Notícias

8 maio 2009

Realidade amazônica

Juíza de AM conta particularidades da Justiça local

Por Gláucia Milício

Diferentemente do que acontece em outros estados brasileiros, os juízes do Amazonas precisam levar em conta a geografia do lugar antes de resolver qualquer conflito jurídico. A juíza Naira Batista de Oliveira Norte, que por 10 anos atuou numa comarca na cidade de Beruri, contou à revista Consultor Jurídico como é a realidade dos magistrados da região. Recentemente, ela foi promovida para a 1ª Vara Especializada em Violência Doméstica e Contra a Mulher (Vara Maria da Penha) na capital Manaus.

A juíza Naira explica que, para julgar imbróglios envolvendo crimes ambientais, o magistrado não pode se valer apenas de parecer técnico elaborado pelo Ministério Público ambiental ou, então, por peritos. A questão, segundo ela, é mais complexa e exige dos juízes conhecimento da realidade.

Uma das questões, segundo Naira, que mais exige o estudo de campo e discernimento por parte do juiz é sobre as ações de contaminações causadas por resíduos sólidos. Hoje, no estado, 91% dos resíduos não são gerenciados de maneira adequada. Ela ressalta que o estado tem saneamento básico precário.

De acordo com ela, o juiz, ao se deparar com ações desta natureza, que geralmente chegam por meio de Ações Civis Publicas, ele precisa levar em consideração qual o tipo de várzea foi contaminada com os resíduos dos lixões. Se se trata, por exemplo, de terra firme ou baixa e levar em conta todas essas questões para aplicar a norma ambiental da maneira mais adequada.

Naira explica que os lixos depositados nas várzeas baixas são inundados com a cheia dos rios locais e arrastados para as margens. Já nas terras firmes e altas, a contaminação pode acontecer, mas com um dano menor ao meio ambiente. “Por isso, a importância do conhecimento do juiz sobre a região. Só assim ele poderá relativizar a aplicação da legislação ambiental.”

Segundo a juíza, outra realidade da região, ainda por conta da geografia, é a falha na prestação jurisdicional. Ela aponta que um dos fatores tem a ver com o deslocamento do juiz, que tem de enfrentar uma logística nada fácil. Isso porque os municípios têm uma margem de extensão geográfica complicada.

A juíza exemplifica dizendo que, em algumas circunstâncias, o crime pode ocorrer numa região em que o acesso da comarca que detêm a jurisdição seja muito mais dificultoso do que outra comarca que não tem competência, mas tem acesso mais fácil. O fato pode causar insegurança jurídica se não for resolvido da melhor maneira.

“Por esse motivo, o magistrado muitas vezes não tem como atuar de maneira adequada. Os juízes têm de usar do poder criativo em conjunto com o conhecimento da legislação ambiental para que ele possa atuar de maneira jurisdicionalmente adequada para trazer uma efetividade da norma ambiental.”

A juíza ressalta, contudo, que a falha na prestação jurisdicional não pode ser atribuída ao juiz simplesmente pelo fato de ele trabalhar dentro das condições que ele tem, na maioria das vezes, desfavorável a essa atuação. Como sugestão para o Judiciário local, Naira sugere um processo de reestruturação onde juízes, promotores, peritos, órgãos administrativos ligados à questão e à Polícia Ambiental se integrem de maneira efetiva para fazer frente a essa realidade amazônica e combater os crimes ambientais da região.

Naira Norte também participou do I Seminário de Direito Ambiental, promovido na capital amazonense de 4 a 7 de maio. O seminário foi promovido pela Ajufe (Associação dos Juízes Federais do Brasil) e pela EAGU (Escola da Advocacia-Geral da União). As entidades contaram também com apoio de diversas entidades representativas de carreiras jurídicas do estado.

 

Gláucia Milício é repórter da revista Consultor Jurídico.

Revista Consultor Jurídico, 8 de maio de 2009