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Tentativa de desqualificação

Ex-espião da Abin diz que seu depoimento na PF foi armado

O espião Francisco Ambrósio do Nascimento afirma que o seu depoimento prestado na Polícia Federal no sábado (6/9) foi induzido por diretores da Abin com o propósito de proteger a instituição e desqualificar a investigação. Ele é acusado de ser o espião que grampeou ilegalmente o ministro Gilmar Mendes, presidente do Supremo Tribunal Federal.

Em entrevista à revista IstoÉ, publicação que revelou a sua identidade, Ambrósio diz que está com medo. “Não posso mais caminhar com tranqüilidade pelas ruas de Brasília", disse o ex-agente do extinto Serviço Nacional de Informações, que coordenou os trabalhos de agentes da Abin na Operação Satiagraha, da Polícia Federal.

Ambrósio teme pagar sozinho uma conta que relaciona grampos ilegais envolvendo ministros, parlamentares e autoridades das mais altas cortes da Justiça brasileira. “Querem me transformar em um bode expiatório”, assegura o espião.

Leia a entrevista de Ambrósio feita pelos jornalistas Mino Pedrosa e Hugo Marques

Em seu depoimento na Polícia Federal o senhor contou tudo o que viu durante as investigações da Operação Satiagraha?

Francisco Ambrósio — Meu depoimento só serve para tentar acabar com a Operação Satiagraha, dizendo que eu tive acesso a informações do grupo e ao processo em si, que, como pessoa de fora, não poderia ter.

Alguém disse como deveria ser o seu depoimento?

Ambrósio — O delegado Renato Porciúncula [assessor especial da Abin] falou que estava me armando, antecipando para que eu fosse voluntariamente depor, pois isso melhoraria minha situação dentro do inquérito.

O depoimento foi preparado?

Ambrósio — Sim. O Porciúncula pegou o telefone dele e marcou para as 10 horas no sábado. Eu queria ir na segunda- feira. Ele falou: "Bicho, vai amanhã às 10 que está tudo acertado."

Isso ocorreu na sexta-feira (5/9). Havia mais alguém nessa conversa?

Ambrósio — O delegado Paulo Maurício [diretor afastado da Abin]. Ele estava preocupado com a instituição.

Por que a Abin acertou uma versão para seu depoimento na PF?

Ambrósio — Acho que era uma defesa natural de cada órgão. Qual era a intenção? Era saber se eu sabia de alguma coisa. Só que eu não sabia. Como eu saí como o espião da República que saiu grampeando os Três Poderes, queriam saber de mim se realmente houve aquilo. Então eles disseram: "Bom, se não houve, o próprio presidente do inquérito está querendo livrar tua pele. Então, vamos fazer isso, não sei o que..." Se eu fosse lá sem ter pelo menos, vamos dizer assim, um amigo lá dentro, o DPF (delegado da Polícia Federal), encarregado do negócio, ia cair matando. Acho que houve um acerto.

Acerto para quê?

Ambrósio — Para que a única coisa que se extraísse do meu depoimento fosse que o Francisco Ambrósio manuseava documentos da Operação Satiagraha, o que provocará a nulidade do processo.

Qual foi sua participação na Satiagraha?

Ambrósio — Fui apenas mais um integrante da equipe do delegado Protógenes em Brasília. Me colocaram como sendo do SNI, mas sou aposentado pela Abin e estou afastado desde 1998.

O senhor fazia investigação de rua?

Ambrósio — Com relação a escutas telefônicas clandestinas e ilegais, em hipótese nenhuma. Ocupei, no edifício- sede da Polícia Federal, uma sala no quinto andar, ao lado da sala do diretor.

Como é que o senhor entrava na Divisão de Inteligência?

Ambrósio — No quinto andar, normalmente, como eu chegava após o começo do expediente, sempre havia alguém ali na recepção que abria aporta.

O senhor usou o crachá de uma funcionária da Polícia Federal?

Ambrósio — Dois ou três dias. Esse crachá, inclusive, era de uma funcionária que trabalhava na nossa sala. Todos os dias, quando eu voltava do almoço, ficava esperando de dez a 15 minutos para entrar na sala. A funcionária, gentilmente, perguntou se eu não queria evitar ficar ali no corredor, que ela me emprestaria um crachá que estava sobrando.

Qual o nome da funcionária?

Ambrósio — Prefiro não citar nomes. É uma agente da PF.

Então ela tinha dois crachás?

Ambrósio — Ela me emprestou um deles para que eu usasse e entrasse na Divisão de Inteligência.

O senhor tinha uma sala?

Ambrósio — Ocupava a sala de reuniões do diretor.

Havia quantos computadores lá dentro?

Ambrósio — Devia ter uns seis. Eu usava um modelo antigo, com aquele monitor normal. Os mais novos ficavam com o pessoal. Esse é o único em que eu mexia durante os seis meses que estive lá.

O senhor fez análise do HD do Banco Opportunity?

Ambrósio — Eu trabalhei em cima do HD, mas em nenhum momento eu fiz análise. A vista que eu tive da coisa era totalmente superficial e nem sequer dava para chegar a uma conclusão. Então, o que poderia acontecer? Se visse uma planilha, por exemplo, eu separava para a parte financeira; se vinha alguma coisa da parte administrativa, jogava para o perito da equipe.

O HD tinha informações sigilosas. O senhor, não sendo servidor, não pensou que pudesse prejudicar toda a operação?

Ambrósio — Sim, eu pensei. Mas, como eu estava dizendo, eu não fazia análise.

O senhor teve acesso a e-mails?

Ambrósio — Sim, mas eu não chegava a fazer uma análise deles.

Qual o critério que o senhor usava para separar os e-mails?

Ambrósio — Vamos supor o seguinte: tem coisa que é lixo, é spam, então o que é spam automaticamente você já sabe que é spam, você nem olha.

O senhor teve acesso a um e-mail da Verônica Dantas, interceptada conversando com um advogado do Opportunity, quando ela fala de investimentos?

Ambrósio — Este e-mail não estava comigo. Isso foi falado na sala. Foi comentado por algum perito. Eu escutei. Posso sim, ter conversado lá...

Este e-mail é o que a Verônica Dantas chama o delegado Protógenes de palhaço? Ambrósio — Acho que era, acho que sim.

Não encontramos este e-mail na investigação oficial. É um e-mail que foi interceptado de maneira ilegal?

Ambrósio — Não sei. O que tenho absoluta certeza, da minha presença ali, é que tudo que estava sendo feito era de forma legal.

O delegado Protógenes pagava o senhor em dinheiro?

Ambrósio — Pagava em dinheiro e eu assinava recibo.

Era um serviço legal?

Ambrósio — Fui contratado por um delegado que presidia um inquérito.

O que o senhor fazia no SNI?

Ambrósio — Trabalho de rua, nos movimentos sociais.

Revista Consultor Jurídico, 13 de setembro de 2008, 18h27

Comentários de leitores

9 comentários

É o contrário, Reinhardt, ele deve falar e esca...

olhovivo (Outros)

É o contrário, Reinhardt, ele deve falar e escancarar o lamaçal que há sob toda a aura enganadora dessa e de outras operações pirotécnicas. Senão sobra só pra ele e para a turba, cada vez mais alienada.

Só o Anjo Azul pode resolver o problema desse b...

Reinhardt (Consultor)

Só o Anjo Azul pode resolver o problema desse boquirroto . No serviço de informações , quem fala demais tem a língua enterrada nas areias da praia . Fecha essa matraca, Ambrosio. Seja "hombre" pelo menos agora que te pegaram .

Sobre o grampo do "magistrado" do STF, utilizo-...

Cananéles (Bacharel)

Sobre o grampo do "magistrado" do STF, utilizo-me dos mesmos argumentos jurídicos - no mais das vezes, apenas tentativas pouco técnicas e pouco éticas de embaralhar os fatos, numa tentativa astrofísica de criar uma terceira dimensão, uma espécie de universo paralelo e autônomo que funciona sob as bem "maquinadas" leis da Física do mundo jurídico dos endinheirados - dos advogados dos colarinhos engalanados da nação(nada contra, tem que ganhar dinheiro e ficar rico mesmo, pois isso é o mais importante na carreira): cadê as provas irrefutáveis, as fotografias ou filmagens do senhor realizando o grampo, as provas materiais do grampo, as marcas do sapato, os CD`s com as vozes, os headphones, as canetas esferográficas, as borrachinhas coloridas, os clipes etc. etc. etc. Se não aparecerem tais provas, é claro que o próprio "magistrado" do STF se encarregará, de ofício, de absolvê-lo de toda a culpa, tudo em homenagem ao signo sacrossanto da LÍDIMA JUSTIÇA(bem ao gosto dos doutos advogados, claro) e ao princípio constitucional da dignidade humana.

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