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Ideias do Milênio

"Picasso era um vampiro, precisava de amor e atenção"

Entrevista de John Richardson, amigo e biógrafo de Picasso, ao jornalista Jorge Pontual para o programa Milênio, da Globo News, transmitido em julho de 2011. O Milênio é um programa de entrevistas, que vai ao ar pelo canal de televisão por assinatura Globo News às 23h30 de segunda-feira, com repetições às 3h30, 11h30 e 17h30 de terça; 5h30 de quarta; e 7h05 de domingo. Leia, a seguir, a transcrição da entrevista:

John Richardson conheceu Picasso no início dos anos 50 quando ambos viviam no sul da França. Richardson vivia com outro inglês, um colecionador de Picasso chamado Douglas Cooper. Durante 10 anos, os dois, Picasso e Richardson, foram íntimos. O artista autorizou o inglês a escrever a biografia dele e contou tudo. O resultado foi “Uma Vida de Picasso”, com três volumes publicados. O último, previsto para o ano que vem, é a mais detalhada, exaustiva e divertida biografia do artista que dominou a arte do século 20. Para Richardson e a maioria dos historiadores, o quadro que Picasso pintou em 1907 “Les Demoiselles d'Avignon” é a obra mais importante da arte moderna. Richardson também se tornou íntimo das duas últimas mulheres de Picasso, Françoise Gilot e Jacqueline Roque, e dos filhos de Françoise: Paloma e Claude. Por isso, nos últimos anos, ele é o único curador capaz de organizar exposições com obras cedidas pela família e por colecionadores nunca antes vistas. Richardson, que está com 87 anos, colocou um marca-passo uma semana antes de gravar este Milênio. Nós conversamos na galeria Gagosian em Nova York onde Picasso retrata sua jovem amante Marie-Thérèse Walter, que ele conheceu adolescente e com quem viveu por quase dez e teve uma filha, Maya. O lugar ideal para falar da complicada relação de Picasso com suas muitas mulheres.

Jorge Pontual — Muito se falou sobre o relacionamento dele com as mulheres. Feministas dizem que ele as explorava, que ele era um monstro sexista, mas não é assim que o senhor o retrata.
John Richardson — Quando se escreve sobre Picasso, para tudo o que se diga, o inverso também é verdade. Eu conversei com Françoise Gilot, a amante dele nos anos 40 e 50, sobre esse assunto, e ela disse: “É a mais pura verdade. Ele podia ser o homem mais doce, genial e amável do mundo, mas também podia ser o mais malévolo, cruel e sádico do mundo.” Por algum motivo, as pessoas com essa vasta gama de polaridades acabam nos hospícios, mas, com Picasso, tudo funcionava bem. É isso que dá uma força incrível à obra dele. Deve ser um pesadelo para a pessoa ter essa variação incrível de reações emocionais. Isso dificulta muito o trabalho do autor, porque, para tudo que eu escrever, o inverso, até certo ponto, também será verdade. Manobrar isso pode ser dificílimo.

Jorge Pontual — Estamos nesta galeria cercado pela obra de Picasso, na mostra que o senhor e a neta dele criaram. É sobre a paixão dele pela moça Marie-Thérèse Walter, a jovem amante dele. Atrás do senhor, há a escultura da cabeça dela. Ele pôs os órgãos sexuais dele como nariz dela, é isso? É óbvio, mas...
John Richardson — Ela tinha um nariz enorme, e era disso que ele gostava nela. No fim dos anos 20, em 1927, ele a conheceu. Ela não era do tipo em moda naquela época, tinha um nariz pronunciado, com sardas, peito bastante reto, não era o que atraía Picasso. Ele gostava dela porque tinha um perfil romano, com um nariz arquitetônico, e ele a retratou. Dessa maneira, ele vê o nariz dela com a forma do pênis dele, de certo modo. As esculturas ficam parecendo imagens de culto. Ele lhes concede um mistério incrível e uma importância sacra.

Jorge Pontual — Ele teve muitas esposas. Estou me lembrando de um famoso compositor brasileiro, Vinícius de Moraes, que também teve várias esposas, e também foi apaixonado por cada uma delas. Ele disse: “O amor é eterno enquanto dura.” Depois, acaba, e surge um novo. Picasso era assim, apaixonado por cada uma delas?
John Richardson — Sim, mas eram muito diferentes umas das outras. Cada uma tinha uma história distinta e suas reações a ela. Marie-Thérèse foi a mais próxima... O primeiro casamento dele foi um desastre. Ela era extremamente histérica, uma bailarina russa muito linda e talentosa, mas era a última pessoa do mundo com quem ele deveria ter se casado. Não servia como esposa, porque ela queria transformá-lo em um burguês, que oferecia jantares sofisticados para pessoas sofisticadas. Tudo seria muito cerimonioso, e era a última coisa que Picasso queria. Quando Marie-Thérèse apareceu, era uma esposa de verdade. Era boa, era uma namorada bonita e, mais à frente, fez bem o papel de esposa. Eles moraram sob o mesmo teto, tiveram uma filha, era um lar, um ambiente muito marital. Com Dora Maar, que também foi amante dele, eles moravam em casas separadas, iam muito a cafés, nunca viveram juntos. Cada amante teve um papel distinto e era tratada de maneira diferente. O que Marie-Thérèse teve de tão importante foi o fato de ser uma jovem extremamente doce e submissa, que, obviamente, era o que agradava a ele. E era loucamente apaixonada por ele. Ela se portava como esposa dele e aturava as infidelidades, que foram inúmeras. Ela era a esposa dele de fato.

Jorge Pontual — Cada mulher que passou pela vida de Picasso foi um modelo para ele. Seu estilo de pintura mudava de acordo com elas. Por exemplo, com Marie-Thérèse, era puro sexo. Com cada uma, era um estilo. Ele disse que cada uma delas percebia quando a mulher seguinte por quem ele se apaixonava passava a ser a modelo. Deve ser difícil para uma mulher ver isso.
John Richardson — Ele disse... Estávamos vendo um livro com muitos retratos. Eu estava tentando descobrir quem era quem, pois era um misto de namoradas, de esposas, de amigos poetas, e de que maneira se relacionavam. E ele disse: “Aqui, é possível perceber que meu interesse por essa amante estava acabando, porque o cabelo louro da outra aparece no canto.” Em alguns retratos dele, vemos cabelos castanhos de um lado e louros do outro. Ele pintava uma mulher, mas também pensava na outra. Uma das peculiaridades das obras expostas aqui é que aquela que aparece na capa do catálogo, em que a mulher tem a mão no rosto e a cabeça está assim, é uma das imagens mais lindas que fez dela e pintou enquanto estava com Dora Maar, a rival dela. Muitas vezes, vemos que esses retratos encantadores das moças foram feitos enquanto estava com outras mulheres.

Narração do Jorge Pontual:
Pablo Picasso se tornou o pintor e escultor mais importante da escola de Paris no início do século 20. Sempre viveu na França, mas nunca deixou de ser essencialmente um espanhol. Nascido em Málaga, na Andaluzia, foi marcado pelo código de honra dos homens andaluzes que rejeitam a violência, mas exigem mulheres submissas. O pai de Picasso, um pintor fracassado, arrastou a família à extrema pobreza e a outras cidades da Espanha. La Coruña, na Galícia, onde a irmã mais nova do artista morreu, e por fim Barcelona na Catalunha onde ele se revelou um pintor precoce, muito superior ao pai. Picasso perdeu a virgindade ainda adolescente num prostíbulo de Málaga que o pai dele frequentava. Pela vida toda, ele frequentou bordéis, e num dos seus quadros mais famosos “Les Demoiselles d'Avignon”, as senhoritas de Avignon, uma cidade do sul da França, ele retratou de forma ousada e inédita um grupo de prostitutas. O fato é que nenhum artista amou mais as mulheres do que Pablo Picasso. E a cada nova mulher tudo mudava: o estilo, os temas, o lugar onde o artista morava, os amigos, tudo. É curioso. Picasso é famoso por ter mudado várias vezes radicalmente o seu estilo de pintar. John Richardson descobriu que isso não se explica por uma escolha artística. Era a resposta de Picasso à chegada de uma nova paixão.

Jorge Pontual — Lembro-me de algo que li no seu livro. O senhor diz que ele era como uma mulher, mas uma mulher que amava mulheres, uma lésbica. O artista devia ser assim, uma mulher que gosta de mulheres. Um homem homossexual, por gostar de homens, não pode ser um grande artista. O que ele quis dizer?
John Richardson — Ele se encrencou com isso. Foi um pensamento elaborado, e eu o citei porque era típico de Picasso. Era algo que ele dizia e, uma semana depois, afirmava o inverso. Não precisamos levar muito a sério, mas era uma fantasia que ele tinha. Ele uma vez falou comigo que queria fazer um quadro que pudesse ser visto na vertical, na horizontal e de qualquer um dos lados, que dissesse tanto “sim” quanto “não” e fosse tanto homem quanto mulher. Tudo estava em um estado de flexibilidade na vida dele, e ele gostava que fosse assim.

Jorge Pontual — Mas ele também gostava de estar rodeado por gays, que eram como bobos da corte para ele, como Cocteau, Max Jacob, e que eram amigos dele.
John Richardson — Picasso e os gays.

Jorge Pontual — Eram apaixonados por ele.
John Richardson — É verdade, Max Jacob era apaixonado por Picasso. Cocteau passou a vida apaixonado por Picasso. Picasso era um vampiro, de certa forma. Ele precisava de amor, atenção e compreensão. Quanto mais, melhor. Ele se alimentava disso. Se fosse jantar na casa dele, havia homens, mulheres, jovens e mais velhos, mas ele atraía a atenção de todo mundo. Você o via passar por toda a sala. Crianças, velhos... Mas acho que havia um grande número de gays na vida dele, amigos próximos, e me incluo entre eles. Ele adorava pessoas que entendiam o trabalho dele, que reagiam a ele e o amavam. Era uma coisa imensamente importante para esse gênio vampiresco.

Jorge Pontual — Talvez a pintura mais famosa dele, “Lês Demoiselles d’Avignon”, que é uma espécie de marco, retrata prostitutas.
John Richardson — Não!

Jorge Pontual — Não?
John Richardson — Bem... Elas eram chamadas de “demoiselles”, que era um apelido para as mulheres de prostíbulos. Mas, na verdade, tem mais a ver com a relação dele com Fernande Olivier, amante dele na época. E, de certo modo, cada mulher é Fernande Olivier, mas são expostas como estivessem em um prostíbulo, sendo oferecidas aos clientes. Essas obras têm muitas camadas de significados. Isso é crucial.

Jorge Pontual — O senhor diz no livro que ele, quando jovem, era viciado em prostíbulos. Isso era comum para um homem da Andaluzia. Em Málaga, na adolescência, ele frequentou bordéis.
John Richardson — Picasso era grande conhecedor de bordéis. O pai dele era famoso por frequentá-los. Era a vida espanhola no final do século 19. O pai dele ia à tourada, eles se encontravam em um café para a tertúlia, onde os homens falavam de problemas, esportes, um pouco de política etc. Depois, iam todos ao prostíbulo e, mais tarde, voltavam para casa, para o grande jantar preparado pela mãe. Ele foi criado assim.

Jorge Pontual — Qual foi a promessa que ele fez a Deus quando a irmã estava morrendo? Que importância teve na vida dele?
John Richardson — Foi crucial. Ele tinha uma irmã mais nova, Conchita. Foi um momento difícil na vida de família Picasso, em La Coruña, norte da Espanha. Viviam em uma região remota, muito gelada, em uma área carente. Subitamente, a irmã, que ele adorava, contraiu um tipo de febre tifóide. Foi a peste. A cura tinha acabado de ser descoberta em Paris. Acho que Pasteur estava envolvido. Encomendaram o remédio que salvaria a vida dela e esperaram que chegasse de Paris. Nesse meio-tempo, a febre piorou. Picasso vinha de uma longa linhagem de padres. Há um grande número de padres famosos na família. Um antepassado muito distante, que era capitão-geral do Peru, era também o arcebispo. O tio dele foi uma figura católica importante. E ele era muito pio na época, trabalhava e estudava para ser religioso. Ele fez uma promessa a Deus de que, se a vida de Conchita fosse poupada, ele nunca mais pintaria. Mas não cumpriu a promessa, e ela morreu. Isso o assombrou a vida inteira, o fato de que as mulheres tinham que ser sacrificadas para a criação da arte dele. Isso também se aplica porque ele gostava de se ver como um Minotauro para quem as jovens eram sacrificadas. Eu acho que até a guerra, em 1939, isso fazia parte de sua maneira de pensar. Ele contou e explicou a todas as mulheres dele. Acho que ele esperava que elas se encaixassem nos planos e se sacrificassem pela arte dele. Duas ou três o fizeram. Marie-Thérèse se suicidou anos após a morte dele, porque não suportava mais a vida sem Picasso. O mesmo aconteceu com a segunda esposa dele, Jacqueline.

Jorge Pontual — O senhor foi amigo dele por muito tempo.
ohn Richardson —
Não foi durante um período muito longo. Eu vivi no sul da França, na Provença, de 1951 a 1962. Depois, me mudei para os Estados Unidos. Durante esses dez anos, fui muito amigo dele. Principalmente porque, quando o conheci, ele estava na transição entre dois romances. Tinha terminado com Françoise Gilot e estava começando com Jacqueline. Dora Maar já havia me contado que, quando mudava a mulher na vida de Picasso, tudo mudava junto. Havia sempre um poeta por perto. O poeta mudava, os amigos mudavam, a casa, as comidas, os bichos de estimação, tudo! Eu vi isso acontecer, acompanhei a mudança, e era totalmente verdade. Dava para ver... Quando o conheci, ele vivia em uma casinha horrível em Vallauris com Françoise. Depois, se mudou para um palacete, uma mansão imensa. Ele gostava da grandiosidade arquitetônica, da monstruosidade da virada do século. Você via que absolutamente tudo mudava.

Segunda parte
Picasso foi o líder da Escola de Paris, o movimento que lançou a arte moderna antes da Primeira Guerra Mundial. Com outros pintores criou o cubismo, a maior inovação na história desde a Renascença, uma maneira radical de ver o mundo, com dinamismo, fragmentação e o relativismo do século 20. Mas Picasso dizia que para poder romper com a tradição e inovar, o artista tinha primeiro que dominar as técnicas tradicionais. Ele que foi um menino prodígio sempre cultivou talento de exímio desenhista capaz de criar formas perfeitas com um único traço. Picasso defendia a liberdade total do artista de ousar, subverter e também de se submeter às regras clássicas se assim preferisse. Sempre foi independente e rebelde, mas por volta dos 60 anos, quando muitos se acomodam, o artista pela primeira vez passou a se engajar em política e se tornou um militante da esquerda. As imagens que quase todo mundo associa a Pablo Picasso são o desenho da pomba da paz e o imenso painel Guernica, que denuncia o horror da guerra. A pomba que Picasso desenhou em 1949, no início da Guerra Fria entre Estados Unidos e União Soviética, foi usada por muito tempo como símbolo dos partidos comunistas, Picasso era membro do Partido Comunista francês, contra o imperialismo americano. Guernica foi pintada em 1937 durante a guerra civil espanhola para denunciar o massacre de centenas de civis na cidade do mesmo nome no norte da Espanha por bombardeiros da Alemanha nazista e da Itália fascista aliadas ao general Franco na guerra contra a República espanhola. Foi o primeiro ataque aéreo contra civis em toda a história e precursor dos horrores da Segunda Guerra Mundial. Algumas figuras que Picasso pintou em Guernica viraram ícones. O touro, no qual muitos vêem o agressor bestial, um cavalo agonizante em desespero, a mulher na janela que descobre a cena de devastação, e a mãe com a criança morta no colo clamando aos céus. Em Guernica, Picasso atingiu a síntese entre política e arte no século 21. Picasso deixou o quadro em custódia no museu de arte moderna em Nova York com a condição de só ser levado à Espanha depois da queda do regime franquista. Só em 1981 Guernica foi para Madri onde hoje está no museu Rainha Sofia. O surpreendente é que na juventude Picasso era totalmente apolítico e chegou a flertar com extrema direita espanhola como revela o biografo John Richardson.

Jorge Pontual — O que me intriga é que Picasso, boa parte da vida, até os 50 anos mais ou menos, era apolítico. Depois, com a guerra, principalmente da Espanha, o que aconteceu para que ele mudasse?
John Richardson — A política de Picasso é muito mais complicada do que as pessoas se dão conta. Picasso sempre tentou se manter em cima do muro. Não queria se comprometer na política. Nos anos 20, os surrealistas eram comunistas e queriam que Picasso também fosse. Ele flertava com eles, mas dizia: “Eu sou espanhol. A Espanha é um reinado, portanto eu sou monarquista.” Era uma maneira de dizer: “Não quero me comprometer, quero me manter sobre o muro.” Como Federico García Lorca, que também tentava desesperadamente não tomar partido. Ele tentava e tentava se manter nessa posição. Mas acabou sendo impossível. Devemos saber que, em 1934, José Antonio, o fundador da...

Jorge Pontual — Primo de Rivera.
John Richardson — Exato. Ele fundou a Falange. Ele pediu a Picasso, em 1934, para ir a San Sebastian, a um encontro especial da Falange, onde ofereceram a ele aquilo que sempre desejou, uma retrospectiva em Madri. Ele disse que iria.

Jorge Pontual — Eram os fascistas.
John Richardson — Esses eram os fascistas. Naquela época, em 1934, o governo espanhol era republicano. Derrubaram o rei, e o governo era republicano. Mas a Falange estava se tornando cada vez mais poderosa. Depois, houve uma virada histórica, uma guerra começou e não havia dúvida, mas, em 1934, ele havia concordado em fazer isso, em trabalhar nisso com a Falange. Lemos em todos os jornais. Até hoje, dizem que não era verdade. Ele tentou negar mais tarde, mas é um fato. Então, começou a guerra. Ele mudou completamente e se tornou devoto da causa republicana. Trabalhou heroicamente e pintou “Guernica”, que é uma pintura icônica do lado republicano.

Jorge Pontual — Quando ele pintou “Guernica”?
John Richardson — Em 1937.

Jorge Pontual — Pouco depois de acontecer.
John Richardson — Acho que aconteceu no início de 1937. Ele imediatamente começou a trabalhar nela. O que as pessoas não sabem sobre Picasso é como ele era ativo. Da Espanha, ele começou sozinho, com o pessoal dele, uma organização para mandar, por exemplo, leite para as crianças na Madri sitiada. Ele investiu nisso. Mandou pacotes de doações para toda a Espanha. Era incrivelmente generoso nesse aspecto. Quando começaram a prender pessoas e os franceses mandaram os refugiados para os campos para depois entregá-los aos alemães, muitos dos refugiados espanhóis morreram em Mauthasen. Picasso foi incansável no resgate das pessoas, dando dinheiro às causas certas. Depois, tornou-se diretor do Museu do Prado, ainda que in absentia. Mas ele tinha enorme interesse por isso. E ele foi responsável pelo planejamento de resgate das pinturas espanholas para Madri. Franco pediu aos alemães que bombardeassem, e era muito importante retirar as obras-primas de lá. Foram levadas para Valência. Dizem que Picasso foi secretamente a Valência. Há duas ou três versões dessa história. Eu não acredita que tenha ido. Depois, o levaram para a fronteira. Retiraram a maioria das obras bem a tempo, mas os franceses colocaram guardas no campo, que depois acabaram sendo mandados para Mauthausen. Depois, as obras ficaram abandonadas. Não havia verba para levar as obras para Genebra, onde deveriam ficar guardadas. Nem preciso dizer que Picasso deu um cheque e pagou todas as contas. Mas essa história ainda deve ser contada. E o Museu de Arte Moderna, com uma grande ajuda e estímulo da CIA, levou a “Guernica”, imediatamente após a guerra, em exposição. Temos cópias de cartas de vários embaixadores espanhóis em países estrangeiros que diziam: “Vocês precisam impedir que a ‘Guernica’ seja exposta dessa forma porque, toda vez que ela aparece, nós temos que enfrentar revoltas, pessoas, manifestações, dizendo: ‘Abaixo Franco.’ Vocês precisam pensar em alguma forma de deter isso.” E não havia forma de deter.

Jorge Pontual — Como ele se tornou um ícone do Partido Comunista?
John Richardson — Foi, de certa forma, por causa de um mal-entendido. Acho que, em 1944, após a libertação de Paris, Picasso estava tão agradecido a De Gaulle que se tornou gaullista por um curto período. Os gaullistas o convidaram para uma reunião e, na manhã seguinte, a namorada dele, Dora Maar, perguntou como tinha sido, e ele disse que eles eram um bando de horrores. E ele se filiou ao Partido Comunista, mais ou menos no dia seguinte. Ele se filiou ao Partido Comunista porque era o partido da paz. Picasso foi um pacifista a vida toda.

Jorge Pontual — Nessa época, ele pintou a pomba que virou símbolo...
John Richardson — Pintou nessa época, depois, ela virou um símbolo. Mas ele tinha paixão pela paz e tinha muita compaixão esquerdista pelos pobres. Ele sentia muita pena e empatia pelos pobres. Como tinha sido muito pobre quando jovem, para ele, as duas questões centrais eram a paz e a pobreza. Mas o Partido Comunista francês era muito politizado. Perceberam que tinham um ícone e foram explorá-lo. Eu acho que Picasso odiou ser explorado, ser mandado a vários Congressos da Paz, em Wroclaw, Sheffield etc. Ele realmente não gostou disso, mas por outro lado, estava comprometido com o comunismo e não podia escapar disso, estava se tornando cada vez mais um ícone. Então, ele se voltou para as pombas da paz e essas formas mais comoventes e amorosas de demonstrar sua filiação ao partido. Mas, no fundo... Tudo chegou ao ponto crítico em 1956, na Revolução Húngara. Ele queria desesperadamente sair daquela situação, mas não podia fazer isso sem se tornar um vira-casaca. Eu estava presente na época e falava disso com Jacqueline. Picasso estava muito atormentado. Ele queria continuar sendo comunista, sair do partido não estava em questão, mas tinha perdido completamente a fé no projeto comunista. E ele já estava com muita vergonha da grande pintura agitprop “Massacre na Coreia”, que tinha feito a mando dos soviéticos. Eu a chamo de “a única pintura desonesta de Picasso”.

Jorge Pontual — É claro que ele se tornou o mestre supremo da Escola de Paris, da escola de pintura de Paris, e se tornou um pintor parisiense. Ele viveu na França a vida toda. Mas era espanhol de coração?
John Richardson — Totalmente.

Jorge Pontual — O que havia de tão espanhol nele?
John Richardson — Tudo. Eu o vejo como sendo 100% espanhol. Ele residia na França, mas, quanto mais tempo vivia lá, mais espanhol se tornava, de certa forma. Todas as pinturas tardias de mosqueteiros relembram a Espanha do século 17, e não a França ou a Itália do século 17. Acho que o que nós precisamos lembrar é que a Espanha ainda era um país um tanto franquista. Ela tinha pouca tradição na história da arte moderna. E as pessoas escolheram ver Picasso, acima de tudo, como da Escola de Paris, como um artista parisiense quando, na verdade, ele não era nada disso. E o fato de que com a Guerra Civil Espanhola, Alberti, o grande poeta, e muitas outras pessoas foram para Paris... Isso foi maravilhoso para ele. A Espanha renasceu em Paris quando saiu da revolução.

Narração de Jorge Pontual
Nos anos 60, quando já tinha passado dos 80, Picasso era o artista mais celebre do mundo e um dos mais ricos, mas continuava produzindo sem parar. Esculturas, cerâmicas, tapeçaria, desenhos e óleos. Além de imagens, ele também criava com as palavras em livros de poesia e peças de teatro. Ao morrer em 1973 aos 91 anos deixou mais de 50 mil obras e permanece como número 1 no mercado de arte. O valor recorde de uma obra em leilão foi batido pelo quadro “Nu, folhas verdes e busto”, um retrato da jovem amante Marie Thérèse, pintado em 1932, US$ 106 milhões. Os dois principais museus de suas obras são o Museu Picasso de Paris e o Museu Picasso de Barcelona. Os herdeiros, os filhos Claude, Paloma e Maia, e seus descendentes ainda possuem uma enorme coleção que herdaram dele. Através de um bem bolado website www.picasso.fr os herdeiros informam sobre exposições e administram os pedidos de utilização da obra. Quase 40 anos depois de morto, Picasso continua dominando a arte moderna. No fim da vida os críticos o acusaram de ter se tornado um artista comercial produzindo obras em série para faturar em cima da fama, mas não era verdade. Picasso precisava criar como outros precisam de ar e água para viver. Como ele dizia: “A arte é uma mentira que faz a gente ver a verdade.” Em seus últimos anos o artista foi considerado superado. Estava na moda na época a pintura abstrata e Picasso, mesmo em suas obras mais radicais, nunca abandonou a figura, mas ironicamente em sua última fase ele acabou sendo precursor de um novo movimento que viria depois da morte dele, o neoexpressionismo, com a volta da pintura figurativa. Nessa fase final Picasso tinha uma obsessão: a morte. Ele a via nos rostos contorcidos dos mosqueteiros, espadachins do século 17, inspirado num dos maiores mestres da pintura espanhola, Diego Velásquez, que ele pintava incessantemente, às vezes um por dia. Como outro mestre espanhol, Francisco Goya, Picasso sofreu de surdez, e como Goya ele enveredou por experiências com tons e temas sinistros e escuros. O biografo John Richrardson já publicou três volumes de sua obra “Uma Vida de Picasso” com mais de 1500 páginas e trabalha agora no quarto e último volume que vai cobrir os últimos 40 anos da vida do artista e será publicado no final de 2012.

Jorge Pontual — Nas telas dos mosqueteiros, ele estava pintando a morte. O que estava acontecendo? Como ele estava enfrentando sua própria morte?
John Richardson — Picasso era apavorado com a morte. Não era exatamente apavorado, ele odiava a morte. Ele queria manter a morte distante. Não podíamos falar de morte na presença dele, não podíamos mencionar a morte de um amigo. Ele fazia isso constantemente. Antes de dormir, ele recitava o nome de todos os amigos mais íntimos. Ele dizia que fazia isso. Não sei se era como conseguia dormir numa noite insone, mas ele pensava com muito amor em seus amigos e se preocupava muito com a morte deles. Mas não podíamos... Ele ficava tão perturbado com a morte que lembro que, um dia, estávamos comendo no estúdio... Picasso já estava um pouco surdo. Atrás dele, na parede, havia uma confusão de gaiolas de pássaros, pequenos passarinhos. De repente, nós ouvimos um pequeno barulho, um deles devia ter caído morto. Jacqueline passou por trás de Picasso, tirou a gaiola da parede, fez assim, a levou para a cozinha, deu para o motorista jogar no lixo, comprar um novo pássaro e voltar para colocar de novo na parede. Felizmente, havia uma visita que ninguém conhecia, uma mulher que tinha uma nova série sobre Don Quixote, e ela falava sem parar. Picasso estava tentando fazê-la calar a boca, e Jacqueline tentava fazê-la continuar, para ter tempo de colocar a gaiola de volta na parede. Então, ficou tudo bem. Só que, um ou dois meses depois, Picasso estava mostrando os pássaros a alguém e disso: “Sabe o que é incrível nos meus pássaros? Eles são imortais.”

Jorge Pontual — Ele queria ser imortal? Ele é imortal de certa forma.
John Richardson — Sim, ele é imortal.

Jorge Pontual — Muito obrigado, John. Obrigado, acabamos.
John Richardson — Obrigado, ótimo.

Revista Consultor Jurídico, 5 de agosto de 2011, 14h05

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