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21 outubro 2008
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Crise nos leva a encarar banco central como quinto poder
Há males que vem para o bem. Vivemos um momento histórico como aquele em que, pela queda de Constantinopla, separou-se a Idade Média da Idade Moderna, a qual coincidiu com o descobrimento da América por Colombo ou quando Neil Armstrong pisou na lua. Os princípios da república tal qual a conhecemos até hoje estão para ser alterados. A crise pela qual passamos, embora possa nos trazer sérios problemas, conduz em seu bojo a chama de mudanças significativas na organização social e política.
Não é a crise do fim do capitalismo, como em 1989 com a queda do muro de Berlim, quando assistimos ao fim do socialismo. O que se aproxima é uma síntese, tal qual prevista por Marx, porém seu resultado não é o comunismo e nem o seu embrião, o socialismo. Estamos assistindo, talvez sem entender, os primórdios de uma nova sociedade: a sociedade aberta, que existe em tese, mas que está sendo implementada em pequenos passos.
Como poderíamos ser tão otimistas em momentos tão conturbados frente ao stress sofrido pelo mercado financeiro internacional? Como poderíamos nos alegrar já que as conseqüências na economia real poderiam ser semelhantes a um terremoto de proporções globais, afetando a vida de todos nós em qualquer canto do planeta? Segundo Karl Popper para se entender o mundo é necessário seguir uma metodologia sistemática. Temos que realizar experimentos que comprovem ou refutem nossas teorias.
Temos que enterrar nossas velhas teorias para não sermos enterrados por elas. Ninguém seria louco de fazer um experimento como o que assistimos apenas para testar uma teoria, mas como ele já aconteceu fortuitamente, tratemos de colocar nossos microscópios e nossas provetas para aproveitar momento tão grandioso embora preocupante.
A essência de tudo o que assistimos é que o homem em sua pequenez, nunca poderia ter sido considerado um super homem como afirmavam os iluministas e positivistas, nas palavras de Nietzsche ou de Marx. Nós não controlamos a natureza e ela mostra isso na evidência dos fatos que mal sabemos avaliar dentro de uma visão reducionista. O desenvolvimento é caótico e ocorre ao acaso conforme previa Darwin. Nosso engano é que o evolucionismo poderia substituir Deus ou as forças misteriosas da natureza. Hoje, as religiões mais evoluídas não colocam a ciência na fogueira como na época da Inquisição, mas também crêem que o acaso é o caminho traçado por Deus.
Diferentemente do que afirmava Einstein: Deus joga dados. A vida e a ciência evoluem segundo uma infinidade de caminhos que se assemelham ao livre arbítrio oferecido à raça humana, conforme afirmava o conhecimento religioso e este é fruto de algo que trazemos em nossa gênese, como um código divino. Livre arbítrio na natureza não é a capacidade racional de escolha, mas a compreensão de que todas as possibilidades são reais, conforme a física quântica.
O grande capitalismo, que ao contrário do que afirmava Marx, não possui contradições irremediáveis, está de joelho. Alguns afirmam que chegou o seu fim. Na realidade não é o capitalismo que está morrendo, mas a capacidade dos humanos em resolver os seus problemas mais comezinhos, ao se olhar o planeta como um todo. Para chegar a conclusões tão assertivas é necessário reduzir o problema para entendê-lo. É necessário ainda analisar também esse modelo reduzido segundo modelos não reducionistas.
O que ocorreu com o mercado financeiro é simples de entender. As soluções teóricas para solucionar problemas desse tipo já existem. O que não existe é a capacidade do homem em ver as coisas de maneira multidimensional. Não refuto o reducionismo mas creio que ele é uma das visões do mundo. O reducionismo não é descartável, mas também não é completo. Ele continua válido ao analisarmos detalhes, mas não permite a visão do todo. Precisamos das duas visões pois não existe verdade total, pelo menos no mundo dos vivos.
Descartes, ao formular seu discurso sobre o método, afirmou que o usaria para entender tudo menos para contrariar Deus e sua obra. Parece que ele percebia que seu precursor e o precursor de todos nós tinha oferecido, caminhos inumeráveis para nossa evolução, os quais estariam gravados na gênese da natureza conforme nos mostra o código genético, segundo afirma Francis Collins diretor do Projeto Genoma.
Contra fatos não há argumentos e o fato é que todo e qualquer sistema é caótico, como já por inúmeras vezes pudemos comprovar através de crises pelos quais o mundo já passou. O homem não está acima da natureza mas dentro dela e ao mesmo tempo está fora, em decorrência da razão, do livre arbítrio. Temos que entender nossa mãe e suas idiossincrasias, ou seremos condenados à não-existência. Tal qual a esfinge egípcia, a natureza nos alerta: Decifra-me ou devoro-te. Não existe contradição entre reducionismo e holismo, o qual prevê que o todo e suas partes são ao mesmo tempo independentes e dependentes. Tais visões são apenas diferentes prismas e não contraditórias. Cada qual se aplica à hierarquia dos fenômenos conforme as contingências.
Luiz Roberto Kallas é consultor e professor de Planejamento e Finanças há 33 anos.
Revista Consultor Jurídico, 21 de outubro de 2008
Comentários
Comentários de leitores: 4 comentários
Por qué no te callas ??!!!
Tem razão o senhor Kallas, quando demonstra a n...
Quero parabenizar o senhor Kallas, se assim ele...
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