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Silêncio religioso

Os anjos que nos ajudem a dizer o que acontece com o dízimo

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Está mais do que na hora de acabar com facilidades sem qualquer fundamento. A boquinha das isenções para igrejas precisa mirar o ocaso. Muita fiscalização no que acontece na coleta e nas sacristias. Mas o Brasil é uma república que engatinha em valores republicanos, infelizmente, minguando em valores de separação, contenção, fiscalização do poder. Pior: o povo brasileiro ainda credita na religiosidade a maior confiabilidade nacional.

Ainda não compreendemos que políticas públicas devem estar dissociadas da opinião religiosa e a imprensa não tem que se socorrer dos clérigos toda vez que tocamos em questões de saúde pública como prevenção de doenças sexualmente transmissíveis, planejamento familiar ou o aborto.

Ademais, como já explicado noutro ensaio alhures publicado no jornal A Gazeta, até mesmo os tribunais, parlamentos, executivos estão impregnados de valores religiosos, iniciando e findando sessões públicas com o apelo teológico. Ao contrário do que determina a Constituição, cresce em proporções espantosas a influência política dessa massa manobrada por pastores, padres, diáconos, bispos, bispas e toda a sorte de prelados que se intitulam ou profetas ou apóstolos.

É preciso mais valor científico, aprofundando o aspecto laico no espaço público brasileiro e não rumarmos para torniquetes ideológicos, como acontece frequentemente na educação primária e secundária estadunidense, por exemplo. Nas ondas da medievalidade high-tec, surgem as bancadas religiosas, confundindo o “rebanho” com a massa eleitoral que reza semanalmente numa campanha eleitoral permanente e transcendental.

É verdade que a Constituição de 1988 prega a liberdade de culto. Mas isso não significa que uma criança, um adolescente tenha que ser educado pelas cartilhas criacionistas, não conhecendo sequer o evolucionismo de Darwin. A liberdade religiosa, grande valor brasileiro conquistado por uma benéfica convergência histórica, não é sinônimo da liberdade paterna em condicionar os filhos na crença de que a Terra é o centro do universo. Finalmente, a liberdade de crença não poderá jamais impedir o serviço ético do profissional médico que tenta salvar vidas com transfusões de sangue. É que os valores constitucionais não são absolutos e devem ser temperados uns com os outros.

A mídia noticia uma avalanche de processos de seitas contra a própria imprensa que, utilizando-se de suas prerrogativas, investiga as ligações dos dízimos com financiamentos de campanhas políticas, remessa ilegal de divisas para o exterior e lavagem de dinheiro. Os fiéis montam equipes jurídicas para defender seus pastores, bispos, arcebispos e tantos outros pontífices. A jornalista Elvira Lobato, da Folha de S. Paulo, assinou reportagem que retrata uma tal de Unimetro, ligada por sua vez à Cableinvest, registrada no paraíso fiscal da ilha de Jersey, no canal da Mancha. “O elo aparece nos registros da empresa na Junta Comercial de São Paulo. Uma hipótese é que os dízimos dos fiéis sejam esquentados em paraísos fiscais.”

Não sei se adianta dizer que não acredito em nada disso. Ou, quem sabe, afirmar que tenho a “fé” que nenhuma igreja sustenta seus pastores a pão-de-ló, ou ainda, remete divisas ilegalmente para o exterior por meio de um sofisticado esquema de sonegação e câmbio criminoso. O fato é que não acredito em nada disso. É claro: se eu acreditasse, poderia ser processado também. Explica-se: é que os fiéis, seguidores, rebanho ou seja lá como se chamem, estão se organizando para ameaçar a imprensa brasileira a fim de não divulgar nenhuma informação relativa às atividades mais mundanas, digamos assim. Daí vir um fenômeno inusitado no Brasil: o assédio judicial.

O assédio judicial é uma forma de coagir o jornalista e comentarista, processando-o de formas múltiplas, em variados locais a fim de impossibilitar-lhe a defesa. A sorte da pobre alma é contar com juízes mais iluminados que os fanáticos de sensibilidade epidérmica. Um juiz de Bataguaçú condenou uma das partes em litigância de má-fé. Os argumentos são enfáticos: “A postura adotada pelo autor demonstra a existência de inquestionável má-fé, pois deturpa o conteúdo da reportagem para, inserindo-se individualmente nela, buscar indevidamente o recebimento de valor indenizatório. O Poder Judiciário está sendo utilizado pelo autor para o fim espúrio de prejudicar os demandados, tendo em vista que diversas demandas, com a mesma causa de pedir e pedido, foram distribuídas pelos variados rincões do país, em localidades de difícil acesso, sendo nítida a intenção do autor, como também dos demais demandantes nas ações mencionadas, de dificultar a defesa dos réus", observou o magistrado Alessandro Pereira.

Eu mesmo rezo (ou faço oração?) para que possa escapar do mármore quente do inferno e, aqui na Terra, não padecer com processos por expressar a minha opinião que, aliás, é sempre pelo apostolado autêntico das igrejas, seitas, doutrinas cultos em questão. E, se assim os anjos e outras potestades ajudarem (menos arcanjos), poderemos informar a sociedade brasileira do que vem acontecendo com o dízimo. Como a contribuição está liberada e não pode ser fiscalizada, vamos acabar com as isenções sem qualquer sentido em favor das igrejas. Aleluia! E Deus me livre.

 é advogado em Mato Grosso e Brasília, doutorando em Direito Penal e membro da Academia Mato-Grossense de Letras.

Revista Consultor Jurídico, 21 de fevereiro de 2008, 0h01

Comentários de leitores

38 comentários

Mr. Mahon: o sectarismo é uma afronta à liberda...

JAAG (Advogado Sócio de Escritório - Criminal)

Mr. Mahon: o sectarismo é uma afronta à liberdade humana. A liberdade se perde, quando se afronta o limite de sua fronteira. A imprensa afrontou. Trata-se de repetitório o fato alienista de afirmar sua nobre argumentação. Data venia, o fato de um juiz se convencer ao contrário, é prerrogativa do mesmo. Nada impede que outros pensem diferente e que se impetrem recursos, via advogados. O dízimo é justo e respalda atividadesde quaisquer igrejas. Por que não podem ser sobrevida de seus líderes? Questiona-se, reflete-se e se há abusos, tais fazem parte do contexto. Impedir ou usar alegorias em sentido contrário é desdenhar a democracia. Não servem hipótes, como nos EUA é assim, em Portugual a Iurd não tem vez. Tudo isso é pura celeuma sem fim. O uso de V. Exa. da expressão assédio judicial demonstra radicalismo fundamentalista. Primeiro se arvora na verdade e depois se enaltece na certeza! Puro farisaismo, data maxima venia. A imprensa extrapolou, a Iurd é legítima na defesa de sua honra subjetiva ou objetiva e deve buscar o judiciário. É direito constitucional em nosso País. Cada ofensa é uma e cada ação independe de ser sobre o mesmo fato, porque são ofendidos diferentes. Lamentável racionalizar o artigo do senhor em apenas uma vertente. Trata-se de provocação hilariante que a nada leva. Lamentável.

Insisto mais uma vez numa opinião que tenho da ...

Chiquinho (Estudante de Direito)

Insisto mais uma vez numa opinião que tenho da "Igreja Universal do Queijo do Reino". Nada contra. Nada a favor.Ao contrário. Mas o que se faz com as pessoas miseráqveis e de boa-fé em nome de "Deus" e "Jesus Cristo" para arrancar-lhes dinheiro a todo custo não existe "márquete" mais perfeito e agressivo no mundo dos negócios! Uma colega passou mais de três anos desempregada. Miséria total. Distribuiu mais de trezentos currículos nas empresas, nas indústrias e no comércio. Desolada da vida, certo dia, entrou num "templo" desses, e "os pastores" fizeram-lhe uma "corrente de "oração" "ou sessão espiritual de descarrego", para lhe espantarem o "Demo" e que tal emprego aparecesse logo. Dias depois de frequentar a "igreja", a "fiel" foi contrada. Não pelas "orações", mas por causa da distribuição dos currículos, pois, cobra que não anda, não engole sapo. A lavagem cerebral feita na "irmã" foi tão bem aplicada, tão mirabolante, tão bem arquitetada, que essa "irmã", mesmo passando por todas as dificuldades financeiras e alimentares, quando recebeu o primeiro salário, foi direto à "igreja", agradeceu-lhe a "graça" do emprego alcançado, fechou os olhos,e depositou todo aquele salário no "saco" do "pastor"!!!! Pergunto: Se Deus existe, é justo, é fiel, é misericordioso, por que permite que se cometa tantas injustiças na terra, principalmente contra todos os desprovidos e incautos, em seu nome!!?? Cícero Tavares de Melo. Acadêmico em Direito da FACIPE. chiquinhoolem@yahoo.com.br

Obrigado pela terna lembrança, caro amigo Sun...

Richard Smith (Consultor)

Obrigado pela terna lembrança, caro amigo Sunda. Também lembrei de você ainda ontem, ao visitar o site "Judeus por Jesus" (www.judeusporjesus.org.br)por indicação de um amigo. E mais, que filme de Scorcese? Um abraço a você.

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