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Desobediência legal

Brasil Telecom se nega a fazer grampo genérico

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Ordem ilegal não se cumpre. Com esse entendimento o Tribunal de Justiça de São Paulo concedeu Habeas Corpus preventivo para uma gerente da Brasil Telecom que se negou a cumprir ordem judicial para quebrar o sigilo telefônico de todos os usuários da companhia em 139 municípios do interior paulista, além dos clientes de outros cinco estados e do Distrito Federal.

A decisão foi tomada nesta quinta-feira (23/4), por maioria de votos da 9ª Câmara Criminal. Além de conceder Habeas Corpus, a turma julgadora cancelou o decreto do juiz corregedor da Polícia Judiciária de São José do Rio Preto (no noroeste paulista) por entender que ele era ilegal e absurdo.

A ordem do juiz Robledo Mattos de Moraes, de São José do Rio Preto, dava poder absoluto ao delegado de São José do Rio Preto que presidia a investigação. O decreto determinava que a empresa entregasse à Polícia os dados cadastrais dos assinantes junto com os CPFs, os extratos telefônicos de ligações feitas e recebidas em qualquer período solicitado, o rastreamento em tempo real de estações de rádio (ERB), o histórico das chamadas, além de dados dos IPs requisitados pela autoridade policial.

O decreto judicial atendeu pedido do delegado Guerino Solfa Neto, da Unidade de Inteligência Policial do Deinter-5, de São José do Rio Preto, e do Ministério Público que investigam a atuação de organizações criminosas e o tráfico de drogas em 139 municípios da região. A Polícia queria ter acesso às senhas gerais de telefones fixos e móveis de usuários de 16 companhias de telefonia com atuação nos estados de São Paulo, Mato Grosso do Sul, Rio de Janeiro, Minas Gerais, Paraná e Santa Catarina, além do Distrito Federal.

A gerente regional da Brasil Telecom, Andréia da Silva Frotta, que responde pelos estados de Goiás e Tocantins e pelo Distrito Federal, se negou a cumprir a ordem do juiz. A defesa da gerente, a cargo da advogada, Elisa Lima Alonso, sustentou que o ofício do juiz corregedor, encaminhado à empresa, violava a privacidade dos usuários e a Lei Geral das Telecomunicações (Lei nº 9.472/97). Alegou, ainda, que seria impossível a quebra de sigilo de forma genérica, sem individualização. Temendo responder a processo civil, criminal e administrativo, a gerente entrou com pedido de HC preventivo alegando a licitude da desobediência.

Ordem genérica

O Tribunal considerou a ordem judicial genérica e com prazo que viola a norma que autoriza interceptações telefônicas. A Lei 9.296/96 estabelece 15 dias para as escutas, com uma renovação por igual período. Para o Tribunal, o uso dos grampos na forma como foi estabelecido pela justiça de primeiro grau era uma devassa à privacidade.

“Esse caso é emblemático, pois retrata o abuso que impera hoje na nação de, sem justificativa, bisbilhotar a vida das pessoas”, disse o desembargador Penteado Navarro. “A Justiça não pode permitir que se instale no país um estado policial em nome da defesa do Estado”, completou o presidente da 9ª Câmara Criminal, desembargador Souza Nery.

O relator do recurso, juiz convocado Leonel Costa, votou pela negação do HC. Sustentou que o pedido da gerente assumia a tutela disfarçada de interesses de terceiros, que estavam sendo investigados pela Polícia e o Ministério Público. O juiz ainda defendeu que todos têm o dever de colaborar com as autoridades policiais e com a justiça. “A desobediência de ordem judicial é crime”, declarou o relator.

“Uma concessão tão ampla não tem base legal”, contestou o desembargador Penteado Navarro que atuou no julgamento como segundo juiz. O desembargador disse que a lei obriga que a autoridade policial identifique quais telefones quer ouvir e explique os motivos do pedido. Segundo ele, é amparada em ordens judiciais genéricas e sem limites que vem se cometendo toda ordem de abusos contra o cidadão.

“É dessa maneira que se faz com que as escutas telefônicas atinjam até as mais altas autoridades do país, como ministros do Supremo, senadores, deputados e ministros de Estado”, completou Penteado Navarro, que abriu divergência, com o relator. Segundo ele, não é possível permitir que as interceptações fujam dos limites da razoabilidade.

“Ordem ilegal não se cumpre”, ressaltou o desembargador Souza Nery, que decidiu o julgamento como terceiro juiz. Ele destacou a atitude da gerente da Brasil Telecom que se rebelou contra o decreto do magistrado de São José do Rio Preto. “Se anteriormente outras pessoas tivessem tomado a mesma atitude [da gerente] não teríamos assistido os escândalos de grampos telefônicos patrocinados por autoridades federais”, concluiu Souza Nery.

 é repórter da revista Consultor Jurídico

Revista Consultor Jurídico, 24 de abril de 2009, 12h54

Comentários de leitores

9 comentários

Futuro sombrio...

Sérgio Niemeyer (Advogado Sócio de Escritório - Civil)

Quando os Desembargadores que acertadamente concederam a ordem forem afastados pela aposentadoria, e seus lugares, ocupados pelo juiz convocado e pelo juiz corregedor que proferiu a ordem ilegal, estaremos todos em maus lençóis. Termos de parar de usar o telefone, a Internet. Comunicação, só por carta e pombo correio. Aonde vamos parar com gente que nutre essa mentalidade exercendo o poder de mando tão desviadamente dos nortes constitucionais?
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(a) Sérgio Niemeyer
Advogado – Mestre em Direito e doutorando pela USP – Professor de Direito – Palestrante – Parecerista – sergioniemeyer@adv.oabsp.org.br

Excrescência

Observador.. (Economista)

Fiquei perplexo ao ler a opinião de alguém que se intitula "professor".Caso verdade, fico com medo das cabeças que este dito "professor" está formando ( ou deformando ).
Uma lógica saída das trevas do absurdo.Algo que combina mais com as SD ( Serviço de inteligência das SS nazistas ) de Reinhard Heydrich do que com o Brasil do século 21.Preocupante.....

a justiça a serviço do crime

Francisco Lobo da Costa Ruiz - advocacia criminal (Advogado Autônomo - Criminal)

É isso aí, Dr. Lima. E tem mais, o caso deveria parar na CPI específica e merecer ampla divulgação especialmente no meio acadêmico, com a nota de pesar por não ter o tribunal agido ex-ofício , pois que ordem judicial ilegal é coisa séria, muito séria, mais séria do que alguns pensam (se é que pensam!). Todavia...sabe, né!

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