Notícias
15 janeiro 2009
Extradição de Battisti
STF deve analisar questão de ordem sobre refúgio
O Supremo Tribunal Federal não irá aceitar sem discussão o arquivamento da Extradição do ex-militante comunista Cesare Battisti. O clima no Supremo é de que algum dos ministros deve pedir uma questão de ordem sobre o processo, conforme apurou a ConJur. O caso será apresentado ao plenário em fevereiro. Como há divergências sobre a competência exclusiva do Executivo julgar processos de refúgios políticos, os ministros devem debater a pertinência de arquivar a ação sem entrar no mérito da questão.
No entanto, a expectativa não é unânime entre os conhecedores do Supremo. O advogado constitucionalista Luís Roberto Barroso acredita que é improvável que o STF se disponha a analisar se no caso de Battisti é ou não de perseguição política. “A tendência, portanto, é que o tribunal se recuse a analisar o mérito de qualquer pedido do governo italiano cujo objeto seja a impugnação da decisão de conceder o refúgio”, afirma. Há dois anos, o advogado foi procurado por amigos de Battisti para ajudar no processo de extradição. Apesar de ter estudado o caso, ele não atuou profissionalmente nele.
Na terça-feira (13/1), o ministro da Justiça, Tarso Genro, concedeu refúgio político ao escritor, de 52 anos, por entender que existe "fundado temor de perseguição” no processo de extradição movido pelo governo italiano. O Ministério da Justiça encaminhou, nesta quinta-feira (15/1), a Peluso um comunicado oficial sobre a decisão do governo de conceder o benefício ao italiano.
Também Nesta quinta, a defesa de Battisti ajuizou no Supremo petição em que pede a revogação de sua prisão. Na ação, os advogados pedem ainda que seja concedida prisão domiciliar, caso o STF demore a se posicionar. A petição pode ser analisada pelo ministro Gilmar Mendes, presidente do STF, ou pelo ministro Cezar Peluso, relator no STF do pedido de extradição de Battisti. O vice-presidente Peluso assumirá interinamente a presidência do STF na próxima segunda-feira (19) e ficará nessa condição até o término do recesso judiciário, em 2 de fevereiro.
Decisão violada
A decisão de Tarso desagradou o governo italiano. Tanto que está estudando uma forma de recorrer ao STF para rever o refúgio. Nesta quinta, o ministro da Justiça da Itália, Angelino Alfano, afirmou que o governo do país pensa levar o caso para uma “instância de reflexão”. Segundo o ministro, o país tentará todos os recursos legais.
"Faremos o que estiver dentro das nossas possibilidades. E faremos também pesar o fato político de que países como o Brasil, que pretende contribuir com a democracia mundial com sua participação no G8, se deem conta de que a violação de decisão da Justiça de outros países não lhes facilita o caminho", declarou Alfano em entrevista à rádio Rai. A Itália preside o G8. A fala do ministro pode sugerir uma ameaça velada de impedir que o Brasil participe da próxima reunião da cúpula do grupo, marcada para julho, na Sardenha.
Battisti é ex-dirigente dos Proletários Armados pelo Comunismo (PAC), grupo extremista que atuou na Itália nos anos 60 e 70. Ele foi condenado à prisão perpétua à revelia na Itália por quatro homicídios cometidos pelo PAC entre 1977 e 1979. Ele nega as acusações. Em março de 2007, foi preso no Rio de Janeiro e transferido para penitenciária do Distrito Federal.
Na quarta-feira (14/1), Tarso admitiu que o Judiciário pode rever a decisão. No entanto, ele mostra que está seguro do embasamento jurídico na concessão do refúgio. "Quero ver apontarem algum erro jurídico nessa minha decisão", desafiou o ministro em entrevista ao Estadão.
A Associação 2 de Agosto, composta por familiares das vítimas de um atentado a uma estação de trem de Bolonha, enviou uma carta ao presidente Luiz Inácio Lula da Silva, protestando contra a decisão do governo brasileiro de conceder refúgio político ao ex-ativista italiano Cesare Battisti, condenado a prisão perpétua em seu país. Na carta, o presidente da organização, Paolo Bolognesi, chama Battisti de "assassino sórdido" e diz que a decisão brasileira gera "impunidade" ao italiano.
Daniel Roncaglia é repórter da revista Consultor Jurídico.
Revista Consultor Jurídico, 15 de janeiro de 2009
Arquivo
Leia também: Textos relacionados
- 15/01/2009 Itália deve recorrer ao Supremo contra refúgio de Cesare Battisti
- 14/01/2009 Tarso Genro admite que Judiciário pode rever refúgio para Cesare Battisti
- 14/01/2009 Ministro da Justiça concede asilo político para o italiano Cesare Battisti
- 13/01/2009 Notícias da Justiça e do Direito dos jornais desta terça-feira
- 25/12/2008 STF terá de se posicionar sobre terrorismo e tortura
- 24/07/2008 Cesare Battisti será transferido e ouvido pelo Conare
- 21/11/2007 Cesare Battisti deve continuar preso na PF em Brasília
- 26/09/2007 Antes de transferir Battisti, STF quer informações
- 18/08/2007 Italiano pede transferência para Polinter do Rio
- 10/07/2007 Italiano não poderá ter contato com advogados europeus
- 07/07/2007 STF garante conversa reservada entre advogado e cliente
- 06/06/2007 Battisti é transferido da Papuda para carceragem da PF
- 01/06/2007 STF reafirma que advogado pode falar com cliente
- 11/05/2007 Governo da Itália pede ao STF extradição de Battisti
- 19/03/2007 Deputado federal quer evitar extradição de italiano
Comentários
Comentários de leitores: 1 comentário
Tarso x Governo e Sociedade
Gostaria de iniciar meu comentário mencionado que a decisão do Ministro Tarso é de uma fraqueza tão grande que desrespeita a inteligência de qualquer nativo dessas bandas.
Dizer que aquele elemento foi perseguido politicamente é um erro grave, pois, sabemos que a Itália, desde 1948, vive a democracia invejada por todos e que sua Justiça é alem de objetiva, fartamente de cunho social. Com isso digo que a perseguição desse assassino não se funda em política e sim na pratica de crime comum, como vem sendo mostrado pela justiça de lá.
O fato de mencionar o instituto da REVELIA, o Ministro esquece que aquele assassino fugiu de sua pátria, e que por aqui no nosso Ordenamento Jurídico também praticamos o mesmo dispositivo; creio que o nosso ministro deva saber disso ou não foi assessorado quanto ao tema?
Ainda devo esclarecer que a decisão do Tarso não foi uma manifestação do Governo, de Estado, pois, ele não deu a mínima às manifestações do Conare, do Ministério das relações Exteriores e da PGR, que foram unânimes em não conceder o refugio, portanto não venha dizer que foi o Estado e o Governo do Brasil que decidiram, nesse caso, como mostra sua pessoal decisão, e sem fundamento jurídico.
Na linha incipiente da decisão do Ministro Tarso, encontra-se corroborada, quando o mesmo deixa ao Poder Judiciário a grande e final possibilidade em rever a extrambólica e exótica decisão contrária aos interesses do Governo, do Estado, da Nação e da Sociedade Mundial.
A seção de comentários deste texto foi encerrada em 23/01/2009.