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Tempo inaceitável

Excesso de prazo na prisão preventiva afronta dignidade

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Réu, especialmente o que está preso, tem o direito público de ser julgado dentro de um prazo razoável, sob pena de caracterizar situação de injusto constrangimento. Se o Poder Público não consegue julgar em tempo aceitável, então também não justifica manter esta pessoa presa, sem culpa formada, por violar a dignidade da pessoa humana.

O entendimento foi usado pelo ministro Celso de Mello, do Supremo Tribunal Federal, para garantir a liberdade de uma acusada de formação de quadrilha e porte ilegal de arma. Katiane dos Santos está presa preventivamente desde junho de 2006. Um pedido de Habeas Corpus já foi negado pelo Superior Tribunal de Justiça que disse que a complexidade do processo justificava a demora do Estado em julgar a acusada.

“Trata-se de processo com quatro denunciados presos em comarcas distintas, cuja instrução está sendo realizada somente através de cartas precatórias, tanto para a oitiva dos acusados, quanto para a inquirição das testemunhas. Portanto, as peculiaridades da causa tornam razoável a demora na formação da culpa, de modo a afastar, por ora, o alegado constrangimento ilegal”, afirmou o STJ.

Celso de Mello considerou o contrário. Para ele, o excesso de prazo “traduz situação anômala que compromete a efetividade do processo, pois, além de tornar evidente o desprezo estatal pela liberdade do cidadão, frustra um direito básico que assiste a qualquer pessoa: o direito à resolução do litígio, sem dilações indevidas e com todas as garantias reconhecidas pelo ordenamento constitucional, inclusive a de não sofrer o arbítrio da coerção estatal representado pela privação cautelar da liberdade por tempo irrazoável ou superior àquele estabelecido em lei”.

Para o ministro, afronta a ética-jurídica o excesso de prazo da prisão processual, além da Convenção Americana sobre Direitos Humanos, que prevê no artigo 7º: “toda pessoa detida ou retida deve ser conduzida, sem demora, à presença de um juiz ou outra autoridade autorizada pela lei a exercer funções judiciais e tem direito a ser julgada dentro de um prazo razoável ou a ser posta em liberdade”.

Ele ressaltou que “o réu — especialmente aquele que se acha sujeito a medidas cautelares de privação de sua liberdade — tem o direito público subjetivo de ser julgado, pelo Poder Público, dentro de um prazo razoável, sob pena de caracterizar-se situação de injusto constrangimento ao seu ‘status libertatis’”.

Foram citados como precedentes o julgamento do Habeas Corpus que garantiu a liberdade para um acusado que estava submetido à prisão cautelar há 4 anos, 1 mês e 4 dias, sem julgamento e outro que ficou quatro anos e 28 dias “abusivamente” preso preventivamente. “É preciso enfatizar, uma vez configurado excesso irrazoável na duração da prisão cautelar de qualquer acusado, que este não pode permanecer exposto a tal situação de evidente abusividade, sob pena de o instrumento processual da tutela cautelar penal transmudar-se, mediante subversão dos fins que o legitimam, em inaceitável (e inconstitucional) meio de antecipação executória da própria sanção penal”, concluiu o ministro.

Leia o voto

04/03/2008

SEGUNDA TURMA

HABEAS CORPUS 91.662-7 PARANÁ

RELATOR: MIN. CELSO DE MELLO

PACIENTE(S): KATIANE DOS SANTOS

IMPETRANTE(S): MATHEUS GABRIEL RODRIGUES DE ALMEIDA E OUTRO(A/S)

COATOR(A/S)(ES): SUPERIOR TRIBUNAL DE JUSTIÇA

E M E N T A: “HABEAS CORPUS” - PROCESSO PENAL – PRISÃO CAUTELAREXCESSO DE PRAZOINADMISSIBILIDADEOFENSA AO POSTULADO CONSTITUCIONAL DA DIGNIDADE DA PESSOA HUMANA (CF, ART. 1º, III) – TRANSGRESSÃO À GARANTIA DO DEVIDO PROCESSO LEGAL (CF, ART. 5º, LIV) – PEDIDO DEFERIDO.

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Revista Consultor Jurídico, 30 de março de 2008, 00:01

Comentários de leitores

12 comentários

Voto magnífico e atual. O Ministro Celso De Mel...

Helano Cid Timbó (Advogado Autônomo)

Voto magnífico e atual. O Ministro Celso De Mello mostra toda a sua cultura jurídica nessa formidável decisão. Não nos esqueçamos, porém, da lentidão eterna do judiciário.

Caros colegas, a respeito do tema em comento, s...

Advcrítico (Advogado Autônomo - Criminal)

Caros colegas, a respeito do tema em comento, sugiro a leitura da entrevista publicada em 24.02.08, aqui no Conjur, na qual o Dr. Luiz Guilherme Vieira,citando o e. Min do STF e Prof. Evandro Lins e Silva, refere que "A cadeia é o maior símbolo da incapacidade humana." Leiam por favor.

Só mostra uma coisa: judiciário incompetente, n...

Armando do Prado (Professor)

Só mostra uma coisa: judiciário incompetente, no sentido lato.

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