Sociedade é reprimida e mesmo assim consegue aplaudir
No final dos anos 70 ou no início dos anos 80 eu li uma tirinha do Henfil (eu gostava de fazer isso naquela época) na qual algum dos seus personagens, o bode Orellana, eu acho (talvez fosse a Graúna), ansiava pelo fim da censura para assistir Sacco e Vanzetti, Laranja Mecânica e, sabe-se lá por que, O Demônio na Carne de Miss Jones.
A censura acabou e eu assisti todos eles. Posso dizer que nenhum resistiu bem ao ataque do tempo: uma nova avaliação por cientistas forenses concluiu que Sacco e Vanzetti eram mesmo culpados, qualquer gangue de adolescentes brasileiros de hoje faz Alex e seus druggies parecerem um bando de bananas amadores (mas ainda tiro o chapéu para Kubrick e Burgess), e o Demônio na Carne de Miss Jones era, bem, um filme pornô — nada mais.
Aliás, menos: a técnica era tosca, a estorinha era sofrível, e a magrela que fazia o papel principal era feia de doer, além de esquelética. Era uma texana chamada Michelle Graham, que anda hoje pelos seus setenta e poucos e usava o aliás de Georgina Spelvin, o feminino de um pseudônimo usado por muitos atores americanos iniciantes — George Spelvin.
Lendo hoje em dia as cartas que a suposta parcela esclarecida da população (pelo menos aqueles que são leitores num país de iletrados) escreve aos jornais aplaudindo cada nova lei repressora ou clamando (inconseqüentemente, espero) pela supressão de alguma garantia constitucional começo a pensar que liberar "O Demônio..." foi um erro. Mesmo com o fim da censura alguém — ou a OAB ou a Igreja Católica, que são sempre ouvidas — deveria ter se insurgido contra o filme, que pelo visto contaminou boa parte da quem o assistiu: aparentemente todos os seus espectadores gravaram no cérebro o mantra de Miss Jones, "f**k me harder" e agora o repetem inconscientemente. É a Síndrome de Georgina Spelvin.
Vejamos dois exemplos recentes, e um terceiro nem tanto: a chamada Lei Seca, o Habeas Corpus de Daniel Dantas, e o Estatuto do Desarmamento.
Tínhamos uma lei bastante adequada para coibir a condução de veículos sob a influência do álcool, com um limite de tolerância semelhante — até menor — ao da maioria do mundo civilizado. Tal lei não era freqüentemente aplicada porque os motoristas não eram nunca fiscalizados. Mas bastou que surgisse uma norma nova com total intolerância para que todos não só a aplaudissem como esquecessem o resto das leis penais e se concentrassem só na repressão aos motoristas bêbados — presumo que o Rio de Janeiro tenha voltado magicamente ao controle do Estado e os assaltos tenham acabado no resto do país, pelo menos a julgar pela manchete otimista do Estado de Minas: "Quarenta e nove mil policiais (o efetivo da PM-MG) vão fiscalizar motoristas bêbados”.
Em seguida veio o embate entre o ministro Gilmar Mendes e o juiz De Sanctis, com os advogados criminalistas em geral fazendo uma defesa apaixonada do primeiro e as associações de classe da magistratura e do Ministério Público se colocando ao lado do juiz.
Mas antes já tínhamos passado pela hoplofobia coletiva do Estatuto do Desarmamento, que iria transformar o Brasil numa penada de Mirapólvora em Miraflores, para parafrasear uma estória da minha infância. Mas não só os AR15 continuam cantando alegremente nos morros cariocas (porque os donos deles sempre se esquecem de registrá-los) como algumas normas foram até afrouxadas.
E como ficaram as Georginas diante disso? Aplaudiram a lei seca e pediram mais, com gritos de "Harder! Harder!"; demonizaram o ministro e se derreteram para De Sanctis, como haviam lamentado que o Estatuto fosse molinho demais — ah, se o Plebiscito tivesse tido outro resultado! Harder! Harder!
Mas do mesmo jeito que no filmeco Miss Jones acha que vai se deleitar no inferno e acaba tendo um final infeliz, presa pela eternidade ao lado de um misógino, as Georginas se esquecem de algumas coisas em seu enlevo orgástico.
Em primeiro lugar, são eles mesmos os alvos de tantos novos estatutos repressivos: quando o Estado é incapaz de conter a criminalidade violenta ou erradicar a corrupção de seus próprios representantes, que tal pegar alguns caras da classe média para exemplo? Pour encourager les autres, sabe. Afinal de contas, a Classe Média — as Georginas da vida — é a vítima ideal: enredada entre o cartão de crédito e a opinião dos vizinhos ela paga seus impostos, cumpre suas penas e se resigna a receber tão pouco em troca sem chiar: nenhuma escola decente para os filhos, nenhuma segurança pública, assistência médica nem pensar. Ela segue pagando a sua Unimed e a escola particular e o seu vigilante e até se orgulha no íntimo quando o assassinato passional virou na imprensa o Crime da Mansão — e o dono que pensava que era só um sobrado financiado.
Curiosamente, alguém (o Judiciário) acaba achando que as leis feitas para colocarem finalmente ordem em tudo têm sempre uma imperfeição — uma inconstitucionalidade aqui e outra ali. Como as do Estatuto do Desarmamento, que previam prisão preventiva irrevogável e negavam a concessão de fiança e acabaram não dando em nada porque ferem a Constituição, e a Lei Seca, que tende a seguir pelo mesmo caminho, porque a obrigatoriedade do bafômetro é frontalmente contrária ao princípio de que ninguém é obrigado a produzir prova contra si mesmo.



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Por Sérgio Corrêa de Siqueira
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