Notícias

6 janeiro 2008

Justiça julgada

Condenação de americano na Nicarágua gera comoção nos EUA

Por Claudio Julio Tognolli

O julgamento do homem acusado de matar Doris Jiménez, há 14 meses, não serviu serviu apenas para expor no cenário internacional os supostos culpados, mas, sobretudo revelou as peculiaridades do sistema judicial nicaragüense, um misto de “conceitos nebulosos, subjetivos e abstratos”. Os adjetivos com ataques à justiça nicaragüense ocupam toda uma página, deste domingo (6/1), do jornal The New York Time.

Contribuem para tornar o caso mais clamoroso desde o presidente da Nicarágua, Daniel Ortega, até a juíza Ivette Toruño. que acatou as denúncias do Ministério Público nicaragüense, passando por figuras de peso do Departamento de Estado dos EUA, e da Suprema Corte da Nicarágua. A juíza já confessou que teme represálias.

Em fevereiro passado, o norte-americano Eric Volz, de 28 anos, foi condenado pela morte de sua namorada Doris Jiménez, então com 25 anos. Volz contou ao júri que estava em Manágua, capital da Nicarágua, no dia 21 de novembro de 2006, quando alguém entrou na butique de Doris Jiménez, perto da cidade de Rivas, a 100 km da capital, e a estrangulou.

Não só provas circunstanciais indicaram a inocência de Volz, como também as materiais: ligações de celular, que ele fez de Manágua, na hora do assassinato, e registros de navegação de seu computador pessoal, a indicar que ele estava mandando mensagens via internet na hora do crime.

A juíza não acatou as evidências. Ela confiou nos depoimentos do surfista nicaragüense Nelson López, que de suspeito do crime passou a acusador do namorado americano da morta. Segundo o New York Time, López foi inocentado por pressão da população sobre a juíza e os jurados.

Volz foi condenado a 30 anos de prisão e o caso virou manchete dos jornais e da televisão nos EUA. As emissoras não se cansam de exibir manifestações públicas de pessoas ostentando camisetas em que se lê “Libertem Eric Volz”. Também têm sido vendidos milhares de adesivos de pára-brisas de carros e pulseiras com a mesma mensagem e até um site foi criado em defesa do americano.

Decisão reformada

No dia 17 de dezembro passado uma corte de apelações da cidade de Granada, a sudoeste de Manágua, reformou a decisão da juíza e decidiu que Volz era inocente, por dois votos contra um. O terceiro juiz, Norman Miranda, membro do Partido Sandinista, a que pertence o presidente Daniel Ortega, decidiu por um novo julgamento, mas manteve Volz atrás das grades.

Um dos magistrados da corte de apelações confessou que reteve os autos além do prazo normal por ter “perdido alguns originais do processo”. Isso fez com que o Departamento de Estado dos EUA entrasse no caso, emitindo nota em que pede que a Nicarágua “cumpra suas próprias leis com rigor”.

Na última semana de dezembro Volz foi posto e m liberdade e fugiu da Nicarágua, com a ajuda de seguranças particulares, que o promotor-chefe do caso, Julio Centeno, sugeriu serem agentes da CIA, a central de inteligência dos EUA.

O presidente nicaragüense Daniel Ortega agora acusa os dois juízes que votaram pela libertação de Volz como “nomeados por partidos que se opõem aos sandinistas”.


Claudio Julio Tognolli é repórter especial da revista Consultor Jurídico

Revista Consultor Jurídico, 6 de janeiro de 2008

Comentários

Comentários de leitores: 7 comentários

8/01/2008 00:20 Sandro Couto (Auditor Fiscal)
Concordo com ambos os lados da polêmica. MPE e ...
Concordo com ambos os lados da polêmica. MPE e A.G. Moreira estão cobertos de razão, pois realmente é isto (arbitrariedade desmedida cometida pelos EUA)que, infelizmente, está ocorrendo no mundo todo, sem a mídia condenar ou se relatarem clamor social a respeito do assunto. No entanto, o conservador também não está errado, pois pelo que se depreende na notícia o rapaz é inocente e não pode pagar pelos erros absurdos cometidos pelo seu país. Agora, o que deveria ser feito é tentar reverter a decisão pelas vias judiciais normais e não mais uma vez serem arbitrários e surrupiar o processado.
7/01/2008 01:53 Richard Smith (Consultor)
Pessoal, calma! Fiando-se apenas no descri...
Pessoal, calma! Fiando-se apenas no descrito na matéria e conhecendo-se a "isenção" da canalhada de esquerda, cujo sandinista daniel ortega sempre foi luminar, pareçe claro que o americano era inocente, tanto é que isso foi reconhecido por dois dos três juízes da camara revisora nicaragüense e que porisso foram acusados pelo nefelibata de se portarem "anti-sandinisticamente"! Então justiça agora tem ideologia? Crimes de morte e evidencias materiais de não autoria podem sofre viés político? Apenas porque o trouxa é americano? Ah, devagar, muito devagar, a fim de não pecarmos justamente pelo excesso na direção contrária.
7/01/2008 00:13 Artur (Promotor de Justiça de 1ª. Instância)
Os americanos defendem bem a Justiça e democrac...
Os americanos defendem bem a Justiça e democracia para o mundo, mas é o único país do mundo a manter prisioneiros classificados exclusivamente por eles como "de guerra" em Güantanamo, sem advogado, se m julgamento, sem Justiá. Se vc tiver o azar de tentar entrar no EUA e for tido como suspeito, pode ser preso por 7 (sete) dias sem qualquer acusação formal, sem explicação, sem aviso a familiares ou a quem quer que seja. Outrossim, a Europa descobriu que o EUA seqüestraram pessoas pelo mundo todos e as mantém secretamente em bases americanas naqueles países, o que é objeto de investigação internacional.

Ver todos comentários

A seção de comentários deste texto foi encerrada em 14/01/2008.