Colunas
10 fevereiro 2010
Livro Aberto
A biblioteca básica do advogado Orlando Di Giacomo

Orlando Di Giacomo Filho, fundador e primeiro presidente do Cesa (Centro de Estudos das Sociedades de Advogados), gosta de ler nos finais de semana, na fazenda, no aeroporto e no avião durante o voo entre um atraso e outro. Não gosta de suspense, de crimes, nem de violência nas suas leituras. Aprecia histórias romanceadas, daquelas que fazem refletir, sonhar e relaxar.
O seu tempo para leitura é precioso. Por isso, gosta de ler críticas, análises e pesquisar sobre a obra antes de comprá-la. Mas não dispensa uma visita sem objetivos a uma livraria. As orelhas também servem de direção. Assinante do jornal O Estado de S. Paulo, ele acompanha o Caderno 2 e as dicas de leitura. Recorta o trecho quando interessa e vai à livraria. O colega de profissão Walter Ceneviva há muitos anos guia as suas leituras na sua coluna na Folha de S.Paulo.
Há algum tempo, impôs-se uma regra: ler um livro por mês. “Me disciplinei. Ultimamente leio mais que isso”, revela.
Há 45 anos no Demarest & Almeida Advogados, hoje, aos 70 anos, Orlando está afastado dos processos, dedicado mais a questões administrativas, como a seleção, contratação e treinamento de estagiários. Tarefa que tem o maior prazer em desenvolver e debater. É ele quem recebe os colegiais que pretendem ser advogados, apresenta o escritório (avisa que nem todos são tão grandes) e responde perguntas como: “Quanto ganha um advogado?”, “Vocês fazem Direito Internacional?”, “Contratam gente que tem tatuagem?”.
Começou no escritório logo que terminou a faculdade de Direito, na PUC-SP. Deixou o trabalho de escrevente no Fórum Cível, na área de família, e assumiu como advogado no Demarest. Naquela época, a banca que hoje conta com 600 profissionais e quase 50 mil causas, tinha apenas seis profissionais, contando com Orlando Di Giacomo. Ele atuou na área de família do escritório. De vez em quando, ainda cuida de algumas questões, mas é muito mais um consultor dos colegas de escritório.
Primeiro livro
A história do menino Cazuza que no final do século XXI tinha o sonho de ir para a escola encantou Orlando Di Giacomo durante a sua infância. Cazuza viveu no livro um pouco da história de seu criador, o escritor maranhense Viriato Corrêa, que foi membro da Academia Brasileira de Letras. O menino consegue chegar à escola. Mas se decepciona. A punição era a principal forma de controle dos alunos. Ele vivia em um vilarejo no Maranhão.
Literatura
O livro que marcou a adolescência de Orlando Di Giacomo foi Servidão Humana, do inglês nascido em Paris Somerset Maugham. “Eu ainda era jovem para aqueles assuntos de adulto: vícios de personalidade, traições, escalada na vida, pessoas boas que ajudam os demais. A parte sentimental me envolveu muito no livro”, lembra o advogado.
A obra trata da entrada na idade adulta de Philip Carey, época em que está dividido entre o fervor religioso e o desejo de liberdade. Sai da casa dos tios e vai para Paris, tentar uma carreira como artista. Foi quando se apaixonou e os seus planos se transformaram.
Di Giacomo leu este livro em inglês (Of Human Bondage). Contou que sempre estudou inglês na escola, a partir dos 15 anos começou a reforçar os estudos com aulas na União Cultural. Do mesmo autor, recomenda O fio da navalha.
O peruano Vargas Llosa, um dos maiores escritos de língua espanhola, também está entre os seus autores prediletos. Elogio da madrasta (1988) e Os cadernos de Dom Rigoberto (1997) considera essenciais. “Rigoberto é um menino muito bonzinho, mas a maldade dele é tão grande com a madrasta, que você acaba se prendendo nesse lado”, diz.
Livro jurídico
Os professores na PUC-SP, que também eram autores de muitos livros, tiveram grande influência na formação de Orlando Di Giacomo. Os especialistas em Direito Civil, Theotônio Negrão, Frederico Marques, Agostinho Alvim e Pontes de Miranda (“autor do antigo Código, que servirá de referência para qualquer outro”, observa ele) foram os que o ajudaram a traçar o seu caminho profissional.
Na área de Direito da Família, o autor citado foi Silvio Rodrigues, "que não foi professor" de Orlando Di Giacomo. “Sempre gostei dele, porque escrevia de uma maneira gostosa, prática e objetiva. Nos livros que ajudam na profissão é melhor que não tenha floreio.”
Li e recomendo
Orlando Di Giacomo gosta de autores portugueses e dos chamados portugueses da África, os de Moçambique e de Angola. “Tudo que é de Mia Couto é muito bom”, diz ele sobre o moçambicano. O último que leu do autor foi Antes de Nascer o Mundo, que considerou “bárbaro”. É sobre um pai que fica viúvo e resolve viver com os dois filhos pequenos no meio do mato, no final de uma guerra civil. O impacto dos personagens criados em um mundo fictício ao estar em uma cidade pela primeira vez foi sentido pelo advogado.
Lilian Matsuura é repórter da revista Consultor Jurídico
Revista Consultor Jurídico, 10 de fevereiro de 2010
Arquivo
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