Universal, em nota, ameaça: igreja tem cinco milhões de fiéis
A Igreja Universal do Reino de Deus negou, em nota à imprensa, que incentiva seus fiéis a processar individualmente jornais e jornalistas. No entender da Igreja do bispo Edir Macedo, a imprensa é que estaria cerceando o acesso das pessoas à Justiça. Segundo a nota, a Universal foi procurada por fiéis de várias partes do país, indignados com as notícias “lamentáveis” sobre a Igreja, veiculadas em vários jornais — cujos nomes não são citados. Embora não informe o que a Igreja recomenda aos fiéis que a procuram, a nota fornece outra informação que pode soar como uma ameaça a quem contrariar ou discordar dela: a Universal tem 5 milhões de seguidores.
A série de ações de fiéis da Universal contra jornais começou depois que a Folha de S.Paulo publicou a reportagem Universal chega aos 30 anos como império empresarial, em 15 de dezembro. No texto, a repórter Elvira Lobato relatou que a Universal construiu um conglomerado empresarial. A jornalista informou que uma das empresas da Igreja, a Unimetro, está ligada à Cableinvest, registrada no paraíso fiscal da ilha de Jersey, no canal da Mancha. “O elo aparece nos registros da empresa na Junta Comercial de São Paulo. Uma hipótese é que os dízimos dos fiéis sejam esquentados em paraísos fiscais”, informou.
Até agora, são 96 processos de fiéis: 56 contra a Folha e a jornalista Elvira Lobato; 35 ações contra o jornal A Tarde, de Salvador, e o repórter Valmar Hupsel; e cinco ações contra jornal Extra, do Rio, e seu diretor de redação, Bruno Thys. O próximo alvo é o jornal O Globo. Fiéis prometem processar o jornal por causa de uma reportagem na qual a Universal foi chamada de seita.
A Associação Brasileira de Jornalismo Investigativo (Abraji) afirmou apoiar os jornalistas processados. A associação diz que entende o direito do cidadão de buscar na Justiça reparação por alguma ofensa, mas afirma que a intenção da Universal é mandar um “recado” para jornais e jornalistas para impedi-los de investigar, relatar e publicar.
Citando Levantamento da revista Consultor Jurídico, a Abraji alerta para o crescimento “da tendência de utilizar a Justiça na tentativa de impedir a livre circulação de informações”. No ano passado, a ConJur revelou que há no Brasil 3.133 processos contra profissionais da mídia. E que o valor médio das indenizações requeridas em 2003 era de R$ 20 mil e no ano passado foi de R$ 80 mil.
A OAB nacional também se manifestou sobre o movimento da Universal. O presidente da entidade, Cezar Britto, afirmou que “a busca de reparação judicial é recurso legítimo do Estado Democrático de Direito; não pode, no entanto, esse direito transformar-se em instrumento de perseguição política, exercendo papel de censura e de intimidação à liberdade de expressão”. Para Cezar Britto, a campanha da Universal “deixa claro que o que se busca não é Justiça, mas o estabelecimento de forma oblíqua de censura, por meio de pressão econômica — e isso não é admissível”.
A jornalista Elvira Lobato deu uma entrevista para o Portal Imprensa dizendo que cumpriu sua tarefa de informar o leitor. “Nunca desrespeitei os fiéis, nunca falei que o dinheiro deles é sujo. Sei que eles são trabalhadores limpos. Espero que eles, os fiéis, tenham serenidade. Não sou inimiga da Igreja. Meu trabalho é informar.”
De acordo com a jornalista, a Associação Brasileira de Imprensa (ABI) examinou os processos e disse que esse este um caso único, sem precedentes na história do jornalismo brasileiro. “A Folha está se fazendo representar em todas as audiências. Estamos cuidando de todos. O jornal nomeia um jornalista ou chefe da região que vai junto com os advogados. Isso exige uma logística inacreditável de advogado para cima e para baixo”.
Leia a nota da Universal e, em seguida, da Abraji
Comunicado à imprensa
A Igreja Universal do Reino de Deus, entidade religiosa há 30 anos no Brasil, com mais de 5 milhões de fiéis e presente em 170 países, vem a público esclarecer que:
1. Fiéis de várias partes do país estão procurando a IURD para manifestar seu repúdio em relação às notícias classificadas como lamentáveis, publicadas por veículos de comunicação, especialmente no que se refere à origem e destinação de seus dízimos;
2. O dízimo é um aspecto da liberdade de crença consagrada pela Constituição Federal;
3. A IURD já ingressou com suas ações judiciais e não tem qualquer interesse de orquestrar e incentivar processos individuais por parte de seus fiéis;
4. A IURD respeita a liberdade de Imprensa, os jornalistas e suas entidades representativas, porém, não admite que reportagens sejam usadas para ofensas de outras garantias constitucionais como a dignidade da pessoa humana, o acesso à Justiça, à liberdade de crença e à inviolabilidade da honra;



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