Desvios na Satiagraha podem livrar Daniel Dantas
As recentes acusações contra o empresário Luiz Roberto Demarco, de que teria instigado a Operação Satiagraha por motivos empresariais contra o banqueiro e desafeto Daniel Dantas, foram noticiadas nas revistas nacionais desta semana. Veja, IstoÉ e IstoÉ Dinheiro publicaram reportagens em que mostram que as supostas ações do empresário foram arquitetadas contra o banqueiro — mesmo na operação anterior à Satiagraha, a Chacal, da Polícia Federal, que investigou supostas espionagens feitas por Dantas à Telecom Italia.
Segundo a IstoÉ, o esquema de Demarco teria sido atrapalhado pelo investidor Naji Nahas, que teria negociado com a Telecom Italia o fim da perseguição a Dantas. Como consequência, a companhia italiana teria atrasado pagamentos a Demarco. Nahas também acabou preso ao lado de Dantas, na Operação Satiagraha, pelo delegado Protógenes Queiroz.
O resultado dos abusos cometidos pelos condutores da Satiagraha é que Dantas, alvo de inúmeras acusações de corrupção e principal investigado na operação, pode se safar. É que o mostram as reportagens publicadas pelas revistas Veja e IstoÉ Dinheiro.
As suspeitas levantadas nas investigações feitas contra o responsável pela operação, delegado federal Protógenes Queiroz, são de que irregularidades foram cometidas não só pelo delegado, mas também pelo ex-diretor da Agência Brasileira de Inteligência, Paulo Lacerda, pelo procurador Rodrigo De Grandis, pelo juiz da 6ª Vara Federal Criminal de São Paulo, Fausto Martin De Sanctis e pelo empresário Luiz Roberto Demarco, ex-funcionário e hoje desafeto de Dantas, Luiz Roberto Demarco.
Entre os desvios apontados estão o uso ilegal de arapongas da Agência Brasileira de Inteligência na operação e grampos ilegais feitos nos contatos do banqueiro e de deputados, senadores, juízes, advogados e jornalistas. Além disso, são investigados o vazamento ilegal de informações sigilosas à imprensa — jornalistas da TV Globo teriam participado das investigações, tendo gravado vídeo de um encontro de emissários do banqueiro e um delegado federal —, adulteração de provas — com a edição do vídeo gravado, para que o reflexo dos jornalistas em um espelho fosse removido —, e a proximidade da relação do delegado com Rodrigo de Grandis e Fausto de Sanctis, que deveriam se falar somente pelos autos, mas teriam atuado como uma equipe contra o banqueiro.
A suspeita levantada pelo juiz da 7ª Vara Federal Criminal paulista, Ali Mazloum, que investiga os desvios da operação, pode levar o caso a ser interpretado como um acerto de contas empresarial. Foram identificadas supostas ligações telefônicas entre o empresário Luiz Roberto Demarco e Protógenes, o que indica uma motivação de vingança pessoal do empresário contra Dantas.
Leia abaixo a reportagem publicada pela Veja.
Agora ele é réu
Protógenes Queiroz, o delegado da Satiagraha, começa a ser processado pelas ilegalidades que cometeu
Fábio Portela
A Operação Satiagraha, que não sai do noticiário, pode ser resumida assim: para investigar secretamente um banqueiro suspeito de operações fraudulentas e cheio de inimigos, inclusive nas altas esferas do governo, um delegado da Polícia Federal une-se ao chefe do serviço de inteligência da Presidência da República e coloca na rua um bloco de quase uma centena de espiões — que não poderiam atuar como meganhas. Durante um ano e meio, eles vigiaram e grampearam, além do banqueiro, deputados, senadores, juízes, advogados e jornalistas — na maioria das vezes, de maneira ilegal. Ao final, o delegado produziu um relatório que se presta a ajustes de contas pessoais, políticas e empresariais. O nome do delegado é Protógenes Queiroz, o do chefe da inteligência é Paulo Lacerda e o do banqueiro, Daniel Dantas. Pelo fato de as duas autoridades terem usado o aparelho estatal de forma ilegítima e lançado uma série de acusações mal fundamentadas e formuladas, o resultado é que o banqueiro poderá se safar.
O que está em jogo nessa história toda de Satiagraha é muito mais do que destinos individuais de três homens. É a própria noção de Estado de Direito, no qual os ritos formais que regem a atuação da polícia, da Justiça e dos espiões oficiais representam uma garantia não só de que as liberdades dos cidadãos serão preservadas, como de que os culpados de crimes serão punidos e os inocentes, absolvidos, sem dar margem a dúvidas. Ao atropelar o Estado de Direito, o delegado Protógenes e o doutor Paulo Lacerda deverão pagar por seus atos, para que não se crie um perigoso precedente. O laço da Justiça já aperta o primeiro. A Justiça Federal o processa por violação de sigilo e fraude processual.






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