da Escola de Direito de Brasília (EDB) das mãos do ministro Gilmar Mendes.

Outra tese que foi fielmente seguida pelo STF de Moreira Alves era a de a Corte não criar ou indicar normas, caso o Congresso demore para aprovar leis. O tribunal simplesmente ultrapassou o semáforo dessa regra, em 2007, quando decidiu que, na falta de aprovação pelo Congresso de uma lei sobre a paralisação do trabalho pelos servidores públicos, eles teriam de seguir a lei de greve do setor privado. No início deste ano, nova ultrapassagem quando o STF decidiu que, sem lei para o aviso prévio, a própria Corte vai definir critérios para fixar um novo prazo para o benefício que será superior aos 30 dias atuais.

O Supremo tornou-se ativista? "Esse é o tal problema", responde Moreira Alves. "Ao se elaborar uma lei ou ao se indicar quando ela será aplicada, se conduz a um poder político de dizer: a normatividade é essa."

Alves explicou que, antes, ao receber pedidos judiciais para que o Congresso aprove uma lei, o STF apenas fazia uma comunicação aos parlamentares de que eles estavam demorando para garantir um direito à população. Esses pedidos são chamados formalmente de mandados de injunção. "Eu sempre disse que o mandado de injunção é um instituto que, na realidade, não tinha possibilidade de criar normas, mas era apenas um alerta que se dava ao Congresso Nacional para que ele criasse as normas", disse Alves.

Hoje, os mandados de injunção ganharam uma nova força, pois há sempre o risco de que, ao julgá-los, a Corte pós-Moreira Alves indique uma nova lei a ser aplicada ou fixe novas regras que não foram aprovadas pelo Parlamento. "É a própria Constituição que declara que, na ação de constitucionalidade por omissão [dos parlamentares], se faça comunicação ao Congresso. Mas não diz lá que se faça norma para substitui-lo ou para atuar no mundo da lei."

Outro tipo de decisão, que não existia na época de Moreira Alves é a sentença aditiva - quando o tribunal acrescenta regras à lei para que uma decisão seja cumprida. Isso aconteceu em pelo menos dois grandes casos recentes: no julgamento que autorizou pesquisas com células tronco, pois o tribunal criou um novo estatuto para a realização dessas pesquisas, e na demarcação da reserva Raposa Serra do Sol, quando os ministros fixaram novas condições para que a terra fosse devolvida para os índios.

"No meu tempo, não havia isso", pontuou Alves. "Vão dizer: o homem está velho e não tem compreensão dos temas novos", continuou.

Sobre o novo papel do STF, disse que "é um papel irreversível". "Essa orientação, hoje, é amplamente predominante. A diretriz dada pelo tribunal é exatamente a de suprir as lacunas [de leis] sejam elas totais ou parciais."

O STF está, hoje, mais preocupado em resolver grandes questões do país e, por isso, passou a indicar qual é o direito a ser aplicado mesmo na falta de leis? "O problema aí é saber justamente se a Constituição outorga esse poder ou se ele foi criado pelo tribunal", constatou Alves. "Se foi criado pelo tribunal, é uma tendência. E sendo uma tendência da grande maioria, ela deve ser seguida, até porque há uma modificação na orientação da Corte."

Alves não se sentiu confortável ao falar dessa nova orientação do STF. Para ele, não há novidade no fato de que, ao decidir, o tribunal cria um novo direito. "Toda a decisão judicial não deixa de ser no fundo a criação de um direito", disse. Segundo ele, o que há de diferente é a intensidade dessa criação, pois o STF está criando direito novo em vários temas.

"Mas, a minha formação não foi essa. Ela foi mais jurídica e, por isso, sempre procurei dar às minhas decisões um fundamento jurídico. Agora, evidentemente, com a mudança de orientação é difícil a gente estar fora do tribunal e dizer se deve criticar ou não. Confesso que não gosto de falar sobre novos colegas ou de novas orientações até porque parece que temos um saudosismo penitente ou, então, nos tornamos um progressista que só se tornou progressista quando deixou o tribunal."

Para o ex-ministro, o grande desafio do STF é ficar num terreno que seja razoável, e não começar a criar normas absolutamente novas em matéria de direito. Ele reconheceu que essa tarefa é difícil, ainda mais diante de questões muito populares, como união homoafetiva e cotas raciais em universidades.

"São questões constitucionais. No problema da união estável, a Constituição diz que é do homem com a mulher. Portanto, é preciso saber se é só essa [união] ou se há outras. O mesmo ocorre com as cotas: é preciso saber se é possível se afastar o princípio do mérito tendo em vista o problema das cotas raciais e até mesmo sociais. É um problema realmente delicado, pois daqui a pouco vai haver até para os brancos e para os não inteligentes."

Alves foi sucedido no STF pelo ministro Joaquim Barbosa, relator do mensalão. "Tivemos um só caso parecido com esse, que foi o caso Collor", lembrou. "Eram 140 volumes. Impossível de se ler tudo." O ex-presidente Fernando Collor foi absolvido pelo STF e, hoje, é senador. O ex-ministro disse que o caso do mensalão pode trazer novamente para a Corte "o problema de se decidir sobre aquilo que foi lido por terceiros". Hoje, o processo está com 44 mil folhas divididas em 210 volumes e 484 apensos.

Alves recordou-se que, durante uma discussão sobre a necessidade de o Senado aprovar algumas orientações dadas pelo STF, ele defendeu que o tribunal não poderia emitir meras opiniões ao Parlamento. "Sustentei ideias que eram difíceis naquele momento e ainda disseram que eu era conservador." Na ocasião, ele disse que o STF se tornaria um "órgão lítero-poético-recreativo", pois apenas faria manifestação para, depois, o Senado decidir. "Aquele passo foi importantíssimo", disse Gilmar Mendes, que utilizou a mesma expressão durante o julgamento do italiano Cesare Battisti para criticar a decisão em que o tribunal permitiu que o presidente da República desse a palavra final em casos de extradição. "Aquele episódio envolvendo o Senado deu força para a Adin", completou Mendes, referindo-se à ação direita de inconstitucionalidade pela qual o STF pode derrubar leis aprovadas pelo Parlamento.

Para Moreira Alves, o STF está passando por "modificações rápidas demais". Mas, as suas memórias da Corte continuam muito boas. "Afasto qualquer ideia que não seja agradável das demais. Fui ministro por 27 anos e dez meses, sem ter nenhum apoio político de qualquer órgão ou pessoa."

Alves foi nomeado pelo presidente Ernesto Geisel para o STF, em 1975, e guarda até hoje a frase que ouviu ao ser indicado. "O presidente disse que fui nomeado tão moço que o tribunal ficaria cansado de mim."

Oito anos depois de sua aposentadoria, o ministro enxerga o STF como "uma Corte abastada da realidade política".

Revista Consultor Jurídico, 23 de agosto de 2011, 13h14

Comentários de leitores

6 comentários

E cadê os outros?

www.eyelegal.tk (Outros)

O comentarista pensa que só existe esse mal no Legislativo?
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Se o Congresso não decidiu determinado tema é porque até hoje não quis dessa maneira, vigora então o direito vigente.
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Sim temos Congresso Nacional que, como todas as outras Instituições também não funciona a contento.
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E por que o leitor não se candidata a uma de suas vagas, em vez de ficar se lamentando?
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A política do "é dando que se recebe" é a moeda de troca do Executivo há muitos governos para tentar administrar o Congresso Nacional.
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Itamar Franco constatou que Lula interferiu mais no Legislativo do que os militares durante a ditadura.
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Com a Emenda da Reeleição durante o Governo FHC, restou desequilibrado o sistema constitucional que previa a indicação de Ministros do STF pelo Presidente da República, cujo mandato era de cinco anos, acarretando o fenômeno de um único Presidente ter indicado a maioria absoluta dos membros do Tribunal.
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Como se vê, o erro é sistêmico e o STF alega omissão do Legislativo para ditar novas normas contrariando o ordenamento jurídico existente, o que não pertence à sua competência.
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Porém, quando começa a interferir amplamente com toda a sociedade para alterar o modo de vida da população em geral e os costumes dos cidadãos e suas famílias sem ter quem lhe outorgue mandato para tal fim, começa a incomodar muitas pessoas que não querem que o Supremo intervenha no processo político do Legislativo para conceder direitos que não existem, diferenciando cidadãos que são iguais a todos os outros perante a lei.

AQUI HÁ LEGISLATIVO ?

Fernando José Gonçalves (Advogado Sócio de Escritório)

MAS..... AINDA TEMOS CONGRESSO NACIONAL ? E, SE TEMOS, ESTARIA ELE, (O CONGRESSO), PREOCUPADO COM A SUA FUNÇÃO LEGISLATIVA OU NÃO LHE SOBRA MAIS TEMPO PARA ISSO, EM MEIO A CORRUPÇÃO GENERALIZADA QUE PROCURA JOGAR PARA DEBAIXO DO TAPETE ?

O STF é uma Corte política

www.eyelegal.tk (Outros)

Em toda parte, toda corte constitucional é um tribunal político.
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O problema é quando eles começam a fazer ativismo demais fora de qualquer tipo de controle e a dizer o direito ao contrário daquilo que manda a Constituição, usando sofismas para desafiar a Carta e prejudicar a população em geral, interferindo até mesmo no direito de família, como nos casos dos julgamentos das ADPF's 132 e 178, com o que pretendem singelamente redesenhar a base da sociedade brasileira.
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Basta!
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O STF está se sobrepondo perigosamente ao Congresso Nacional e confrontando o sistema constitucional da democracia representativa, praticando atos sem nenhuma competência ou legitimidade e a sociedade não é obrigada a seguir essas decisões, porque ninguém será obrigado a fazer ou deixar de fazer algo senão em virtude de lei.
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Lei não é decisão do STF.
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Muito antes pelo contrário. Mas parece que os ilustres Ministros foram contaminados pelo Lulismo e também perderam a modéstia, imaginando que o país não vai reagir ao seu abuso de jurisdição.
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Ledo engano.
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Aqui é o Brasil. Este é o país onde tudo é possível. Não queremos o Estado interferindo nas famílias e na formação familiar da personalidade dos nossos filhos.
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Nem o STF, nem o Governo e nem a Mídia.
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