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Idioma pátrio

Brasilino, um estrangeiro no próprio país

Por 

Brasilino Patriota Pedro Costa ingressou, perante o oficial do Registro Civil de Petrópolis, com petição objetivando retificar seu nome, constante do Registro de nascimento, para Yankee American Peter Coast, sendo seu pedido encaminhado ao jovem e já ilustre promotor de Justiça da Comarca, Paul Sabin Williams, que opinou contrariamente, fundado na lei que proíbe a mudança de pré-nome, bem como a utilização de nomes em língua estrangeira.

Foi submetida a questão ao juiz da Vara de Registro Público Frederick Marshall Street, aprovado no último concurso de ingresso na Magistratura, que, ante o inusitado do pretendido, resolveu marcar um audiência para saber os motivos que estariam levando Brasilino a pretender alterar todo o seu nome.

No dia marcado, presente o juiz Frederick, o promotor, Paul Sabin e o escrivão York Jones Cardoso, compareceu Brasilino, que passou a justificar o seu pedido, dizendo: “Dr. juiz, nasci nesta cidade do interior que, embora não seja das maiores, em certa época já foi capital deste estado e, durante muito tempo, na época do verão, os presidentes da República para aqui vinham, transferindo, por dois meses, a sede do governo federal.”

— Quando nasci, meu pai, que amava este país, resolveu dar-me o nome de Brasilino e, quando do registro, o então funcionário, sabendo disto, sugeriu-lhe que além de Brasilino eu fosse também Patriota, sendo esta a verdadeira origem do meu nome, não sendo correta a versão dada por minha professora primária, Dona Ítala Maduro, de que ao grafar o meu nome, o escrevente teria se enganado e ao invés de Basílio, santo de devoção de minha mãe, escreveu Brasilino e, no lugar de Patrício, de quem minha avó era devota, consignou, repita-se, por erro, Patriota.

— Dizia ela aos meus colegas: o nome certo do Brasilino é Basílio Patricio Pedro Costa, o que doutor, além de não ser verdade, criou uma grande confusão, pois passei a ser chamado de Brasilino, de Patrício, de Basílio, de Patriota, de Brasilino Patriota, de Brasilino Patrício, de Basílio Patriota, de Basílio Patricio ou ainda de Pedro Costa, de Brasilino Pedro Costa, de Basílio Pedro, de Basílio Costa, de Brasilino Costa, de Brasilino Pedro, de Patriota Pedro, de Patriota Costa, Basilio Patriota e não sei mais o que, quase fundindo a minha cabeça durante minha infância e o tempo em que Dona Ítala foi minha professora, por quatro anos.

— Depois, seu juiz, fui para outros lugares, outros países e, por mais de dez anos, trabalhei na ONU como representante do meu país, onde me conheciam como “Brazil”, “Patrick”, “Peter” e “Coast”, fazendo com estes quatro nomes tantas combinações...

— Voltei ao Brasil, a esta cidade, onde vim conhecer meus netos. O mais novo, hoje com cinco anos, chama-se Peter Arnald O’Toole — este último sobrenome do pai, nascido no Maranhão, cujo nome foi dado em homenagem a um artista americano.

— Meus outros netos, meritíssimo, Grace e Ester Willians, que minha nora diz que serão, no futuro, princesa e nadadora, são uma graça, o senhor deveria conhecê-las, disse ele, arrematando.

O magistrado, porém, já impaciente, limpando os óculos, advertiu: o senhor ainda não disse por que deseja mudar o seu nome e é para isso que estamos aqui.

A resposta foi rápida e fulminante: “É que eu me sinto um estranho no meu país, sinto-me completamente desajustado.”

Os presentes nada disseram, mas, por certo pensaram: “Chamando-se Brasilino Patriota, quem não se sentiria incomodado?”

Brasilino voltou a falar. “No dia seguinte ao da minha chegada, vi parar o ônibus para levar os netos ao colégio e li, na parte lateral, em letras visíveis, “Saint Peter School”, e na parte trazeira, “School Bus”. Ainda tive tempo, ao despedir-me de um neto, de ler um bilhete que estava em suas mãos, junto dos cadernos e que dizia: “Não se esqueça, sábado é o dia do Halloween. Vamos comemorar.”

E continuou. “Saí para dar uma volta e vi escrito no chão, em letras amarelas, ‘Bus’ e logo a seguir, na porta de uma loja, li em uma tabuleta com fundo vermelho e letras brancas a expressão ‘Stop, veja nossos preços’. Passei pelas lojas e em diversas vitrines se anunciava ‘Sale, 50% Off’. Resolvi almoçar na cidade, entrei na fila, onde na porta do restaurante se anunciava ‘Fast Food’ e ‘Self Service’.”

O juiz estava ficando impaciente, mas Brasilino prosseguiu: “Depois me dirigi à agência da Caixa Econômica, onde meu pai, durante a minha infância, recolhia, em meu nome, na caderneta, uma importância mensalmente, e quis saber o saldo, sendo certo que o funcionário me informou que já não mais existia a caderneta, e, muito menos, saldo, pois os sucessivos planos econômicos tinham dizimado minhas economias. Aconselharam-me a ficar quieto, pois poderia acontecer que eu tivesse que pagar um débito, pela não movimentação da conta. Ofereceram-me, contudo, como um grande produto daquela entidade, um ‘Federal Card’.”

Brasilino toma fôlego e segue avante: “Comprei um jornal, tradicional, que, desde criança, todos liam em nossa casa, e vi que naquela semana seria inaugurado o New York City Center, que era fácil de ser encontrado, lá na Barra da Tijuca, pois na sua fachada havia uma réplica da Estátua da Liberdade. Li também que em Botafogo, onde quando menino assistia aos jogos de futebol, estava instalado o ‘Rio Off Price’. Confesso que me escandalizei quando nos classificados encontrei anúncios de ‘Tropical Cat’s,’ de ‘Sex Simbols’, de ‘Sex Legs’ e ‘Sex Shop’.”

Brasilino não dava sinais de finalizar: “Chegando em casa, revi meus netos que, após retornarem da ‘School’, estavam de roupas trocadas ostentando, cada um, uma linda camisa, onde os bordados diziam: ‘Brigade Pati Nicki, Phisycs’ e ‘Street-Street’. Convidaram-me para participar de uns games, pois haviam comprado novos CDs e DVDs de Playstation e Nintendo Wii”.

Como a audiência estava demorando demais, o ilustre juiz resolveu interromper o depoimento de Brasilino, dizendo do alto de sua cátedra: “Não posso deferir o seu pedido, porque sua pretensão contraria a Constituição Federal que, em seu artigo 13, estabelece que a língua portuguesa é o idioma oficial da Republica Federativa do Brasil.”

Todos ainda ouviram o requerente dizer: “Como eu posso viver aqui com o nome de Brasilino Patriota Pedro Costa? Por favor, excelência, permita-me chamar-me Yankee American Peter Coast, pois, quando me candidatar, desejo colocar este nome no outdoor em frente ao meu flat, sem merecer chacota de quem quer que seja.”

 é advogado, sócio do escritório Tostes e Associados Advogados, e ex-presidente do TJ-RJ

Revista Consultor Jurídico, 3 de setembro de 2009, 15h44

Comentários de leitores

2 comentários

Como diria ...

carranca (Bacharel - Administrativa)

Bom dia srªs e srs, após longo e tenebroso "inverno", em algum lugar do mundo isso acontece...
Muito hilário este texto, sim hilário mas tão tenebroso qtº o inverno acima citado, essa personagem angustiada merece de tds nós o mais "caloroso" apoio, afinal "Como diria..." o nobre Cavaleiro do Apocalipse Cazuza "Que País é este?", nem mesmo os verdadeiros brasileiros o sabem,a final já estão contaminados pelas benesses oferecidas pela lavagem cerebral do "primo rico do norte", só vemos brasilindios, em "estado natural", sómente nas festividades onde apareça as lentes das câmeras televisivas... nós mesmos já estamos definitivamente contaminados. Me lembro, em tempos de outrora e, ñ faz tanto assim - pois tenho apenas 52 anos de idade... qdo era dada a hora de entrar-se nas salas de aula, o fazíamos ordenada/e em fila indiana, em ordem crescente de altura... qdº nossos mestres adentravam essas salas levantávamos e o saudávamos... antes de tal, nos pátio, entoávamos os Hinos do País, do Estado e, em alguns casos remotos, do Município
Sim Srªs e Srs... sinto falta desses belos e inocentes dias, dias em q/ éramos "Brasilinos Patriotas" ñ "Brasileiros Patos e Idiotas"
Será q/ em algum futuro o "NACIONALISMO" florescerá neste País ?
Carranca - brasileiro com muita Honra

CRISE DE IDENTIDADE E INTERESSE (INTER)NACIONAL...

eletroguard (Consultor)

Esta matéria me lembra um e-mail que recebi falando mal dos brasileiros. Supostamente escrito por um brasileiro, fiquei estarrecido com o que o e-mail dizia:
"PARA NOSSA REFLEXÃO !!!!!! O BRASILEIRO É ASSIM... Saqueia cargas de veículos acidentados nas estradas. Estaciona nas calçadas, muitas vezes debaixo de placas proibitivas. Suborna ou tenta subornar quando é pego cometendo infração. Troca voto por qualquer coisa: areia, cimento, tijolo, dentadura. Fala no celular enquanto dirige. Trafega pela direita nos acostamentos num congestionamento..."
Que interesses tem esses caras de falar mal dos brasileiros? Anonimamente, estrangeiros esperam que os brasileiros ajam e sejam exatamente como eles dizem. Mas para que e por quê? Quando se trata de interesses deveríamos perguntar: para QUEM e por QUEM?
Esta estratégia de marketing deixa claro o intuito de interferir modo de ser dos brasileiros e de implantar (manter) a cultura da corrupção no Brasil: justificar atitudes corruptas de seus colaboradores antipatriotas, protegerem políticos corrompidos ou os grandes corruptores!
O pior é que tem muito brasileiro nato que "embarca" nessa onda e fica ouvindo e repetindo essas besteiras disseminadas por estrangeiros. Ouvindo e falando mal do seu próprio povo, se submetendo aos interesses externos, enaltecendo os EUA e esculachando o BRASIL e outras nações latino-americanas. Citam exemplos de que lá (nos EUA) tudo é bom, é sério, é moderno. Ao falar do Brasil... lá vem esculhambação!
Derrepente, nos damos conta de que estamos deixando de comer churrasco para comer hot dog. Sem perceber, vamos trocando o guaraná pela coca-cola e o samba pelo RAP!
A matéria continua no blog http://andreohabitante.blogspot.com/ ...

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