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15 julho 2008
Tiro no pé
Erros da Polícia Federal prejudicam investigações
Os delegados federais Protógenes Queiroz e Karina Murakami Souza anunciaram o afastamento do comando da Operação Satiagraha nesta terça-feira (15/7). De acordo com a explicação oficial, não houve pressão para o afastamento e ele não foi causado por erros no inquérito ou críticas à condução da operação.
A vida dos investigadores e delegados da Polícia Federal não é fácil. A operação do momento exemplifica bem como é complicado combater o crime quando faltam elementos materiais e humanos para fazer frente à tarefa.
Na terça-feira passada (8/7), quando foi deflagrada a operação, agentes federais erraram o endereço de Daniel Dantas, o principal investigado. Bateram na casa do ex-banqueiro Luiz Cezar Fernandes, ex-sócio do Pactual, como registrou Lauro Jardim, colunista da revista Veja.
Na mesma hora, policiais em São Paulo confundiram o dentista Fábio Bibancos com Marco Matalon, apontado no inquérito como doleiro. Os investigadores invadiram a clínica do dentista e o prédio onde ele mantém duas ONGs. Renderam-no aos gritos e levaram consigo computadores, latops e agendas. O dentista foi agredido. Os endereços errados constavam nos mandados de busca e apreensão expedidos pela Justiça.
Pouco depois de a ação ter sido deflagrada, a revista Consultor Jurídico noticiou que o delegado Protógenes Queiroz havia pedido a prisão da jornalista Andréa Michael, da Folha de S.Paulo — leia aqui a notícia. A acusação era de “vazamento” de informação pelo fato de a jornalista ter feito seu trabalho e feito reportagem sobre as investigações. O juiz negou os pedidos de prisão e de busca e apreensão de documentos na casa da jornalista. Mas, para o delegado, ela era membro da quadrilha “travestida de jornalista em Brasília”.
Os investigadores mostraram especial interesse em jornalistas. Eles parecem ver jornalistas a soldo de Dantas nas redações como um dia os militares enxergavam comunistas nos jornais. Segundo o delegado, jornalistas beneficiam Dantas pelo fato de publicar informações sobre os negócios do Opportunity.
Em relatório parcial da Operação Satiagraha obtido pela revista Consultor Jurídico, publicado na íntegra nesta segunda-feira (14/7), feito basicamente com interceptações telefônicas e e-mails, a Polícia Federal se confunde — leia aqui a notícia e a íntegra do documento.
O relatório é assinado pela delegada Karina Murakami Souza e foi entregue ao juiz Fausto Martin de Sanctis, da 6ª Vara Federal Criminal de São Paulo, no dia 24 de junho — duas semanas antes de a operação ser deflagrada.
No item de número cinco do relatório, intitulado de Manipulação da Mídia, a delegada afirma que no curso das investigações se deparou “com diálogos e e-mails que apontam para a ocorrência de manipulação de mídia pela organização criminosa investigada”. A delegada registra ainda que notou que “tudo que se publica com relação aos interesses do grupo é acompanhado de perto e cuidadosamente” por eles próprios.
Um dos indícios do envolvimento da imprensa com a “organização criminosa” é uma troca de mensagens em que os interlocutores tentam localizar um editorial já publicado no jornal Folha de S.Paulo. Para a Polícia Federal, contudo, eles conversam “a respeito de um editorial sobre o qual, ao que tudo indica, estão acertando detalhes”.
Outro indício é uma mensagem na qual uma bibliotecária do Opportunity pede orçamento para tradução de três textos, que foi lida pela PF como um levantamento de preços para a produção de notícias a favor de Dantas. O conteúdo da mensagem é o seguinte:
| Assunto: Orçamento
De: Adriana Abreu |
Boa Tarde!
Gostaria de solicitar o orçamento das notícias abaixo:
(See attached file: 2007-11-08-consultor.pdf) (See attached file: 2007-11-12-Jornal do Brasil port.pdf) (See attached file: 2007-11-19-Conversa_Afiada port.pdf)
| Adriana Abreu CEIDOC – Opportunity |
Uma das notícias anexadas na mensagem é da ConJur, outra do Jornal do Brasil e a terceira do site Conversa Afiada, de Paulo Henrique Amorim. A ConJur enviou mensagem para o endereço de e-mail destinatário da bibliotecária do Opportunity perguntando sobre os trabalhos prestados. Recebeu como resposta uma tabela de prestação de serviços da empresa FM Traduções.
Entre os clientes da empresa de tradução, além do Grupo Opportunity, estão pelos menos quatro grandes escritórios de advocacia e diversas outras empresas. Para as traduções urgentes, o preço é de R$ 55 por página. Para as que não têm urgência, o preço é de R$ 30. A bibliotecária confirmou o pedido de tradução.
Mas, para a delegada, a mensagem revelava outra coisa: “Neste e-mail, Adriana Abreu, do Opportunity, pede o ‘orçamento’ de notícias que seguem em anexo. Há indícios, portanto, de manipulação da mídia. Demonstra aqui que os meios de comunicação têm servido aos interesses daqueles que os controlam e financiam, o que fere a ética e a moral do bom jornalismo”.
A mensagem foi enviada em 19 de fevereiro deste ano e as notícias tinham sido publicadas três meses antes, em novembro de 2007. O orçamento estava atrasado.
Rodrigo Haidar é chefe de redação da revista Consultor Jurídico.
Revista Consultor Jurídico, 15 de julho de 2008
Arquivo
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Como é o mundo... Os mesmos reacionários que...
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