Notícias
23 março 2009
Bolsa ditadura
Revisão de anistia forçaria devolução de reparações
Uma alegação feita pela Ordem dos Advogados do Brasil na ação que questiona a Lei de Anistia pode se voltar contra quem recebeu indenizações do governo federal em reparação a sanções recebidas durante o regime militar. Ministros do Supremo Tribunal Federal afirmam que, se a Lei de Anistia (Lei 6.683/79), editada durante, não foi recebida pela Constituição de 1988, como alega a OAB, os anistiados que receberam indenizações pelos danos sofridos naquele período, terão de devolver o que receberam.
Na Arguição de Descumprimento de Preceito Fundamental (ADPF) 153, ajuizada em outubro do ano passado, a OAB pede que o STF esclareça qual deve ser a interpretação da lei quanto ao perdão de crimes cometidos por torturadores, previsto no artigo 1º, parágrafo 1º, da norma — clique aqui para ler a ação. Para a Ordem, os homicídios, desaparecimentos forçados, torturas e abusos sexuais contra opositores do regime não podem ser considerados crimes políticos, mas comuns. Esse enquadramento não só tiraria esses crimes da anistia quanto impediria que prescrevessem. Na ADPF, a OAB afirma que esses crimes são imprescritíveis, de acordo com a Convenção contra a Tortura e outros Tratamentos ou Penas Cruéis, Desumanos ou Degradantes, aprovada e ratificada pelo Brasil. A tortura, em particular, também foi citada na Constituição Federal de 1988 como crime insuscetível de anistia (artigo 5º, inciso XLIII). O Supremo ainda não julgou a matéria.
Os autores da ação, os advogados Fábio Konder Comparato e Maurício Gentil Monteiro, também questionam a legitimidade da Lei de Anistia de 1979. Eles alegam que a aprovação foi dada pelo Senado Federal numa época em que um terço dos senadores não era eleito pelo povo, mas indicado pelos ocupantes do poder por meio de eleições indiretas. “Um em cada três senadores não tinha nenhuma legitimidade democrática”, afirmam os advogados. Eles também apontam que a lei “foi sancionada por um chefe de Estado que era general do Exército e fora guindado a essa posição, não pelo povo, mas pelos seus companheiros de farda”.
Na tese defendida pela OAB, a Lei 6.683/79 teria de ser legitimada em nova votação pelo Congresso, depois que a Constituição de 1988 entrou em vigor, ou por referendo popular. Comparato, presidente da Comissão Nacional de Defesa da República e da Democracia da OAB e professor titular da Universidade de São Paulo, não foi localizado pela Consultor Jurídico para comentar.
O argumento da Ordem já foi rebatido em parecer pela Advocacia-Geral da União — clique aqui para ler. “A anistia conferida (…) foi ratificada pela Emenda Constitucional 26/85, ato do qual a própria Constituição de 1988 extrai sua legitimidade”, diz o documento. “Entendimento diverso resultaria na invalidade não apenas da Lei 6.683/79, mas de todos os atos normativos editados à época”, alertam os advogados da União Ana Carolina Laferté e Henrique Augusto Fulgêncio, no parecer.
Alguns ministros do Supremo, no entanto, entendem que, se for afastada a legitimidade da Lei de Anistia, todas as indenizações pagas pelo governo federal como reparação às vítimas e familiares de vítimas da repressão terão de ser devolvidas. A anistia dada em 1979 — de caráter penal — deu origem às indenizações pagas conforme o artigo 8º do Ato das Disposições Constitucionais Transitórias, regulamentado pela Lei 10.559/02, e a Lei 9.140/95.
Números do Ministério da Justiça mostram que, desde que a Comissão de Anistia foi criada, em 2001, já foram autorizados mais de R$ 2,5 bilhões em indenizações, pagas pelos ministérios do Planejamento a anistiados civis, e da Defesa, aos militares. Até o fim do ano passado, a Comissão analisou 37,3 mil pedidos e concedeu 24,6 mil reparações. As dez indenizações mais vultuosas somam R$ 29,8 milhões. Os maiores benefícios foram pagos a Sérgio da Silva Del Nero (R$ 3,4 milhões) e Ditmar Friedrich Muller (R$ 2,9 milhões). Os jornalistas Carlos Heitor Cony e o ex-deputado federal Jair Meneguelli recebem pensões mensais de R$ 19,1 mil e R$ 3,8 mil, respectivamente. Entre os militares, Hélio de Castro Alves Anízio foi o que recebeu o maior valor: R$ 1,9 milhão.
Os valores são calculados com base na remuneração que o anistiado receberia hoje, caso não tivesse sido afastado da atividade em que trabalhava na época do regime. Quem foi prejudicado por causa da perseguição política, mas não tem como comprovar os vínculos empregatícios, recebe a indenização em uma única parcela. São pagos 30 salários mínimos para cada ano ou fração de perseguição.
Alessandro Cristo é repórter da revista Consultor Jurídico
Revista Consultor Jurídico, 23 de março de 2009
Arquivo
Leia também: Textos relacionados
- 11/03/2009 Anistiado político deve receber indenização retroativa, diz Supremo
- 08/03/2009 Entrevista: Luiz Eduardo Greenhalgh, advogado e militante de esquerda
- 11/02/2009 Advogados públicos defendem Toffoli contra declarações de Comparato
- 11/02/2009 Procuradores do Estado criticam OAB por divulgar texto ofensivo a Toffoli
- 02/02/2009 Para AGU, Lei da Anistia perdoou todos os crimes de tortura na ditadura
- 26/01/2009 Mantida suspensão de ação contra militares acusados de matar Herzog
- 06/01/2009 Mais de 100 anistias são publicadas no Diário Oficial
- 01/01/2009 Ação sobre Lei da Anistia está na pauta do STF em 2009
- 25/12/2008 STF terá de se posicionar sobre terrorismo e tortura
- 23/12/2008 OAB pede que anistia seja julgada com base na CF
- 19/12/2008 Não pode haver anistia à tortura, afirma Cançado
- 18/12/2008 Juízes pedem nova interpretação para a Lei de Anistia
- 16/12/2008 Juízes querem participar de ação sobre Lei da Anistia
- 16/11/2008 Leia parecer da OAB de 1979 a favor da anistia ampla
- 15/11/2008 Para Cezar Britto, anistia a Jango é momento histórico
- 14/11/2008 João Goulart receberá anístia neste sábado em Natal
- 13/11/2008 AGU pede mais tempo para responder sobre Lei de Anistia
- 13/11/2008 Justiça Federal suspende ação contra comandante Ustra
- 08/11/2008 Em 1979, a OAB defendia anistia com perdão irrestrito
- 08/11/2008 Vanucchi pede para AGU revisão do parecer sobre tortura
- 07/11/2008 Presidente da Anauni nega ter questionado parecer da AGU
- 07/11/2008 MPF de São Paulo nega que haja divergência sobre anistia
- 05/11/2008 Fórum de advogados públicos defende parecer da AGU
- 05/11/2008 Membros do MPF-SP divergem sobre revisão da anistia
- 05/11/2008 Senado quer audiência pública para debater anistia
- 04/11/2008 Unafe defende AGU após críticas ao parecer sobre anistia
- 03/11/2008 STF pede a Lula e ao Congresso informações sobre Anistia
- 01/11/2008 Anistia e punição a torturadores dividem opiniões e governo
- 31/10/2008 Vannucchi pedirá que AGU reconsidere posição sobre tortura
- 23/10/2008 Tarso contesta parecer sobre tortura e Lei da Anistia
- 21/10/2008 Leia ação da OAB contra anistia para torturadores
- 20/10/2008 OAB quer saber se anistia vale para torturadores
- 09/10/2008 Coronel Brilhante Ustra é responsabilizado por torturas
- 11/09/2008 Marco Aurélio aplica Lei da Anistia para negar extradição
- 13/08/2008 MPF-SP defende que torturador deve indenizar torturado
- 02/08/2008 Mudanças na Lei de Anistia devem ser rejeitadas na Justiça
Comentários
Comentários de leitores: 13 comentários
Anistia
Ora quem disse que os ideais desses pseudos perserguidos eram os mesmo que os meus, assim comos os guerrilheiros colombianos eles "lutavam" por amb~çoes pessoais, queriam estar no poder politico. porque nós agora temos que sustenta-los com pensões e indenizações milionárias?
Quanto a OAB ela é realmente um Órgão de classe, classe alta, é somente a ela que defende, dos advogados ela só quer a anuidade.
Revisão de anistia forçaria devolução de reparações
biodigestor
atualmente,a luta deve centrar-se na transformação do
Congresso Nacional em um enorme BIODIGESTOR,aproveitan
do o formato das cúpulas,projetadas pelo centenário ar
quiteto,inspirado em visões premonitórias.
Basta cerrar as portas,deixando as bactérias promove
rem a higienização da política.
Ver todos comentários
A seção de comentários deste texto foi encerrada em 31/03/2009.