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Hora do abate

Sadia decide processar ex-diretor por prejuízo

Os acionistas da Sadia decidiram levar à Justiça o ex-diretor da empresa acusado de ser o responsável pelo prejuízo de R$ 2,5 bilhões em operações com derivativos, feitas pela empresa no ano passado. Adriano Lima Ferreira será alvo de uma ação de responsabilidade civil, de acordo com decisão unânime tomada nessa segunda-feira (6/4) pela Assembleia Geral da companhia. A inforamção é do site Monitor Mercantil.

De acordo com a empresa, consultoria feita pela BDO Trevisan mostrou que o Conselho de Administração não sabia das operações cambiais autorizadas pelo ex-diretor financeiro. O conselho era a quem Ferreira deveria se reportar, e não ao presidente da Sadia. Depois do caso, a estrutura foi alterada, obrigando a Diretoria Financeira a informar seus passos ao chefe da companhia.

Os contratos cambiais, firmados na queda do dólar, renderam lucros à Sadia, mas em setembro a situação se inverteu, depois da desvalorização do real. As cláusulas garantiam lucros limitados em caso de alta da moeda brasileira, mas prejuízos exponenciais em caso de desvalorização. Ainda em setembro, a Sadia conseguiu quitar alguns contratos, ao desembolsar R$ 760 milhões. O fato deveria ter sido informado ao Conselho de Administração, como agora a empresa quer provar na Justiça. O intuito é mostrar que o ex-diretor descumpriu a política financeira da corporação, que limita a exposição financeira a seis meses do faturamento com exportações. Em setembro do ano passado, a exposição líquida da Sadia aos chamados contratos de “hedge” cambial era de dez meses de exportação, o que equivalia a R$ 2,4 bilhões.

Em nota, Ferreira afirmou que a atuação financeira da Sadia chegava a representar a maior parte dos lucros da companhia. Operações feitas por meio da Concórdia Corretora de Valores, controlada pela própria empresa, da holding financeira e do banco múltiplo renderam 60% dos ganhos, principalmente os contratos de derivativos nos últimos seis anos, com os quais “a empresa sempre esteve familiarizada”, diz o ex-diretor. Só no primeiro semestre de 2008, ainda segundo a nota, os resultados com a estratégia representaram 80% dos lucros. Ele afirma que a “cultura da empresa nessas operações financeiras (…) já era característica quando da minha entrada na companhia” e atribui o prejuízo de R$ 2,5 bilhões à crise financeira mundial. “Todas as operações financeiras coordenadas por mim sempre foram registradas, contabilizadas e auditadas por mais de uma vez, conforme era de praxe na Sadia”, afirma, alegando que a intenção de processá-lo é uma tentativa dos demais administradores de se eximirem da responsabilidade conjunta. 

A manobra resultou na demissão de Ferreira — até então com uma ascendência brilhante na empresa — e do gerente Alvaro Ballejo. O ex-diretor financeiro era homem de confiança, ocupando o cargo de diretor da holding financeira mantida pela família. Ele também fazia parte da equipe de criação do banco Concórdia. Antes de trabalhar na Sadia, Ferreira atuou no Lehman Brothers, em Nova York. O ex-ministro do Desenvolvimento, Luiz Fernando Furlan, foi chamado para assumir do Conselho de Administração da empresa, para tentar remediar a situação.

Antes da Sadia, outra empresa também prejudicada por operações financeiras temerárias com derivativos, a Aracruz, já havia tomado a mesma medida contra seu ex-diretor financeiro, Isaac Zagury, em fevereiro. A empresa de celulose amargou um rombo de US$ 2,1 bilhões. Zagury se defendeu dizendo que todas as operações foram aprovadas previamente pela empresa.

Leia abaixo o conteúdo da nota.

NOTA À IMPRENSA
Diante das notícias publicadas nesta terça-feira, dia 7 de abril, sobre a decisão dos acionistas controladores da Sadia de autorizar o ingresso de ação de responsabilidade civil contra mim, adotada em assembléia geral extraordinária, tenho a esclarecer que:
1. Recebi a notícia com surpresa após ter dedicado seis anos de minha vida profissional à Sadia, de forma fiel e responsável, período em que a companhia triplicou de tamanho e o seu valor de mercado, inclusive já levando em consideração as perdas. Orgulho-me de ter participado desta história de sucesso.
2. Ingressei na Sadia em 2002, com a missão de coordenar a gestão da liquidez e de proteger o patrimônio da Sadia por meio de operações de hedge, função que cumpri com excelência, adaptando-me às atipicidades da cultura financeira da organização e otimizando-a de forma significativa ao aprimorar controles e processos, sendo responsável inclusive pela criação da área de gestão de riscos.
3. Ressalto que a Sadia, além da vocação agroindustrial, possui também uma vocação financeira com atividades equivalentes e até mesmo superiores, as quais são conduzidas na própria Sadia, na Concórdia Corretora de Valores, há 21 anos em operação, e, mais recentemente em 2007, na criação da holding financeira e do banco múltiplo, com rentabilidades de extrema relevância nos lucros da organização.
4. Os instrumentos financeiros de derivativos sempre fizeram parte e tiveram papel essencial nas práticas comerciais e financeiras da Sadia e nos últimos seis anos, foram responsáveis por aproximadamente 60% do lucro da companhia.
5. A decisão comum a dezenas de outras companhias brasileiras de trabalhar com o "produto 2 por 1", como foram apelidados, deu-se pelo fato deste ser, à época, mais  vantajoso,   ou seja a empresa sempre esteve familiarizada com operações de derivativos..
6. Os mesmos derivativos 2x1renderam à companhia no primeiro semestre de 2008 o correspondente a 80% dos resultados, ou seja, dos lucros da Sadia. Ressalte-se ainda que estas mesmas operações foram realizadas também em 2007, ano em que a Sadia apurou um resultado excepcional e que todas estas operações constavam do seus demonstrativos financeiros. 
7. O fator que levou a Sadia a ter perdas financeiras na ordem de 2.5 bilhões de reais, conforme divulgado em seu último balanço, deve-se principalmente à crise econômica mundial sem precedentes, que aconteceu de forma abrupta e avassaladora, e à cultura da empresa nessas operações financeiras, a qual já era característica quando da minha entrada na companhia.
8. Após solicitação por escrito, me foi negado verbalmente o acesso ao relatório de auditoria especial preparado pela BDO Trevisan, o qual aparentemente embasou a decisão tomada na assembléia geral.
9. Dessa forma, surpreende-me também o relatório da BDO Trevisan, conforme o que li publicado na grande imprensa, considerar apenas o ano de 2008, ou seja, a história muito recente da companhia. .
10. Além disso, é possível perceber, por meio das notícias, que provavelmente foram cometidos erros conceituais no relatório da BTO Trevisan, já que me apontam como culpado pelas perdas da Sadia. Durante toda minha permanência na empresa eu trabalhei enquadrado nos parâmetros de riscos aceitos por ela.  É importante lembrar que para eventuais cálculos do relatório serem legítimos deve ser levado em consideração o cenário macro-econômico e os melhores prognósticos disponíveis na data em que as operações foram fechadas e não seu valor final.
11. Sobre as perdas, informo ainda que no momento de minha saída o montante era bem inferior ao divulgado.. Desconheço as medidas e decisões tomadas, bem como seus impactos financeiros, subseqüente à minha demissão da Sadia.
12. Quanto à minha atuação na companhia, cumpri com rigor a prestação de contas com a Sadia, me reportando diretamente ao presidente do Conselho de Administração, apresentando relatórios mensais e praticando todos os atos que me eram atribuídos.
13. Todas as operações financeiras coordenadas por mim sempre foram registradas, contabilizadas e auditadas por mais de uma vez, conforme era de praxe na Sadia.
14. Diante da crise financeira mundial e da tomada de conhecimento das possíveis perdas que a Sadia poderia sofrer, tomei as providências corretas e cabíveis, avisando imediatamente o Conselho e trabalhando rápida e eficazmente para zerar as operações em questão.
15. Quanto à política de governança corporativa da Sadia, a qual sempre respeitei, parece-me que realmente há problemas de controle interno, já que, meses após minha saída, a companhia decidiu modificar as estruturas de reporte.
16. A meu ver, a decisão de me processar é uma clara tentativa de isentar os demais Administradores da Sadia, que geriram a companhia junto comigo e que compartilharam as mesmas decisões e as consequências positivas delas.
17. Apesar de abatido, estou tranquilo e confiante de que a justiça será feita e eu serei inocentado das acusações a mim proferidas.

Revista Consultor Jurídico, 7 de abril de 2009, 22h10

Comentários de leitores

1 comentário

Só rindo...

Armando do Prado (Professor)

É risível ver os donos do modo de produção econômico questionando um deles através do direito, instrumento de manutenção dos seus interesses. Isso não caracteriza suspeição?

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