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Direito de Defesa

Dolo eventual e culpa consciente em acidente de trânsito

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A distinção entre culpa consciente e dolo eventual tem ocupado não apenas as pautas acadêmicas, mas também o noticiário nacional. Trágicos acidentes de trânsito decorrentes de graves violações das normas de cuidado, com vítimas fatais, trazem a discussão sobre a natureza dos delitos dos motoristas: homicídio doloso ou culposo? Dolo eventual ou culpa consciente? A competência para o julgamento é do juiz singular (culpa consciente) ou do Tribunal do Júri (dolo eventual)?

A resposta a tais questões exige um retorno à dogmática e aos conceitos desenvolvidos pelas escolas e juristas em busca de definições que orientem o intérprete das normas penais.

O ato típico do delito é composto por aspectos objetivos — conduta descrita na norma penal — e subjetivos. Neste ultimo plano verifica-se se o resultado — ou a periculosidade — é fruto da vontade final (dolosos) do agente, do agir imprudente (culposos), ou está ligado àquela zona de consciência cinzenta que caracteriza o dolo eventual e a culpa consciente.

E aqui surgem os problemas, justamente nesta fronteira imprecisa entre o dolo eventual e a culpa consciente, conceitos de difícil definição diante da complexidade de “reproduzir linguisticamente de maneira adequada um fenômeno psicologicamente sutil” [1]. Mas a identificação de critérios que revelem os contornos de tal sutileza é importante porque existem reflexos práticos fundamentais ligados à natureza de cada instituto, como a definição do tipo penal — com grandes diferenças de pena em abstrato — e da competência para o julgamento.

As teorias que buscam diferenciar dolo eventual da culpa consciente são variadas, mas podemos destacar três: a teoria da indiferença, a teoria da representação e a teoria objetiva do risco.

Para a teoria da indiferença — defendida por Engish e parte dos autores brasileiros — o dolo eventual se caracteriza pela indiferença do autor quanto à lesão ao bem jurídico, enquanto que na culpa consciente a causação do resultado é considerada inaceitável pelo agente. Assim, o condutor de um veículo agirá com dolo eventual se constatada sua indiferença quanto ao resultado morte de qualquer pedestre ou motorista.

Critica-se tal teoria pelo reducionismo do dolo eventual. Em muitos casos, o agente tem o efetivo desejo que o resultado lesivo não ocorra, que a causação da morte ou lesão não aconteçam, mas prevê tal possibilidade e continua com seu comportamento. É o caso do motorista que viola as normas de trânsito, percebe a possibilidade de atropelar alguém, mas deseja sinceramente que nada ocorra, que ninguém entre em seu raio de ação e se machuque. Não há indiferença, no entanto existe dolo eventual porque há aceitação do risco.

Outra teoria é a da representação — Schröder e Schmidhäuser — para a qual o dolo eventual é caracterizado pela percepção do risco pelo agente. Assim, se o condutor do veículo percebe — ao ultrapassar os limites de velocidade — que cria um risco e é possível a eventual lesão ou morte de alguém em decorrência daquele comportamento, haverá dolo eventual, independente de sua vontade em relação a tal resultado — seja indiferença, seja certeza de que nada ocorrerá. A mera representação da possibilidade de uma lesão já basta para o dolo eventual.

A crítica à teoria decorre aqui de sua abrangência, pois estende demais o conceito de dolo eventual. Basta a percepção da criação do risco para o dolo eventual, mesmo que o condutor tenha certeza de que nada vai acontecer devido à sua habilidade ou ao fato de ter tomado cuidados para evitar o resultado lesivo. Roxin usa um exemplo singular para ilustrar a questão. O artista de circo que atira facas em sua assistente sabe da possibilidade de acertá-la, mas confia na não ocorrência do resultado devido à sua perícia no manejo dos instrumentos. Se, por uma tragédia, uma das facas lesiona ou mata a assistente, não há dolo eventual, mas culpa consciente, porque ausente qualquer aceitação ou vontade de resultado, mas apenas uma representação de possibilidade, insuficiente para transformar a tragédia ou a imprudência em dolo[2].

A teoria do risco vê no grau de violação da norma de cuidado o critério para a distinção entre culpa consciente e dolo eventual. Para este pensamento, o comportamento muito imprudente, que ultrapasse intensamente o risco permitido, já revela dolo eventual, independente do que quer ou pensa o autor. É a construção adotada por parte significativa da jurisprudência:
"(..) 6. Para configuração do dolo eventual não é necessário o consentimento explícito do agente, nem sua consciência reflexiva em relação às circunstâncias do evento. Faz-se imprescindível que o dolo eventual se extraia das circunstâncias do evento, e não da mente do autor, eis que não se exige uma declaração expressa do agente" (STF, HC 91.159, grifos nossos).

A proposta de afastar completamente a mente do autor, o aspecto subjetivo para diferenciar o dolo eventual da culpa consciente não parece acertada porque transforma em dolosa qualquer conduta que viole normas de cuidado e cause um resultado. Qualquer imprudência que resulte na lesão ou morte de alguém será dolosa se o juiz não perscrutar a mente do autor.

Em síntese, a diferença entre culpa consciente e dolo eventual não reside no grau de risco criado, nem apenas no conhecimento dos riscos nem na indiferença em relação aos bens jurídicos, mas na agregação de todos os elementos apontados.

Tanto no dolo eventual quanto na culpa consciente o agente deve criar um risco não permitido e perceber que cria este risco. Em ambos o condutor sabe que viola normas de cuidado. Mais do que isso, em ambos o agente não quer o resultado, não deseja a lesão do bem jurídico. Ou seja, não há indiferença em relação à possibilidade de causar um resultado, mas uma sincera vontade de preservar o bem jurídico.

A distinção é: na culpa consciente o agente — por algum motivo — tem certeza que não ocorrerá o resultado, enquanto que no dolo eventual o autor tem dúvidas sobre isso e mesmo assim continua agindo. Assim, o condutor que percebe que está em alta velocidade, mas acredita que, devido à sua habilidade e perícia ao volante, evitará qualquer colisão, está em culpa consciente. Já o motorista que sabe que anda acima da velocidade permitida e representa/percebe a possibilidade de causar um acidente, tem dolo eventual, mesmo que deseje ou tenha esperança de não lesionar outrem.

O espaço entre confiar e desejar separa o dolo eventual da culpa consciente. Não se nega a dificuldade de encontrar tais elementos no processo penal, mas se quisermos manter um conceito de delito relacionado com a intenção do agente e uma ideia de Direito Penal como um conjunto de normas motivadoras e não um instrumento de imputação aleatória de resultados, não devemos abrir mão dos aspectos subjetivos, que embora sutis e de difícil revelação, são a garantia de uma dogmática mais humana[3].


[1] Derecho penal. Parte general. 2. ed. Madrid: Civitas, 1997, p.427

[2] Derecho penal. Parte general. 2. ed. Madrid: Civitas, 1997, p.420

[3] Para uma panorâmica geral sobre a discussão atual entre dolo eventual e culpa consciente, ver CANESTRARI, Stefano, Dolo eventual e colpa consciente. Giuffré: Milano, 1999

 

 é advogado e professor de Direito Penal na USP. Foi membro do Conselho Nacional de Política Criminal e Penitenciária e secretário de Reforma do Judiciário, ambos do Ministério da Justiça.

Revista Consultor Jurídico, 9 de agosto de 2011, 12h04

Comentários de leitores

4 comentários

Excelente artigo! [2]

Vince (Advogado Autônomo - Criminal)

Excelente e esclarecedor. Acho que, devido a complexidade da teoria e dificuldade de aplicação no caso concreto (sem falar na dificuldade de explicar essas diferenças para aqueles que são tutelados pelo Direito) é que poderia se cogitar a extensão do júri para crimes culposos contra a vida ou a extinção do júri dos crimes dolosos.

artigo esclarecedor.

Ademilson Pereira Diniz (Advogado Autônomo - Civil)

1 - QUANTO AO ARTIGO : Excelente o artigo, tendo o articulista colocado com mestria o tema em questão, demonstrando que há, ainda, bons PROFESSORES, isto é, aqueles que não só dominam a matéria de seu magistério, como também sabem explicá-la;
2 - QUANTO AO COMENTÁRIO anterior: Entendo que colocar fogo no índio (o caso de Brasília) foi DOLO MESMO, não eventual: é que, nas figuras do dolo eventual e da culpa concorrente, a ação incial que dá causa à ação final (evento danoso) não é ilícita (veja: dirigir um automóvel não é ato ilícito; este só ocorre se o ator (sujeito da ação) se houver com imprudência,negligência ou imperícia no dirigir (crime culposo) ou, agindo ALÉM dessas cautelas, ignorando-as OBJETIVAMENTE (ou por entender-se capaz de vencer alguma emergência -- culpa consciente; ou por DESPREZAR eventuais consequências desse seu agir --- dolo eventual) causar o dano a outrem. MAS, em ambos os casos, o ATOR (sujeito) encontrava-se no exercício de uma ATIVIDA LÍTICA. Um médico poderá cometer um homicídio CULPOSO, se proceder com negligência, imperícia ou imprudência, como poderá cometer um homicídio doloso (dolo eventual) se, além de ignorar os cuidados necessários, efetuar uma cirurgia num centro cirúrgico que não disponha do apoio técnico necessário para o socorro no caso de uma emergência que venha a ocorrer, e que seja prevista, em hipótese, para a espécie cirurgia que esteja a praticar: isto é criar um RISCO sobre RISCO. No caso do ÍNDIO DE BRASÍLIA, não houve dolo eventual, MAS, DOLO MESMO, já que a atividade INICIAL dos agentes já era, desde o início, ilícita, presumindo um RESULTADO previsto e admitido. Ora, quem joga gasolina numa pessoa e ateia-lhe fogo, está querendo queimar e matar essa pessoa.

ötimo artigo - (Ana Maria Detthow Pinheiro)

Ana Maria Detthow de Vasconcellos Pinheiro (Policial Militar)

Meus cumprimentos ao articulista.
Esse tema é um tormento dos operadores de direito.
No caso dos rapazes de Brasília que jogaram gasolina no índio adormecido na parada de ônibus e lhe atearam fogo, penso que tenha sido um delito praticado com dolo eventual. No entanto, o juízo não julgou assim. Afinal, quem derrama um ou dois recipientes de gasolina em alguém deitado, adormecido e lhe ateia fogo, assume o resultado morte.
Outro caso interessante seria o da famosa história de Guilherme Tell que colocou uma maçã sobre a cabeça do filho e atingiu a maçã com uma flechada. Não me lembro se ele foi obrigado a isso. Mas caso tivesse tomado essa decisão arriscada e tivesse atingido o filho, teria sido por culpa consciente... Afinal, ele tinha plena confiança em sua habilidade como arqueiro...

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