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Dinheiro perdido

Rasgar papel moeda é crime ou apenas um ato de loucura?

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Outro dia uma determinada pessoa, durante a lavratura de um Auto de Prisão em Flagrante meteu a mão no bolso, retirou uma cédula de R$ 100 da carteira e rasgou. O fato chamou a atenção de várias pessoas. Algumas diziam que o cidadão era louco, outras diziam, sem muita base, que essa atitude era considerada criminosa.

Se considerada louca, após exame de insanidade mental, certamente a culpabilidade estaria afastada, por ausência de um dos seus elementos — a imputabilidade. A capacidade de entendimento e de autodeterminação é necessária para imposição de pena, num juízo de reprovabilidade ou censurabilidade que alguém que tenha praticado um fato típico e ilícito.

Constatada a inimputabilidade por doença mental, pelo critério biopsicológico, deve o juiz absolver o autor de um injusto penal, e logo em seguida aplicar medida de segurança, seja tratamento ambulatorial ou internação em hospital psiquiátrico, tudo conforme estudo nos artigos 26 e 96 do Código Penal.

Considerando que a aplicação de medida se segurança também passa pelo crivo do princípio da legalidade, é preciso que alguém tenha praticado um injusto penal — conduta típica e ilícita. No caso do papel-moeda ou do dinheiro rasgado, qual seria a conduta típica?

Inicialmente, o saudoso professor Nélson Hungria definia moeda como sendo o valorímetro dos bens econômicos, o denominador comum a que se reduz o valor das coisas úteis. No Brasil, algumas competências são definidas por leis. Assim, cabe ao Conselho Monetário Nacional estabelecer o valor interno da moeda, bem como autorizar as emissões de papel-moeda.

Compete ao Banco Central emitir papel-moeda e moeda metálica, conforme autorização outorgada pelo Conselho Monetário Nacional. Noutro sentido, cabe à Casa da Moeda, com exclusividade, a fabricação de moeda metálica e papel-moeda.

A legislação que trata do assunto é bem esparsa. A Constituição Federal de 1988 regulamenta o assunto de moeda nos artigos 21, VII, 22, VI, e artigo 164 e pelas leis 4.595/64. 4.511/64 e 5.895/73.

O Código Penal, em seu artigo 289 e SS protege a fé pública, e logo neste primeiro dispositivo consagra o tipo penal de moeda falsa, justamente por ser signatário da Convenção Internacional para a Repressão da Moeda Falsa (Decreto 3.074/38).

Existem outras figuras típicas relacionadas. Tendo em vista a obrigatoriedade do recebimento de moeda em curso legal no país, deparamos com a conduta contravencional prevista no artigo 43 do Decreto-Lei 3688/41, in verbis: “recusar-se a receber pelo seu valor, moeda de curso legal do país: pena — multa”.

Ainda nesse mesmo sentido o artigo 44 da LCP, define a conduta de quem “usar, como propaganda, de impresso ou objeto que pessoa inexperiente ou rústica possa confundir com moeda”, também com previsão de pena de multa. Existem ainda algumas condutas contra a ordem financeira, econômica, tributária, previstas na Lei 8.137/90 e outras normas que protegem o sistema financeiro.

Mas e a conduta de rasgar a moeda, onde está? Seria crime de lesa-pátria? Seria burrice, tolice, fato atípico, economia popular?

A meu sentir, a moeda pertence à União e o seu valor intrínseco ao particular, nos exatos termos dos artigos 98 e 99 do Novo Código Civil. Assim, se a própria pessoa rasga, suja, destrói, inutiliza, papel-moeda ou metálica, ainda que seja de sua propriedade estará configurado o crime de dano qualificado, previsto no artigo 163, parágrafo único, inciso III, do Código Penal Brasileiro.

Assim, quem rasga dinheiro, comete crime contra o patrimônio da União, pois logo estará destruindo coisa alheia móvel, devendo ser o comportamento doloso, dinheiro como sendo o bem material, o patrimônio o objeto jurídico. Trata-se de crime comum, material, de forma livre, comissivo, instantâneo, de dano, unissubjetivo, plurissubsistente.

Jéferson Botelho é delegado de Polícia em Minas Gerais, doutorando em Ciências Jurídicas e Sociais pela Universidade de Buenos Aires e professor universitário.

Revista Consultor Jurídico, 22 de outubro de 2008

Comentários

Comentários de leitores: 6 comentários

23/10/2008 06:24 Wagner (Advogado Autônomo - Previdenciária)
Considera-se possuidor todo aquele que tem de f...
Considera-se possuidor todo aquele que tem de fato o exercício, pleno ou não, de algum dos poderes inerentes à propriedade e, a posse direta, de pessoa que tem a coisa em seu poder (no caso, o dinheiro como bem material), temporariamente, em virtude de direito pessoal, ou real, não anula a indireta (no caso, o dinheiro como patrimônio da União), de quem aquela foi havida, podendo o possuidor direto defender a sua posse contra o indireto (arts. 1.196 e 1.197 do CC). Pelo princípio da intervenção mínima, que visa a garantida de um Direito Penal eficaz, acho que é apenas o caso de uma indenização pelo dano (art. 927 do CC).
22/10/2008 19:55 Lima (Advogado Autônomo - Tributária)
Creio que para iniciarmos uma discussão realist...
Creio que para iniciarmos uma discussão realista sobre o tema não devemos confundir o dinheiro físico (o papel em si), do valor que ele representa (imaterial). O cidadão é sem dúvida alguma proprietário do valor que o papel moeda representa, mas não do papel moeda em si, muito embora possua a posse precária do mesmo. Numa opinião pessoal, respeitando as demais, creio que o cidadão não tem direito de rasgar o papel moeda porque isto onera o Estado e a própria sociedade que termina, por reflexo, tendo que bancar novo papel moeda para substituir aquele que foi destruído. Para bem da verdade não entendo por bem prender um sujeito por rasgar dinheiro, porém, seria de boa índole que o mesmo fosse condenado à prestação de serviços comunitários utilizando-se a razoabilidade como meio para se alcançar o quantum temporal e operacional da pena. Mas posso estar errado.
22/10/2008 17:48 João Gustavo Nadal (Cartorário)
Errado. As cédulas não pertencem à União - ...
Errado. As cédulas não pertencem à União - extrapolando a lógica do articulista ao absurdo, a União poderia exigir a busca e apreensão ou reivindicar a propriedade de quaisquer quantias em espécie.

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