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SEGUNDA LEITURA

Considerações sobre pais, filhos e carreiras jurídicas

Por 

Vladimir Passos de Freitas 2 - Spacca

Filhos escolhem a faculdade muito jovens, às vezes, com menos de 18 anos. Assim, excluindo as hipóteses de pessoas maduras, que já estão colocadas no mercado de trabalho e que procuram um curso superior para ampliar os seus conhecimentos, a maior parte dos pretendentes é imatura. É para estes que se escrevem estas linhas.

A escolha do curso nem sempre é fácil. Direito costuma ser uma das opções mais procuradas. Primeiro, porque dá a ilusão de uma sólida carreira pública ou de uma lucrativa advocacia. Segundo, porque há sempre uma faculdade na cidade do pretendente ou, no mínimo, a uma distância que permita o ir e vir diário.

A aprovação é quase sempre certa. A família comemora, antevendo naquela quase criança um profissional de sucesso. Pouco tempo depois começam as aulas e o jovem se surpreende com aquele mundo formal e estranho. Ao ouvir certas palavras, fica a imaginar o que significam. E pensa: "Objurgado deve ser alguma coisa como um abajur ligado, data vênia talvez seja uma espécie de sorvete e outrossim um sim mais forte, duplo".

Os pais estão orgulhosos. Silenciosamente, pensam: “Puxou a minha família, esse menino vai longe”. E sonham. A mãe imagina sua filha como promotora, dando entrevistas na TV. Chega a se emocionar. E o tempo passa.

Mas as coisas não são assim tão simples. O jovem, criado tendo à frente uma tela de computador, sente enorme dificuldade em prestar atenção em aulas expositivas. A linguagem no Orkut é muito diferente da que se exige nas provas escritas. Não compreende por que um professor não lhe permite assistir à aula de boné. Sem a mínima experiência de vida, a diferença entre atos e fatos jurídicos, o que é um crédito tributário ou uma sociedade em comandita por ações, parece-lhe algo de outra galáxia.

E daí vem a atitude dos pais. Não há uma linha de ação uniforme. Façamos a divisão entre os que acompanham os filhos e os que permanecem distantes.

Há  pais possessivos, que continuam a agir como se os filhos fossem crianças. Mães, de carro, levam e buscam seus filhos na faculdade. Assumem suas desavenças. Com isto, mantém-nos infantis, no falar e no agir. Não é raro que moças no último ano de Direito ainda tenham cadernos com florzinhas. Ou que rapazes, ao fim do curso, não tenham a mais remota ideia do que farão depois de formados. No outro extremo, há os pais omissos. Não sabem nada do curso do filho, não o valorizam e, por ele, não se interessam.

Qual o pior? Nenhum dos extremos é o ideal. Mas, em minha opinião, os pais possessivos são piores. Sufocam o filho. Na minha vida, vi muitos perderem uma boa oportunidade profissional por medo de deixar a zona de conforto. Medrosos, perdedores, terminam frustrados.

Mas como podem os bons pais auxiliar o filho? Primeiro, deixando bem claro que existem dois caminhos distintos, o do bem (esforço, dedicação) e o do mal (baladas intermináveis). Lembro-me de um caso real que muito me impressionou. Um jovem interiorano, aprovado no vestibular de Direito, foi levado pelo pai à capital de seu estado, no nordeste, onde iria morar sozinho. O pai, um homem simples, mas inteligente, levou-o a ver a zona boa da cidade e a do meretrício. Disse-lhe, com sabedoria: “Nesta vida tem de tudo, você fará a escolha”. O jovem estudante optou pelo bem, fez linda carreira na magistratura e chegou a ministro do STJ. 

Interessar-se e acompanhar a rotina do filho é importante. Quem são os seus amigos, quando e onde estudam. Saber como foi nas provas, em que matérias tem dificuldades. Pedir sua opinião diante de algum caso polêmico recente. Presentear-lhe com bons livros. Cobrança com discrição.

Se os pais forem da área do Direito, devem ter cuidado com sua conduta. Se for um advogado e reclamar a todo momento da Justiça ou de sua rotina, pode ter certeza de que o filho não seguirá seus passos. Mostrar as vantagens e desvantagens, honestamente, será um bom caminho. E sempre lembrar que o sucesso não se transmite automaticamente. O filho terá que lutar tanto quanto o pai (ou a mãe), caso contrário será um fracassado.

Se os pais não forem da área do Direito, podem pedir a um amigo, profissional de sua confiança, que converse com o seu estudante. Às vezes, alguém de fora tem mais sucesso.

Os pais podem ter ou não um bom nível cultural. Se tiverem, tudo será mais fácil. Nas conversas diárias, estarão transmitindo lições. Se forem pessoas mais simples, poderão ajudar o filho mostrando como é importante a leitura, não apenas de obras de Direito, mas de jornais, livros e revistas.

A internet é a comunicação do momento e não deve ser vista como inimiga. Pode auxiliar muito nas pesquisas, mas aos pais cabe estabelecer limites. Com rigor. Ela não substitui as boas leituras, imprescindíveis a um profissional do Direito. Leitores exclusivos de internet costumam escrever mal.

Estágios diversificados podem auxiliar na escolha profissional. Atividades paralelas devem ser estimuladas. Cursos, longos (por exemplo, idiomas) ou curtos (por exemplo, oratória, redação, marketing e até caligrafia) ajudam muitíssimo e enriquecem o currículo.

E, do lado inverso, como os filhos devem posicionar-se diante de seus pais? Antes de mais nada, reagindo com paciência às investidas. Os pais insistem, insistem e insistem, porque sabem que a vida é dura e que, aos mal sucedidos profissionalmente, ela reserva dificuldades adicionais. A juventude passa, com ela a beleza física. Os que não se preparam podem terminar com uma aposentadoria de dois salários-mínimos e sem nenhum plano de saúde. Não é fácil.

Existem pais obstinados com um tema. Por exemplo: “Minha filha vai ser juíza”. No entanto, pode ser que a jovem estudante deteste julgar alguém. Então, com habilidade, cabe-lhe mostrar à mãe que existem carreiras públicas novas excelentes, além da Magistratura, como a AGU ou a Defensoria Pública.

Para pais ansiosos, que apostam tudo e desejam resultados imediatos, devem explicar que o sucesso tem o seu tempo. É algo que se constroi ao longo de anos. E a felicidade está no caminho percorrido, não apenas na chegada. Mostrar casos reais terá efeitos práticos. Por exemplo, quantos anos um amigo levou para firmar-se na advocacia ou para passar em um concurso para a Polícia.

Enfim, nas profissões jurídicas e nas relações pais e filhos, não existe uma receita única e segura do sucesso. Há pais que dão mau exemplo de vida e prejudicam os filhos, até inconscientemente. Há filhos que, estimulados, auxiliados ou repreendidos, não evoluem de forma alguma. Nesse mosaico de situações múltiplas, só se pode ter certeza de uma coisa. O amor, o respeito, a mão amiga no momento certo, sem ofuscar (pais) e sem abusar (filhos) serão sempre uma via adequada de crescimento pessoal, sucesso e felicidade do estudante de Direito.

 desembargador Federal aposentado do TRF 4ª Região, onde foi presidente, e professor doutor de Direito Ambiental da PUC-PR.

Revista Consultor Jurídico, 27 de dezembro de 2009, 10h18

Comentários de leitores

3 comentários

Mensagem privada

Januah Olivehha (Advogado Sócio de Escritório)

Olá,
Gostaria muito mais de discutir a respeito do que refutá-lo.
Posso lhe enviar uma mensagem privada?

Parabéns pelo artigo.

Carmen Patrícia C. Nogueira (Advogado Autônomo)

O artigo é muito bom e didático.
Um filho bem educado é um prêmio para seus pais; um filho mal educado, porém, um castigo.
Mas, acredito que não há nada melhor que o bom exemplo para educar um filho.
Pais honestos, trabalhadores, solidários e generosos certamente educarão melhor seus filhos.
Por outro lado, uma educação egoista e consumista, voltada para o "ter", ao invés do "ser", não trará bons frutos.
"O homem é como a árvore; vale pelos seus frutos".
De nada adianta o acúmulo de riquezas materiais se a pessoa não foi capaz da maior riqueza: educar adequadamente um filho, dar uma estrutura familiar adequada a ele.

Boa!

Gabriel (Estudante de Direito)

Muito bom texto. Sinto-me orgulhoso de ter comprado o livro do mesmo autor deste no começo do curso de Direito. Obrigado Vladimir, forte abraço.

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