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IMAGENS DA HISTÓRIA

O ladrão do século que viveu à margem da Justiça

Por 

Débora Pinho - Spacca

28 minutos. Este foi o tempo que Ronald Biggs e seus comparsas precisaram para assaltar um trem postal que levava 2,6 milhões de libras esterlinas, em Cheddington, na Inglaterra, no dia 8 de agosto de 1963. Preso um mês depois, e apesar de ser um componente de segunda linha da quadrilha, Biggs ficou conhecido mundialmente como o ladrão do século. Em 1964, foi condenado a 30 anos de prisão. Não foi preciso muito tempo para se livrar ao seu modo da punição imposta pela Justiça britânica. Conseguiu fugir da penitenciária em 8 de julho de 1965 depois de corromper um guarda. Escalou o muro com uma escada feita de cordas e foi para Paris, onde conseguiu um passaporte falso e fez cirurgia plástica para mudar seus traços. Em 1970, foi para a Austrália. Precisou fugir novamente após ser reconhecido por um repórter. Chegou ao Brasil no mesmo ano, onde passou mais de três décadas e enfrentou algumas batalhas judiciais.

Em 1974, quatro anos após chegar ao Brasil, Biggs foi encontrado por um repórter do jornal Daily Express. Ele estava morando no Rio de Janeiro. A Scotland Yard, polícia britânica, foi logo avisada de seu paradeiro. Ele chegou a ser detido, mas nada seria feito. Na ocasião, Biggs não podia ser extraditado, já que Brasil e Inglaterra não tinham tratado de extradição à época.

Em 1981, o ladrão do século foi seqüestrado por um grupo e levado para Barbados (Caribe). O grupo queria recompensa da Inglaterra para entregá-lo. Ele chegou a ser detido em Barbados com a alegação de violação das leis de Imigração. Como foi vítima de um crime e não estava lá de forma livre e voluntária, teve o direito de retornar ao Brasil e não à Inglaterra. Os seus advogados conseguiram que a Justiça local o devolvesse ao Brasil.

O advogado Sepúlveda Pertence, que anos mais tarde seria ministro do Supremo Tribunal Federal, defendeu Biggs. Ele foi contratado para evitar a deportação. Na época, o principal argumento foi o de que uma dançarina estava grávida de Biggs. Ele teve um filho no Brasil — Michael Biggs, que também ficou conhecido como Mike, da Turma do Balão Mágico, grupo infantil que fez sucesso nos anos 80.

A Inglaterra voltou a ter esperança em tê-lo de volta depois de assinar um tratado de extradição com o Brasil. Em 1997, no entanto, o Supremo Tribunal Federal arquivou por unanimidade o pedido de extradição feito pelo governo britânico. Na ocasião, como era presidente da Corte, o ministro Celso de Mello não se manifestou no julgamento. O ministro Sepúlveda Pertence também não votou porque tinha sido advogado de Biggs nos anos 70.

O relator do caso, ministro Maurício Corrêa, afirmou que “o tipo penal em que foi incurso o extraditando na sentença condenatória” correspondia ao roubo qualificado na lei brasileira. Mas, pela legislação, houve prescrição porque se passaram mais de 20 anos e, consequentemente, a prisão não poderia ser decretada. O ministro Marco Aurélio disse à revista Consultor Jurídico que cada caso tem suas peculiaridades, mas o “Supremo tem concedido extradição em cerca de 90% dos pedidos”.

Mesmo livre no Brasil, em 2001, Biggs resolveu voltar voluntariamente para a Inglaterra, onde teria de acertar as contas pelo que fez. Foi preso ao desembarcar em Londres e levado para a prisão de Belmarsh, onde se casou em 2002 com a brasileira Raimunda, mãe de seus filhos Michael e Ingrid. Vítima de sucessivos derrames e infartos, Biggs pediu a liberdade diversas vezes. Os pedidos foram negados.

Em junho de 2008, a defesa disse que ele já teria direito à liberdade condicional por ter cumprido um terço da condenação de 30 anos. Em junho de 2009, o secretário de Justiça britânico Jack Straw negou o pedido com o argumento de que Biggs não tinha se arrependido pelo que fez. No fim do mesmo mês, o estado de saúde se agravou e ele foi internado com pneumonia. No dia 6 de agosto, Straw resolveu, finalmente, conceder liberdade ao ladrão do século diante de seu estado de saúde. Dois dias depois, Biggs completou 80 anos.


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 é editora da revista Consultor Jurídico e colunista da revista Exame PME.

Revista Consultor Jurídico, 13 de agosto de 2009, 8h50

Comentários de leitores

2 comentários

OS LADRÕES DO BRASIL

WLStorer (Advogado Autônomo - Previdenciária)

O ladrão do século viveu à margem da Justiça. Os ladrões do Brasil vivem com a proteção da Justiça!

um mero amador por comparação.........

hammer eduardo (Consultor)

Biggs hoje é apenas um velhinho inofensivo e bastante doente , haja visto as tristes imagens mostradas a poucos dias na TV mostrando um quase moribundo que não fala e sequer consegue fechar a boca corretamente. O famoso assalto em que se envolveu hoje serve apenas de ilustração em livros de historia numa epoca em que tal tipo de crime "a la" Jesse james ainda rendia algum Ibope. Conseguiu fugir da cadeia na Inglaterra e depois de passar pela Australia , fixou residencia no Brasil , paraiso dos ladrões de todas as categorias , mormente na emblematica classe politica instalada em Brasilia , por sinal a maior penitenciaria a céu aberto do Brasil tamanha a concentração de bandidos de paletó e gravata que por ali transitam livremente , infelizmente......
No Brasil de hoje afogado neste verdadeiro ESGOTO a céu aberto sem nenhum controle em que MARGINAIS munidos de poderosos mandatos fazem e desfazem e o populacho impotente a tudo assiste sem nada poder fazer , digo que Biggs seria tranquilamente senador , deputado ou ate presidente , afinal ele rapidamente assimilou apos sua chegada o nauseante "jeitinho brasileiro" de saber navegar na melhor onda que passar na frente. Nunca atrapalhou ninguem no Brasil e vivia livre em Santa tereza no Rio de janeiro a tomar uma cerveja e outra enquanto vendia fotos a turistas admirados por sua relativa liberdade.
Um mero amador volto a afirmar com uma ponta de nostalgia , quem sabe se os demais "bandidos" de Brasilia se contentassem em ser "apenas" como Ele o Brasil não seria melhor? O nosso problema é que aceitamos e ate estimulamos "outros niveis" de bandidagem elegendo e reelegendo calhordas variados que fazem do "bom" bandido Biggs um mero amador, triste paiszinho o nosso...

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